sexta-feira, 16 de março de 2012

Os grandes produtores de vinho brasileiro estão com fome. O apetite parece cada vez mais incontrolável. Depois do abominável selo fiscal dos trópicos, eis que os "gênios" que dominam a produção do vinho nacional conseguiram a proeza de retirar não um coelho, mas um mamute da cartola: a lei da salvaguarda. Em bom português, trata-se de um projeto indecente, que visa, como forma de proteger o vinho nacional das invasões bárbaras dos produtos do resto do mundo, aumentar o imposto de importação de 27% para 55%! Ou seja, já temos um dos maiores impostos do mundo! Mas a carga tributária insana vigente no Brasil não parece ser suficiente para proteger os pobres coitadinhos dos grandes produtores nacionais. Eles querem mais. Não importa os meios que tenham que usar para conquistar mais mercado. Por trás deste movimento estão quatro entidades, todas sediadas no Rio Grande do Sul, estado que concentra a produção nacional, tanto de vinhos finos como os de mesa: o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), a União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), a Federação das Cooperativas do Vinho (Fecovinho) e o Sindicato da Indústria do Vinho do Estado do Rio Grande do Sul (Sindivinho) e as vinícolas Aurora, Salton, Miolo, Perini, Luiz Argenta e Don Giovanni.

E quando falo os grandes produtores nacionais, é porque os pequenos, artesanais, estes sim, pobres coitados, sofrem com a "burrocracia" do selo fiscal e sofrerão novamente com o aumento desta alíquota. A razão é simples: a competição é o melhor regulador do mercado. Quem trabalha bem fica. Quem não faz direito, morre. Os grandes produtores, latifundiários do vinho, alegam que competem em condições desiguais, pois não têm os mesmos incentivos à produção que outros países desfrutam. Ora bolas, se o problema é esse, que lutem, pois, com a mesma sede, por uma redução nos custos da cadeia produtiva.

Há 15 anos, o vinho brasileiro de qualidade não existia. Os produtores, na grande maioria descendentes de italianos, faziam um produto pra lá de ruim, cheio de defeitos, fruto de ideias defasadas na vinha e de ausência de conhecimento na adega. Se este quadro mudou, foi por conta da chegada dos vinhos importados, que abriram o mercado e os olhos destes produtores para a porcaria que eles faziam.

Pois o mercado cresceu, a cultura de vinho vai aos poucos sendo instalada no país. E se os vinhos brasileiros não cresceram na mesma proporção é porque não trabalharam direito. Inexiste uma política de preços, de custos, o marketing é feito ao deus-dará. Não há união entre os grandes produtores, exceto quando o assunto é taxar o vinho importado.

O inimigo do vinho brasileiro não é o produto importado. Mas a falta de visão dos grandes produtores. E a qualidade (ainda discutível) e o preço fora da realidade dos vinhos que produzem.

É hora de dar um BASTA! Consumidor, reaja! Caso esta lei seja aprovada, NÃO COMPRE MAIS vinho brasileiro, especialmente os feitos por estes produtores que nos querem empurrar goela abaixo as próprias limitações. O BOICOTE é nossa arma!

Se você também é contra, assine o abaixo-assinado contra esse abuso no link:

http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2012N22143


Alexandre Lalas
jornalista e crítico de vinhos

quarta-feira, 14 de março de 2012

Volta ao mundo em cinco pratos

Inês Braconnot, crudívora de carteirinha (a esq na foto, com a chef), me convidou na semana passada para um jantar diferente, pelo menos para mim. No menu só ingredientes vivos. Ou, se você preferir, crus. Daí o nome crudívora. Os adeptos só se alimentam de vegetais crus. Mas não pense que isso significa simplesmente ralar uma cenourinha e colocar no prato. É algo muito além disso. Uma culinária que usa a técnica de desidratação dos alimentos e a germinação dos grão, que é o que dá força à comida e potencializa os nutrientes.

Inês resolveu juntar um grupo de pessoas para jantar e aproveitar que a chef canadense, Stéphanie Audet, estava no Brasil. Foi uma mostra de que essa culinária tem traços de alta gastronomia também. Stéphanie, roda pelo mundo ensinando a alimentação viva, quando não está viajando, fica no restaurante Crudessence (www.crudessence.com), em Montreal, no Canadá.

Éramos dez na mesa, alguns adeptos desta alimentação, outros nem tanto. O aperitivo foi o Kéfir de Goji e Pitanga. Kéfir é uma bebida fermentada, nesse caso ela usou a frutinha tibetana, a goji, que é rica em aminoácidos e a pitanga. Eu achei um pouco estranho, mas para os mais entendido foi um frison só.

O amuse-bouche era Cogumelos marinados, recheados com Patê de Nozes e Dill fresco coberto com Sour Cream de Pignoli e Alecrim. Tratava-se de cogumelos sem o caule, servidos “de cabeça para baixo” e por cima um creme de pinoles e alecrim. Denso e gostoso.


Seguimos com Sopa Thai de Côco, Coentro e Açafrão com Gengibre e Shitake. Muito delicada, de coentro, açafrão-da-terra, algas e cogumelos. Gostei muito. É para ser saboreada devagar, para apreciar lentamente o cheiro, os gostos e tudo mais. Obviamente, como gostei bastante, fui a primeira a acabar.


Existe toda uma preparação dos pratos, que tem que ser feito na hora de servir, por esse motivo há certa demora entre um parto e outro. Nesse momento percebi que comecei a ficar um pouco sonolenta e minha barriga se agitava. Como tínhamos tempo, começamos a conversar.

Quando chegou Lasanha de Abobrinha com pesto de Pistache fresco, fiquei encantada. Para mim, o prato mais bonito da noite. Muito saboroso também. Tudo nessa alimentação tem frescor.


A essa altura do jantar, todos a mesa, já se sentiam próximos e cada um de nós começou a fazer algum tipo de revelação. Um disse que é louco por salame, outra disse que por ser achar muito louca se tornou uma pessoa regrada. Tiveram aquelas que disseram que essa comida dá vontade de lamber o prato. Eu não disse nada, mas meu corpo disse. Comecei a me sentir com muita energia e minha barriga continuava agitada.

Para que todos ficassem quietos, chegou o Ravioli de Beterraba recheado com Ricota de Figo e Macadâmia, servido com Rúcula, Abacaxi e molho de mel de Figo e Balsâmico. A beterraba disfarçada de ravióli era cortada bem fininha e era crocante ao morder. Não gostei muito da salada. O abacaxi estava doce demais, achei que a combinação não funcionou bem.



Quando veio a sobremesa, (Torta Creme de Maple, Caqui, Castanha do Pará e Nibs de Cacao crocante com Yogurte de Côco fresco e Limão) levei um susto, era uma fatia enorme de torta de caqui com maple, para que não restasse dúvida a respeito da nacionalidade da chef é! E a crostinha era feita de cacau e noz do Brasil, para que ela não esquecesse onde estava. Estava tão boa que apesar de já estar satisfeita comi tudo.



Só depois do jantar é que me dei conta de que todos os pratos eram servidos em temperatura ambiente. Tudo me pareceu muito natural, talvez por isso, enquanto comia, não tenha nem notado. O sal, que a chef nos disse que usa com parcimônia, também nem se fez notar.

No final, Inês agradeceu muito a presença de todos e disse que estava realizando um sonho, que era reunir à mesa pessoas amigas e poder dividir com elas a comida que ela acredita como forma de vida. Na verdade quem tem que agradecer sou eu! Para mim foi uma experiência e tanto. A propósito, minha barriga parou de sacolejar. Acho que ela levou um susto com a tanta comida vida de uma vez só, uma mudança pra lá de súbita na minha alimentação normal.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Essência do Vinho



Mal passava das 9 da manhã quando cheguei para ao Palácio da Bolsa para a prova de escolha do Top 10 da EV – A Essência do Vinho, feira patrocinada pela revista Wine, que acontece anualmente na cidade do Porto, em Portugal, e que teve a nona edição realizada entre os dias 16 e 19 de fevereiro. As portas seriam abertas ao público apenas às 15 horas. Mas tudo já estava devidamente arrumado. As mesas postas, com os nomes dos respectivos produtores, cuspidores, corredores largos, enfim, um show de organização.

Não por acaso, a EV firma-se, ano a ano, como um dos mais importantes eventos de vinho em Portugal. Nesta edição, participaram cerca de 350 produtores, que disponibilizaram ao redor de 3 mil vinhos para degustação, incluindo alguns tops de linha. Nos quatro dias de evento, cerca de 20 mil pessoas passaram pelo Palácio da Bolsa. E o número de visitantes estrangeiros chegou ultrapassou a marca de 3 mil, ou seja, pelo menos 15% do público total.

Voltando à prova do Top 10 (realizada na manhã do dia 16, antes de a feira abrir), éramos diversos jornalistas, entre portugueses e estrangeiros (de 11 diferentes nacionalidades), avaliando 45 vinhos pré-selecionados (8 brancos, 31 tintos e 6 portos). Para compor a lista dos 10 melhores da feira, seriam escolhidos o melhor branco, os oito melhores tintos e o melhor porto. Entre os brasileiros, além do repórter que vos escreve, estavam a Suzana Barelli, editora-chefe da revista Menu; Dias Lopes e Alexandre Bronzatto, respectivamente editor e colaborador da revista Gosto; e o advogado Carlos Celso Orcesi, colunista de vinhos do jornal Diário do Comércio, de São Paulo. As notas seguiam o padrão consagrado em Portugal, com um máximo de 20 pontos. Destaque para o alto nível da prova, em especial, nos vinhos brancos.

O resultado final foi divulgado no dia seguinte, durante um jantar no luxuoso restaurante do hotel Yeatman, onde tive a honra de entregar um dos prêmios concedidos. Além dos vinhos premiados no Top 10, a solenidade serviu para que a revista Wine entregasse os troféus aos melhores do ano segundo a publicação.

Na feira, além dos expositores, chamou a atenção o bom número de degustações paralelas. Entre elas, “vinhos exóticos de Portugal”, comandada pelo crítico de vinhos português Rui Falcão, e “os grandes moscatéis de Setúbal da Bacalhôa”, conduzida pela enóloga Filipa Tomáz da Costa.

Os brasileiros terão a possibilidade de conferir in loco a capacidade organizacional do pessoal da EV no mês que vem. É que entre os dias 20 e 22 de março a recém-criada Essência do Vinho Brasil realiza, no Rio de Janeiro a “Brasil International Wine Fair”, uma feira internacional de vinhos que está incluída na 24ª edição da “Super Rio Expofood”, no Riocentro. Se a feira carioca mantiver os padrões de qualidade da irmã mais velha do Porto, estaremos bem na fita...

Confira abaixo os vinhos indicados para o Top 10, os vencedores do concurso e os premiados pela revista Wine:



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

por Luciana Plaas


Pela segunda vez, na mesma semana, saí de casa para o jantar no restaurante Eñe. Mas, ao contrário do dia anterior, quando me confundi toda, desta vez era sim a data certa do jantar. Confesso que deu uma preguiça danada de sair de casa de novo, mas não é sempre que se tem a chance de comer trufas negras. Por isso, tomei coragem e lá fui eu novamente. Ao rever o manobrista do hotel, nos cumprimentamos como velhos conhecidos. Com o maître, já no restaurante, foi a mesma coisa.

Enquanto esperava os outros convidados para o festival de trufas, o chef Javier nos contou que ele mesmo colheu as trufas. E disse que ficou com medo da alfândega quando chegou no Brasil com a mala recheada de trufas, quatro quilos para o festival. Felizmente, elas chegaram sãs e salvas para nossa alegria.

Tudo começou com o Royal de trufas. Um creme leve de trufas, feito à base de caldo de vitelo. Era aveludado, deu vontade de pedir bis.



O primeiro prato foi a Crema de feijão verdes com trufas. O chef explicou que o feijão usado para fazer o creme, é branco, mas colhido ainda verde, para acentuar o gosto. Foi servido com gelatina de consome, em cubos, bacon e trufas. Creme denso combinou muito tudo.



De todos os pratos, o mais surpreendente foi o Ovo com jamón e trufas. Era um ovo servido em creme de espinafre, com fatias de presunto e trufas. Pra começar, ovo com trufas, por si só já é muito bom, esse então estava um espetáculo. O creme de espinafre deu liga e leveza ao prato e o jamón contribuiu com textura e sabor.



Outono com trufas foi o nome do prato seguinte, uma emulsão de cogumelos catalães, lâminas de trufas e areia de cogumelos. Foi o prato que menos me encantou. Achei bastante pesado, faltou a leveza que encontrei em todos os outros pratos.



O prato de peixe foi uma garoupa com molho de civet (molho denso de vitelo), servido com raiz salsifí (uma raiz catalana que não tem tradução) e lâminas de trufas. Gostei muito do peixe servido com o molho de carne, deu corpo ao prato. A garoupa estava desmanchando na boca, muito delicada.



Em seguida, veio o inevitável porquinho, que não podia mesmo faltar. Chamava-se mil folhas de coxinilho com trufas. As trufas estavam em lâminas intercaladas entre o jamón e o porco, formando assim o mil folhas. Foi servido com um purê de cará e molho perigueux com trufas. Derretia na boca, um sabor maravilhoso e o tamanho da porção, perfeita.



O prato de queijo, foi com o Torta del casar, queijo de denominação de origem, da região da Extremadura. O chef fez uma terrine do queijo com trufas trituradas. O queijo sozinho fica um pouco cansativo, mas o vinho, Dehesa Gago, cumpriu seu papel com primor. Segurou o queijo direitinho. Foi um casamento e tanto.



A sobremesa se chamava Joia de chocolate com sorvete de baunilha. Nessa sobremesa, o chocolate, tinha uma textura toda especial, era como estivesse a ponto de endurecer. Muito diferente e nada enjoativo. O sal que tinha por cima de o toque que faltava. A trufa era uma poeira por cima. O sorvete misturava os sabores. Esse foi o prato que fiquei com mais medo. Quando li o menu, pensei: isso pode dar muito errado. Mas, para minha felicidade, aconteceu o contrario: estava divino.




Todos os pratos foram harmonizados com vinhos em taças, que nesse caso é a melhor opção. Pena que não pude provar todos por conta da Lei Seca que poderia estar me esperando no caminho de volta.


Foi uma noite e tanto, valeu muito ter voltado pela segunda vez na semana a São Conrado. O Eñe está sempre trazendo alguma novidade, é só ficar atento para qual será a próxima.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Termina hoje, em Montpellier, na França, a Millesime Bio 2012, a maior feira de vinhos orgânicos e biodinâmicos do mundo. Diretamente do evento, Rogério Rebouças, colaborador do Wine Report, entrevistou o produtor português Paulo Sendim, do tinto alentejano Zebro. Abaixo, confira o vídeo com a entrevista.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O renascer do Kosovo



Na adega da Stone Castle os cheiros de vinho e madeira se misturam no ar. Cerca de cinco milhões de litros de pinots, merlots e chardonnays estagiam em diversas barricas e tanques. Orgulhoso, Shani Mullabazi, diretor geral da vinícola, balança uma taça do chardonnay 2010 e comenta. “É fresco. Tem uma excelente acidez, é vivo, e muito bom na boca”, diz. A Stone Castle fica em Rahovec, sudoeste do Kosovo. A indústria de vinhos do país literalmente quebrou nos anos 1990, com a guerra que veio a reboque do esfacelamento da Iugoslávia. Mas após anos de ajuntamentos dos cacos, há sinais de que a reconstrução vai se consolidando e o vinho do Kosovo vai, timidamente, ficando de pé novamente.

Rahovec – chamada de Orahovac pela minoria sérvia – é, há séculos, a maior área vitivinícola do Kosovo. Os vinhos de mesa feitos ali costumavam abastecer toda a Iugoslávia comunista. “Até os anos 1980, os vinhos daquela região tinham uma boa reputação, principalmente os feitos com a pinot noir”, diz a consultora Angela Muir, especialista em rótulos da região dos Balcãs.

Até o começo da guerra, as coisas iam bem para os produtores do Kosovo. Além de abastecerem as mesas iugoslavas, boa parte dos vinhos feitos ali era exportada para a Alemanha. Mas veio o pior e a indústria local foi desintegrada. Vinhas e adegas, em suma, toda a infraestrutura existente para a produção de vinhos foi abaixo, destruída.

Quando a guerra acabou, as vinícolas – então propriedades do estado – foram privatizadas. E começou o longo e árduo trabalho de reconstrução. Hoje em dia, finalmente, os ares estão mais leves e a indústria vinícola do Kosovo pode voltar a sorrir. E fazer planos.

Miro Brkic era economista. Virou produtor de vinhos. E defende com unhas e dentes a Rahovec em que vive. “Temos em média 270 dias de sol por ano. Esta é uma região perfeita para a produção de vinhos finos”, diz. “Se você for mais ao sul, para a Macedônia, as uvas têm muito açúcar. Ao norte, na Sérvia, a acidez é elevada demais”, compara.

Shani Mullabazi, da Stone Castle, diz que já opera em plena capacidade, produzindo 30 milhões de litros por ano. Agora, quer invadir a América. “No próximo verão, começaremos a vender nossos vinhos em Nova Iorque. Ali há uma grande comunidade de kosovares albaneses”, aposta.


Dono de uma pequena vinícola em Rahovec, Visar Hajrullaga foi buscar auxílio na Alemanha para aprender técnicas sofisticadas de enologia. E acredita que a vranac, uva autóctone dos Balcãs, pode ser um diferencial na conquista por um lugar ao sol – ou nas prateleiras das lojas e supermercados. “É uma uva que facilmente atinge os 14% de álcool, coisa rara nos tintos da nossa região”, ensina Hajrullaga.

Mas não foi apenas a guerra que minou as forças da indústria vinícola kosovar. O embargo promovido pela Sérvia aos produtos do país quando o Kosovo proclamou unilateralmente a independência de Belgrado atingiu em cheio os produtores, que ainda estavam em processo de reconstrução e vendiam seus rótulos majoritariamente no mercado sérvio. Recentes acordos foram costurados para que as vinícolas kosovares pudessem novamente vender aos sérvios.

Querelas políticas a parte, o sonho dos produtores do Kosovo é repetir o sucesso de eslovenos e croatas, também filhotes da ex-Iugoslávia e cujos vinhos ganham, ano a ano, reconhecimento internacional. E nesse dia, após anos de guerras e desavenças, possam brindar, em um palco do tamanho do mundo, e com vinhos kosovares, com certeza, por um presente melhor e um futuro de paz.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Apenas bom

Com uma semana passada do início da colheita na Borgonha, os produtores já traçam um painel mais realista sobre a qualidade da safra 2011 na região. E há quase uma unanimidade sobre o veredito: uma safra boa, mas longe de ser ótima.

A mãe de todos os problemas foi uma quantidade de chuva três vezes maior do que o normal nos meses de julho e agosto: 130 mm. Como consequência, casos de podridão nas vinhas, quebra de 20% na produção e até – em casos extremos – dificuldade de alcançar um teor alcoólico necessário, sendo obrigada a chaptalização (adição de açúcar ao mosto).

“O que poderia ser uma grande safra será apenas um bom ano”, resumiu Thierry Brouhin, diretor do Clos de Lambray. “Por conta da podridão que atacou as vinhas, teremos cerca de 20% a menos de uvas. A chave para o sucesso está em uma rigorosa seleção no vinhedo”, completou.

Marie-Andrée Mugneret, da Domaine Mugneret-Gibourg, em Vosne Romanée, disse que quem soube trabalhar durante o ano, teve como minimizar os efeitos da chuva. “Tivemos um verão caprichoso, depois de uma primavera muito seca e uma floração precoce. Quem trabalhou bem a vinha lá atrás, fez poda verde – coisa que nem todo produtor fez – pôde conter os danos causadas pelas chuvas”, explicou. “Nossas uvas estão saudáveis e com uma fina maturação”, completou Marie-Andrée.

Para Jacques Lardiere, diretor da Louis Latour, em Beaune, a safra 2011 guarda muitas semelhanças com outro ano complicado: 2007. “Uma primavera seca predizia uma colheita precoce, mas aí – assim como em 2007 – veio a chuva, embora em menos intensidade e volume do que naquele ano. Por isso, podemos dizer que esta safra deve ser um pouco melhor do que aquela”, apostou.

Livre dos problemas de podridão nas vinhas, um dos melhores produtores de Corton Charlemagne, Jean-Charles Le Bault de la Moriniere, da Domaine Bonneau du Martray, aposta em uma safra melhor para os vinhos brancos.

Já Aubert Lefas, da Domaine Lejeune, em Pommard, acredita que será necessário fazer chaptalização para elevar o teor alcoólico em alguns vinhos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Em xeque



“Todos os anos, milhares de consumidores ao redor do mundo saboreiam as frutas e os renomados vinhos que vêm dos vinhedos da África do Sul. No entanto, os trabalhadores rurais que produzem esses bens para consumo interno e exportação internacional estão entre as pessoas mais vulneráveis da sociedade sul-africana: trabalham longas horas em condições de temperaturas extremas, muitas vezes sem acesso a banheiros ou água, expostos a pesticidas tóxicos que são espalhados nas plantações. Para realizar este trabalho fisicamente extenuante, ganham o equivalente aos piores salários pagos na África do Sul e, muitas vezes, têm negados benefícios que lhes são garantidos por lei. Muitos trabalhadores rurais enfrentam obstáculos para organização sindical, que praticamente inexiste no setor agrário de Western Cape. Frequentemente, trabalhadores rurais têm o direto de posse da terra onde nasceram questionados e são obrigados a abandonarem a terra onde vivem”. Assim começa o relatório intitulado Ripe With Abuse, elaborado pelo Human Rights Watch (HRW), órgão que fiscaliza o cumprimento dos diretos humanos no mundo, e que expôs as mazelas da indústria vitivinícola sul-africana.

“Das nove províncias sul-africanas, o maior número de trabalhadores rurais (121 mil) vivem na rica e fértil Western Cape. Apesar do importante papel que exercem no sucesso das valiosas indústrias do vinho, do turismo e da fruticultura, estes trabalhadores são muito pouco beneficiados com os lucros destas atividades, em grande parte por conta da exploração a que são submetidos, com abuso dos direitos humanos e falta de proteção aos seus direitos legais. Estas práticas abusivas que ocorrem em diferentes graus em uma grande variedade de fazendas, são perpetrados por fazendeiros ou empresários agrícolas que são objeto de regulamentação por parte do governo Sul-Africano. No entanto, o governo falhou em proteger os direitos dos trabalhadores rurais e moradores destas fazendas”, prossegue o texto.

A conclusão final do relatório é de que o governo sul-africano falhou em promover saúde, habitação em garantir os direitos constitucionais a estes trabalhadores. Para resolver a situação, a indicação é de uma melhor coordenação dentro dos setores do governo, além de um uso mais inteligente e transparente dos recursos disponíveis. Por fim, o relatório faz um apelo aos donos de fazenda para que garantam que os direitos básicos dos trabalhadores sejam respeitados. O texto chama a atenção para o fato de que, apesar de várias iniciativas éticas e códigos de conduta que têm sido desenvolvidos com o objetivo de melhorar esta situação, “muitos fazendeiros continuam a negar aos seus trabalhadores os direitos universais fundamentais de saúde, moradia e condições dignas de trabalho”. O relatório encerra com um apelo para que os “cidadãos sul-africanos, assim como consumidores internacionais das frutas e vinhos do país, devem continuar a pressionar tanto o governo quando os fazendeiros para remediar esta negação dos padrões básicos de vida a que os trabalhadores rurais e moradores das fazendas têm direito”.

O relatório tem 96 páginas e foi baseado em entrevistas realizadas entre 2010 e 2011 com mais de 260 pessoas incluindo trabalhadores rurais e moradores de grandes fazendas. O resultado, nada elogioso para a indústria de vinho local, foi duramente questionado pela CEO da Wines of South Africa (WOSA), Su Birch, que alertou para o dano que o texto pode causar à imagem do vinho sul-africano. “Este relatório foi baseado em evidências aleatórias”, declarou. “Nossa decepção com o viés deste relatório, no entanto, não é de modo algum uma indicação do nosso apoio a qualquer tipo de práticas desumanas. Apenas expressa nossa preocupação de que o consumidor de vinho no mundo possa fazer uma imagem distorcida da indústria vitivinícola sul-africana”, completou Birch. “Ironicamente, este relatório pode, no final das contas, comprometer o trabalho do próprio povo que pretende defender”, advertiu.

Birch também diz que o relatório “falhou ao não reconhecer organizações como Wine Industry Ethical Trade Association (WIETA) e Fairtrade que visam melhorar as condições de trabalho no país”. E assegurou que a África do Sul é o país no mundo com o maior número de produtores de vinho credenciados no Fairtrade. Outra reclamação de Birch é de que o relatório não faz nenhuma menção ao Integrated Production of Wine (IPW), organização sul-africana que defende a produção eco-sustentável e estabeleceu diretrizes claras sobre a utilização de pesticidas e a proteção dos trabalhadores nas vinhas.

As alegações de Birch são rebatidas enfaticamente por Daniel Bekele, diretor do HRW. “A riqueza e o bem-estar gerados pelos bens que estes trabalhadores produzem não devem fincar raízes na miséria humana”, declarou. “o governo e as indústrias e os próprios agricultores, precisam fazer muito mais para proteger as pessoas que vivem e trabalham em fazendas”, acrescentou Bekele. Sobre o risco de que os trabalhadores percam o emprego caso haja uma mobilização internacional contra os vinhos sul-africanos, o diretor da HRW foi claro: “não queremos que ninguém boicote os produtos sul-africanos, isto seria um desastre para os próprios trabalhadores rurais. O que fazemos é pedir aos compradores que pressionem aos seus fornecedores para que sejam dadas garantias de que o produto em questão venha de uma fazenda que proporciona condições decentes de trabalho”, disse Bekele.

Para ler o relatório completo, clique em
http://www.hrw.org/reports/2011/08/23/ripe-abuse-0



terça-feira, 12 de julho de 2011

Até tu, Quênia?

O queniano Pius Mbugua Ngugi é dono da Kenya Nut, empresa dedicada à produção de nozes. Mas, fazia tempo, queria mesmo era fazer vinhos. Nos anos 1990, chegou a plantar vinhas e construir uma pequena adega, mas a incapacidade de produzir com consistência produtos de qualidade o fez, temporariamente, abandonar o projeto.

James Farquharson passou a infância entre a Escócia, o Quênia e a África do Sul, país onde fixou residência e estudou enologia. Lá, já formado, trabalhava em um importante posto de direção em uma das maiores vinícolas privadas sul-africanas. Era um trabalho repleto de responsabilidades, sobretudo administrativas. Mas era pouco para quem almejava por a mão na massa, ou no mosto, literalmente falando.

Até que, há três anos, uma mensagem de um rico empresário queniano mudou a vida de James. Era Pius Mbugua Ngugi, com um convite para um projeto tão audacioso quanto maluco e improvável: produzir vinhos de qualidade no Quênia. Sem pestanejar, de olho na oportunidade de viver uma aventura única, James aceitou de pronto o convite. Nascia, enfim, a Rift Valley Winery, localizada às margens do lago Naivasha, a 75 km a noroeste de Nairóbi e região mais conhecida pelos flamingos cor de rosa e pelas grandes plantações agrícolas.

As vinhas ficam nas montanhas, no vale do Rift, a mais de dois mil metros de altitude. Com barba por fazer, botas de vaqueiro, cabelo desgrenhado, camisa quadriculada e calça de texano, James supervisiona o trabalho das mulheres de todas as idades que fazem a vindima. Caixas repletas de uva na cabeça, elas são quem colhem a matéria prima do sonho de Ngugi.

Os inúmeros desafios não tiram o sono de James. “Estamos praticamente na Linha do Equador, a uma grande altura. Isto faz com que o crescimento das uvas seja muito diferente de lugares como França ou África do Sul. E praticamente não há literatura sobre a produção de vinho em contexto semelhante, portanto, temos, o tempo todo, que nos adaptarmos. E inovarmos”, diz o enólogo.

O vinho produzido se chama Leleshwa. Tem nas versões branco, rosado e tinto. Sobre a qualidade da bebida, James é direto e franco: “nunca faremos um grand cru, ao estilo francês. Aqui nos mantemos simples, sempre respeitando os fundamentos básicos da produção de vinho”, explica.

Segundo Marcus Mitchell, chef e gerente do restaurante Talisman, um dos mais respeitados de Nairóbi, o objetivo de James e Ngugi têm sido alcançado. “O vinho é correto, bem feito. É ligeiro, de verão, bem queniano”, analisa.

E é justamente no fato de ser tipicamente um produto queniano que reside a força do Leleshwa, segundo Ngugi. “Até agora a resposta tem sido muito boa. Se a gente comparar com os rótulos mais simples do Chile e da África do Sul, estamos em vantagem. Até por que não temos que pagar os mesmos impostos que eles, e podemos ter um preço muito competitivo. E, além do mais, os turistas se encantam em poder provar um vinho feito no país”, conta.

Mas não são apenas os turistas que têm provado o Leleshwa. A classe média local também tem abraçado a ideia de provar um vinho queniano. Por essas e outras, Ngugi espera aumentar, em dez anos, a produção atual, que é de 80 mil garrafas por ano, para três milhões. E tudo com o aval de James, que espera ver as uvas mostrarem um potencial ainda melhor com uma década pela frente.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Barca Velha aporta na Lagoa

O jornalista Alexandre Lalas, editor do Wine Report, vai comandar uma degustação dos sonhos, na próxima terça-feira, dia 12 de julho, no restaurante Mr. Lam, na Lagoa, Zona Sul do Rio de Janeiro. Seis safras do Barca Velha, o maior ícone de Portugal, serão provados na noite: 1965, 1978, 1983, 1991, 1999 e 2000. Além da degustação, Alexandre irá falar um pouco sobre a mística e a história do Barca Velha.

A degustação faz parte do projeto CAVE (Cariocas Amantes de Vinhos Especiais), que já promoveu uma prova com os vinhos da Domaine de La Romanée Conti e outra com champanhes especiais.

Após a degustação, será servido um jantar harmonizado com vinhos portugueses.

O preço por pessoa, com jantar e serviço incluído, custa R$ 1,2 mil.

As reservas podem ser feitas através do telefone 2286-6661 ou no email rafaela.nobrega@mrlam.com.br.

terça-feira, 21 de junho de 2011

A maldição da estrela

Quando os críticos do Guia Michelin concedem uma estrela a um restaurante, a expectativa dos donos é de que filas se formem na porta e a casa fature alto. Nem sempre é assim. A vida real mostra que nem apenas de prêmios vive um estabelecimento comercial. Vide o exemplo de Olivier Douet, chef e dono do Le Lisita, bistrô que fica em Nîmes, no sul da França, e agraciado com uma estrela Michelin desde 2006. Com o restaurante vazio e cansado dos altos custos necessários para manter um restaurante padrão uma estrela Michelin, o chef radicalizou: devolveu o prêmio aos organizadores.

Quando ganhou a honraria, Douet comemorou. Mal sabia ele que, pouco tempo depois, a tal estrelinha se transformaria quase em uma maldição. Manter o padrão estrelado de um restaurante não é barato. É a excelência do atendimento, a qualidade dos ingredientes. Tudo isso custa caro. E, para que a conta no fim do mês feche, acaba refletindo nos preços cobrados no cardápio.

Só que os habitués da casa não gostaram da novidade e foram sumindo do restaurante. Novos clientes não vieram na mesma proporção em que os antigos foram minguando. E a crise de 2008 foi a pá de cal nos planos de Douet. O chef, que pensava em ampliar o restaurante usando um terreno na parte de trás da casa, lutou arduamente para não quebrar.

A maneira encontrada por Douet para não precisar fechar as portas da casa foi voltar às raízes. E transformou o Le Lisita em uma informal brasserie. “Em um restaurante estrelado, é preciso um garçom para cada cinco, seis pessoas. Em uma brasserie, o mesmo cara atente até 30 clientes”, explicou o chef.

Sem estrelas, mas com custos menores e preços mais baixos, Douet espera trazer de volta os velhos clientes.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Malte que vale ouro



A Chivas Brothers lançou um uísque que custa US$ 200 mil (R$ 320 mil), mais as taxas. A bebida foi feita em homenagem às mais antigas joias da coroa britânica: a Honours of Scotland.

O blend do Royal Salute Tribute to Honour inclui uísques raros selecionados da Royal Salute Vault, da destilaria Strathisla. O master blender Colin Scott produziu apenas 21 garrafas do Tribute to Honour, justamente para marcar os 21 anos de carreira dele como blender.

“A Chivas tem um fenomenal arquivo de uísque super velhos e, alguns deles, depois de décadas de lenta e cuidadosa maturação, adquirem uma riqueza, intensidade e concentração únicas, suntuosas. São destes poucos e preciosos líquidos que eu, pessoalmente, selecionei o blend e compus o Tribute To Honour”, disse Scott.

A garrafa é de porcelana preta, com detalhes em ouro e em prata, e é enfeitada com 413 diamantes brancos e negros.

O uísque será lançado em setembro deste ano e as garrafas serão individualmente numeradas. Do lote de 21 garrafas produzidas, apenas 20 serão vendidas. Uma ficará guardada na Royal Salute Vault. O interessado em comprar uma das garrafas pode tentar a sorte através do email Giaia.Rener@pernod-ricard.com.

terça-feira, 10 de maio de 2011

A malbec que se cuide


Houve um tempo em que o verdadeiro cabernet era o franc. Uma época anterior à atual, pra lá de distante. Mas um belo dia, o cabernet franc e a sauvignon blanc resolveram cruzar. Nascia a cabernet-sauvignon. E hoje em dia, quando alguém fala em beber um cabernet, definitivamente não é do franc que a pessoa está falando.

Mas se hoje vive à sombra da filha famosa, não dá pra negar que a cabernet franc segue tendo lá a sua importância no mundo dos vinhos. Basta lembrar que o Cheval-Blanc, um dos melhores (e mais caros) vinhos do mundo é feito com a uva. E em Bordeaux a cepa é bem comum a presença da uva nos cortes de vinhos da região. O auxílio luxuoso da cabernet franc é sempre bem-vindo para ajudar a domar a agressividade da cabernet-sauvignon.

Mas há certos lugares onde a cabernet franc ainda reina soberana. O vale do Loire, na França, é um destes recantos sagrados da uva. Ali, deliciosos chinons e st-nicolas-de-bourgueils são feitos com a casta. No Friuli – região italiana – a uva também gera grandes vinhos. Há varietais ainda de cabernet franc espalhados pelo Novo Mundo. Na Argentina e no Chile são realidade. Australianos, neozelandeses, sul-africanos, uruguaios, norte-americanos e canadenses fazem vinhos com a uva. Para algumas pessoas, o Brasil tem potencial para produzir bons rótulos com a cabernet franc. E em outros países europeus, como Espanha e Hungria, é possível encontrar tintos feitos com a uva.

Na intenção de entender melhor como se comporta essa casta mundo afora, a Confraria dos Nove e o Wine Report promoveram uma prova às cegas da uva. A degustação foi realizada nesta segunda-feira (9) na loja da Grand Cru, no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio de Janeiro. Participaram da prova os sommeliers Eder Heck, Elaine de Oliveira e Marcos Lima, os enólfilos Duda Zagari, Luciana Plaas e Roberto Cortes de Lacerda, além do repórter que vos escreve. As amostras foram adquiridas diretamente com os importadores ou compradas em lojas do Rio de Janeiro. Seriam 19 rótulos, mas um vinho foi eliminado por apresentar defeito. A degustação foi conduzida pelo sommelier Pedro Osmar, da Confraria Carioca.

A prova foi equilibrada, com os oito primeiros se destacando do resto dos vinhos. Conferidas as notas e reveladas as garrafas, uma surpresa e uma constatação: os cinco primeiros colocados eram argentinos. Ou seja, a uva se dá muito bem por lá, obrigado. Portanto, a malbec que se cuide. Há muito mais no cenário argentino que supunha nossa vã enologia...

Leia o resultado da prova em Wine Report

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Para sempre na memória


Em 1884, ainda havia escravos oficiais no Brasil. A população do país era menor do que hoje é a de São Paulo. Embora em processo de fritura, a monarquia ainda comandava o país. Naquela época, Adriano Ramos Pinto já produzia vinhos do porto. E foi um vinho do porto vintage, da safra 1884, a grande atração de uma prova, seguida de jantar, que a Adriano Ramos Pinto e a importadora Franco Suissa, na noite de quarta-feira, no restaurante Trindade, em São Paulo.

E, mesmo que a noite tivesse sido reservada apenas para o Vintage 1884, já teria sido espetacular. Mas a prova incluiu a degustação de outras seis safras do Adriano Ramos Pinto Vintage. Eram elas: 1924, 1934, 1952, 1970, 1983 e 2007. Portanto, uma prova de vinhos do porto de três diferentes séculos.

Antes da prova, conduzida com maestria por João Rosas, da Ramos Pinto, uma pequena palestra sobre a história da empresa e uma degustação de outros quatro rótulos de vinhos tranquilos da vinícola.

Abaixo, a nota de degustação de todos os vinhos provados no inesquecível evento:

Ramos Pinto Collection 2008
Douro, Portugal
No nariz, fruta vermelha madura, com evolução para carne e coro. Na boca, taninos duros, acidez marcante, bom volume, longo – 8

Duas Quintas Reserva 2008
Douro, Portugal
No nariz, um toque floral, fruta vermelha madura, compota, chocolate. Na boca, boa entrada, acidez viva, macio, cai no meio de boca, recupera com um bom final – 8,5

Duas Quintas Reserva 2000
No nariz, floral, com notas de cassis e licor de amora. Na boca, taninos duros, acidez marcada, perde no meio da boca e tem um final quente e leve amargor – 8

Duas Quintas Reserva 1994
No nariz, fruta madura, passas com evolução para chocolate e café. Na boca, acidez perfeita, taninos finos, bom volume, final longo – 9

Adriano Ramos Pinto Porto Vintage 2007
No nariz, abre com aromas de esmalte, evolui para figo seco, castanha assada e um toque balsâmico. Na boca, bom volume, maciez, final longo – 8,5

Adriano Ramos Pinto Porto Vintage 1983
No nariz, amora, violeta, chocolate, figo seco. Na boca, é intenso, sedoso, volumoso e longo – 9,5

Adriano Ramos Pinto Porto Vintage 1970
No nariz, groselha, pimenta, caramelo, chá. Na boca, é exuberante, elegante, intenso e com um final enorme – 9,5

Adriano Ramos Pinto Porto Vintage 1952
No nariz, eucalipto, chá, pimenta, damasco seco. Na boca, é elegante, harmônico, macio, com bom volume, imenso – 9,5

Adriano Ramos Pinto Porto Vintage 1934
No nariz, caramelo, chá, pimenta, mel, amêndoa amarga. Na boca, é elegante, macio, harmônico, longo – 10

Adriano Ramos Pinto Porto Vintage 1924
É emocionante encontrar um vinho com esta idade e nesta forma ainda tão exuberante. No nariz, marmelada, caramelo, amêndoa amarga, mel. Na boca, intenso, elegante, harmônico, macio, com um final interminável – 10

Adriano Ramos Pinto Porto Vintage 1884
É incrível como um vinho de 127 anos ainda pode estar vivo, em condições de ser degustado. No nariz, já prevalecem os aromas químicos, principalmente iodo, mas evolui para caramelo, e chá. Na boca, ainda conserva acidez, e um final longo e amargo, com um toque de boldo. Seria injusto dar nota a um vinho assim, mas é um prazer e uma emoção prová-lo – s/n

terça-feira, 26 de abril de 2011

O jantar dos chefs

No próximo sábado, dia 30 de maio, vai rolar, em Visconde de Mauá, a 14ª edição do Jantar dos Chefs. O evento – já tradicional no calendário gastronômico da aprazível cidade da serra da Mantiqueira – é a reunião de três amigos cozinheiros com um chef convidado, em uma das melhores pousadas da região. Na Pousada Terras Altas, Flávia Quaresma, Paulo Pinho e Paulo Nicolay recebem Dalton Rangel, para uma noite regada a alta gastronomia e grandes vinhos em um ambiente exclusivo e intimista.


Nesta edição do jantar, caberá à chef Flávia Quaresma a preparação da entrada. Será o Polvo entre o mar e o sertão. Em seguida, virá o primeiro prato, um Spaghettini com camarões e cogumelos, criação de Paulo Nicolay – que além de festejado consultor de vinhos, exibe nestes jantares os dotes culinários que tem. A noite segue com o Brasato ao malbec com batatas perfumadas e alecrim, preparado por Dalton Rangel, o chef convidado, que dirige a cozinha do Yuka, restaurante de Visconde de Mauá. O jantar termina com a Banana caramelada com sorvete de creme de Paulo Pinho, chef do Sagrada Familia, que fica no Centro do Rio. Cada prato vem acompanhado por um vinho, escolhido especialmente por Paulo Nicolay.


As vagas são limitadas, e o preço por pessoa é de R$ 175. Quem preferir, pode se hospedar na Terras Altas mesmo. Clique aqui para acessar o site da pousada. Abaixo, as informações completas sobre o Jantar dos Chefs:

terça-feira, 12 de abril de 2011

A queda

“Meu Armageddon pessoal, enfim, acabou”. Com este desabafo, Patricia Kluge (na foto) resumiu o alívio que sentiu ao saber que o amigo de longa data Donald Trump comprara a Kluge Estate Winery, propriedade de 2 mil hectares, no estado de Virgínia, que pertencia a ela.

Trump pagou apenas US$ 6,2 milhões, pouco mais de um quinto do valor da hipoteca da propriedade, fixada em US$ 28 milhões e muito abaixo do valor estimado pela vinícola, avaliada em US$ 70 milhões.

Nas últimas semanas, vários rumores tornaram a vida de Patricia ainda mais infernal. A central de boatos alimentou a versão de que a viúva de seu ex-marido, John Kluge, poderia comprar junto ao banco a propriedade e transformar tudo em um imenso campo de golfe. Seria um triste fim para a vinícola que Patricia e o marido William Moses montaram em 1999, mas cuja excêntrica administração e erros crassos de avaliação levaram à bancarrota menos de 10 anos depois de aberta.

Leia mais em Wine Report.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O uísque do capitão

Ernest Shackleton foi um explorador anglo-irlandês e é considerado um dos mais importantes desbravadores da Antártida. Entre 1907 e 1909, liderou uma expedição para alcançar o Pólo Sul, mas foi forçado a desistir a apenas 180 quilômetros do destino final, por conta da falta de suprimentos, depois de terem percorrido mais de 3 mil km no continente gelado. Na pressa de voltarem ao barco, já que o gelo já começava a se formar no mar e ameaçava a travessia do barco, Shackleton e seus comandados deixaram para trás alguns suprimentos. Entre os objetos largados no gelo, estavam cinco caixas de uísque escocês e brandy.

Este autêntico tesouro etílico foi encontrado no ano passado, em uma cabana usada pelo explorador na expedição. Embora algumas garrafas tivessem quebrado, a maioria estava intacta. Na ocasião, Richard Paterson, técnico da destilaria Whyte and Mackay, que forneceu o uísque para Shackleton, disse que a receita original para a mistura de maltes não existia mais. Mas manteve a esperança de que a bebida pudesse ser recriada. “Se o conteúdo puder ser confirmado, extraído com segurança e analisado, pode ser possível reproduzir a mistura original”, disse Paterson.

Pois nesta semana, a Whyte and Mackay anunciou que conseguiu recriar o uísque centenário enterrado no gelo pelo famoso explorador. Depois de semanas misturando e combinando diferentes tipos de malte, Richard Paterson garante que conseguiu chegar à exata mistura da bebida de Shackleton. O sucesso da empreitada foi atestado pelo especialista em uísque, Dave Broom – única pessoa de fora da Whyte and Mackay a provar tanto o líquido da garrafa original quanto a recriação de Paterson.

Leia mais em Wine Report

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Merlot is on fire

“O nível de álcool da merlot está tão alto que corremos sério risco de perdermos o estilo característico de Bordeaux”. A frase é dono do château Leoville Poyferre, Didier Cuvelier. “Uma das vantagens de plantar a merlot aqui no Médoc era justamente o fato de que a uva tinha um amadurecimento melhor do que a do cabernet-sauvignon”, explicou o francês. Mas nas safras 2009 e 2010 foi comum casos de merlots ultrapassando os 15% de volume alcoólico, uma situação que Cuvelier classificou como “perturbadora”.

Outra importante voz que fez coro às preocupações de Cuvelier foi a do consultor Denis Dubourdieu. Ele notou uma tendência nas propriedades da Margem Direita de ambicionarem uma maior concentração de açúcares nas uvas, e para tanto, apelarem para técnicas como o desfolhamento, o que gera uvas menores e mais concentradas. E, consequentemente, mais alcoólicas.

Leia mais em Wine Report

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Este mundo é um hospício


Uma bela tarde, Todd Fox chegou em casa com uma barrica cheia de aspargos amassados e disse à esposa: “Dê um jeito nisso aqui”. Kellie (a esposa) não teve dúvidas: adicionou água, açúcar e leveduras. E a coisa começou a fermentar. Nascia assim o primeiro ‘vinho’ feito com aspargos que se tem notícia no mundo.



“É bem clarinho e tem um leve aroma de aspargo e uma pequena doçura”, garante Kellie. “Mas o cheiro na hora em que começou a fermentar não era muito agradável”, admitiu a mãe da bebida.


Leia mais em Wine Report

segunda-feira, 28 de março de 2011

A rainha da elegância

Desde que o simpático Miles, no filme Sideways, detonou a merlot e defendeu arduamente a pinot noir, que a uva ganhou pontos no imaginário coletivo do consumidor de vinho. Na época do filme, principalmente nos Estados Unidos, o consumidor enlouqueceu. Caixas e mais caixas de tintos feitos com a pinot noir eram vendidas como água, enquanto os merlots, pobrezinhos, agonizavam, esquecidos e empoeirados, em prateleiras de lojas e estoques de produtores.


Alguns anos já se passaram do filme, mas, se não é o sucesso avassalador da época, a pinot não foi parar no limbo das celebridades instantâneas. Vinhos feitos a partir da casta continuam indo bem em restaurantes e lojas especializadas. Ainda bem. Em um mundo repleto de robustos malbecs, cabernets, syrahs e afins, a delicadeza da uva é sempre muito bem-vinda.


E a diversidade de lugares, climas e terroirs em que a pinot é produzida atualmente, tem gerado boas e produtivas discussões sobre a tipicidade da uva. Que o pinot noir referência é o da Borgonha, ninguém discute. Os bons são elegantes, ricos, intensos e imensos. Os melhores são clássicos inesquecíveis e incomparáveis. Por isso, nos outros cantos do mundo, todos os produtores que arriscam produzir vinhos feitos com a uva buscam uma identidade borgonhesa no vinho. O problema é: existe uma identidade borgonhesa? Qual é, exatamente, o gosto de um pinot da Borgonha?

Leia mais em Wine Report