quarta-feira, 13 de junho de 2012

Brunch na Locanda



No final de maio, eu e um grupo de amigos resolvemos ir até Petrópolis. E a ida até a cidade imperial foi motivo mais do que suficiente para darmos um pulo na Locanda Della Mimosa e aproveitarmos o brunch de domingo. Mas não esperem aquela comida servida em réchauds, tipo um bufê. Nada disso. Na verdade, nem bem é um brunch, mas um verdadeiro almoço, com uma série de pratos que podem ser repetidos a gosto do freguês. E tudo servido na mesa mesmo.

Começamos com o espumante Dignus, que chegou junto com os pães, quentinhos e crocantes, a manteiga que veio na temperatura certa, e o azeite. Não demorou e o garçom trouxe salmão com vinagrete cítrico, salada caprese (a mozarela de búfala desmanchava na boca) e aspargos com ovos e azeite trufado, usado na medida. Como se não fosse suficiente para abrir os trabalhos, em seguida chegaram um carpaccio de rosbife com champignons e uma seleção de queijos, mortadela italiana, presunto serrano e legumes grelhados. Tudo impecável. E essa variedade de entradas era só a parte fria do brunch!

Até poderia terminar tudo ali. Mas não estávamos nem na metade. Em seguida, começaram a chegar, servidos em mini porções, os pratos quentes. A lasanha bolonhesa estava leve e muito saborosa. O ravióli também arrancou gemidos e teve gente pedindo bis. E ainda provamos o nhoque e o stracoto com polenta. Na Locanda é assim. Pratos simples se tornam astros, como a lasanha a bolonhesa que mesmo fora de moda em outros lugares, lá nunca perde a majestade.

Quem ainda aguenta sobremesa, escolhe no cardápio. Eu pedi o zabaglione, outro prato clássico tão pouco lembrado. Fartei-me. Depois, só mesmo um café (ou chá). E a estrada.


Galeria de imagens:










terça-feira, 12 de junho de 2012

Dress to drink



Pesquisadores da University of Western Austrália (UWA) encontraram um meio de criar tecido usando um processo de fermentação semelhante ao utilizado na produção de bebidas como vinho e cerveja. Foi a senha para que a dublê de estilista e artista contemporânea Donna Franklin criasse uma moda que promete ser a sensação nas passarelas mundiais em um futuro próximo: um vestido feito com vinho tinto.


A bossa nova foi uma parceria da estilista com a Bioalloy, instituto que realiza as pesquisas para a UWA, e batizada como Micro’be. O tecido foi conseguido através da introdução de bactérias capazes de transformar álcool em ácido acético (acetobacter) em uma cuba contendo vinho tinto. O processo é o mesmo usado na produção de vinagre. Quando cultivada em uma solução contendo glicose, a bactéria produz celulose, que é quimicamente semelhante ao algodão.


Leia a matéria completa e veja a galeria de imagens do vestido em:

Dress to drink

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Foco nos EUA



A importadora Winebrands promoveu uma degustação, no restaurante Vieira Souto, em Ipanema, na Zona Sul do Rio de Janeiro, para apresentar a um grupo que misturou jornalistas, donos de restaurante, sommeliers e formadores de opinião, alguns rótulos norte-americanos que recém-entraram no portfólio da empresa. O Wine Report esteve por lá.

Para ler as notas de degustação dos rótulos provados, basta clicar no nome do vinho:


Château Ste. Michelle Eroica Riesling 2010 

Château Ste. Michelle Indian Wells Chardonnay 2009 

Erath Leland Pinot Noir 2009 

Columbia Crest Grand Estates Cabernet Sauvignon 2006 

Villa Mt Eden Antique Vines Zinfandel 2007 

Stag's Leap Wine Cellar Merlot 2007 

Col Solare 2006 

Columbia Crest Reserve Cabernet Sauvignon 2008

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ao natural

Quando recebi o convite para o lançamento da coleção gastronômica do RS, fiquei nas nuvens e contando os dias. Todos os anos desde que abriu seu restaurante, a chef Roberta Sudbrack promove este evento. O convite vinha com um prato que parecia feito de bambu. E era indispensável que o levássemos no dia do jantar. Como num desfile de moda, no lançamento de um livro, na vernissage de um exposição, todos os convidados ficam ansiosos para entender a mensagem que o que o artista queria passar com aquele prato.

Logo que entrávamos na "casinha laranja", estava sendo projetado um vídeo que a Roberta fez, há alguns anos atrás, "Por uma memória que nos sustente". A exibição já fazia com que entrássemos no clima da nova coleção que leva o nome de "Ao Natural".

Quando subimos para parte de cima do restaurante, nos deparamos com uma mesa lindamente preparada para nos receber. As flores usadas foram hortênsias, em cores bem naturais, verdes e rosa velho. Os convidados já estavam delirando, mesmo com as luzes da cozinha ainda apagadas. Todos com lugares marcados, sentamos e aguardamos o inicio.

Começamos com uma canequinha de barro, que vinha com um bilhetinho: - Consommé de casca de abóbora assada. O gosto do consommé servido daquela mini moringa realçou o sabor da moranga/ abóbora, dando ainda um gosto terral. Muito bom voltar a sentir, depois de muitos anos, o lábio grudar no barro cru.


A flor de abobrinha, gema, raiz e...só foi o prato seguinte. Comi com as mãos mesmo e usei a flor de abobrinha como uma colher para a gema. Foi um estouro só na boca.


Depois foi a vez da castanha crua, cará, aviú e...só. Logo o primeiro da mesa que leu aviú, já começou a procurar o que era aquilo. A sempre antenada Luciana Fróes, que estava por perto e conhece bem o aviú, foi logo dizendo que se tratava de uma espécie de camarão minúsculo. Tudo resolvido, o garçom informa que é aconselhável usar as mãos. Mal sabia ele que já eu já estava fazendo isso desde o outro prato. O sabor é tão intrigante que tenho que provar novamente para tirar chegar a uma conclusão sobre o prato. Às vezes acabo de assistir um filme e fico com a mesma impressão.



Mas com a burrata, piracuí, ovas e ...só, foi só certezas. Amei e quero repetir sempre. Piracuí, segundo o dicionário de gastronomia de Luís da Câmara Cascudo, é farinha de peixe, que depois de seco é socado, reduzido a pó e colocado no fumeiro para apurar o gosto. Ficou incrível com as outras três texturas.


Eis que surge uma colher com o bilhetinho que dizia ostra vegetal: tomate, salsa e ...só. Por mais que pareça outra coisa e a gente fique a procurar outros ingredientes, de fato é só tomate e salsa. Mas a temperatura com que é servida essa ostra é o que faz a diferença, não esquecendo a textura do tomate. Parece tão deliciosamente simples que ficamos a nos perguntar porque não tivemos essa ideia antes. Elementar.


De quando em vez a chef colocava as caras no vidro da cozinha e olhava para o salão como se para checar o que as pessoas pensavam a respeito dos pratos. Bem sabia ele que estávamos todos em estado de êxtase com o desfile.

Quando chegou o palmito bebê, tomate, basílico e ...só, cheguei a me emocionar. É a coisa mais delicada que já vi nos últimos tempos. Mesmo assim, não tive a menor pena em traçá-lo. Voltei no tempo, quando eu ainda não conhecia o palmito pupunha, apenas aquele outro, meu velho conhecido, que tinha uma mordida diferente, mais durinho, menos tenro. Uma delícia de viagem.


Em seguida, foi a vez do cará, piracuí, galinha e ...só. O cará vinha dentro do ravióli, a galinha virou caldo e o piracuí voltou fazendo a vez do parmesão. Isso tudo misturado, para comer de colher. Ainda bem que não faltou o indispensável pão para raspar o prato.[


O desfile seguiu com um mergulho no mar: robalo, tomate, jambu e ...só. Fico muitas vezes com dúvida se devo ou não comer a pele do peixe, mas no caso desse robalo, estava tão convidativa que nem titubeei. Macio que só ele, com tomatinhos milimetricamente cortados. Mais uma vez o pão me ajudou a não deixar nem uma gota do caldo que estava divino.


Eu ainda estava tentando entender a sequência de pratos quando chegou a queixada, farinha ácida e só. Outra vez, fiquei de queixo caído. Não pensei em mais nada, queria comer aquela farinha de colheradas no café da manhã. E que carne macia! Foi o momento de maior silêncio que tivemos durante todo o jantar. Todos ficamos pasmos. Para quem não sabe, a queixada é uma espécie de porco selvagem, mas diferente do javali.


Ainda em êxtase, recebemos a primeira sobremesa: tâmara, chá preto, licuri e só. Mesmo não sendo muito fã de tâmara nem de licuri, amo chá preto então provei sem medo e não me arrependi, o chá preto derreteu todo gosto dos outros dois ingredientes e deixou tudo mais delicado, sentindo somente uma nuance de cada elemento do prato.


A segunda sobremesa chamava-se leite frito e ...só. Arrebatador! Tinha um gostinho de rabanada, não sei se pela canela ou pela textura e ainda tinha doce de leite. Um sonho.


Para terminar a noite, nos devolveram nossos pratos-convite junto com um lápis de carvão. A ideia era que expressássemos de alguma maneira o que havíamos sentido no jantar. Acho que aí a ficha caiu, realmente estávamos todos ali, testando e sendo testados. Uns desenharam, outros escreveram. Mas no final, todos brincamos de Escravos de Jó com os pratos.

Em seguida (e debaixo de entusiasmados aplausos) entrou toda a equipe da cozinha do RS na sala, com a chef por último. Quando tudo acabou, fiquei tão emocionada que me deu vontade de chorar. Assim como acontece quando assistimos a um concerto emocionante, ou um grande filme que comove. Mas ali não havia nem o escurinho do cinema nem o anonimato da plateia, por isso contive as lágrimas. Ademais, ainda era preciso parabenizar a chef. Mas quando ela veio falar comigo, eu ainda mal conseguia articular qualquer palavra. Mesmo assim, acho que ela entendeu perfeitamente o que eu queria dizer. Assim como eu acho que entendi tudo o que ela quis passar com a simplicidade genial da noite. Naturalmente. E só...


texto e fotos: Luciana Plaas

terça-feira, 1 de maio de 2012

Salvaguarda: Europa responde

Os europeus se posicionam em relação ao projeto de implementação de uma salvaguarda para o vinho nacional. A argumentação do Comité de la Communauté économique européenne des 
Industries et du Commerce des Vins, Vins aromatisés, Vins mousseux, Vins de 
Liqueur et autres Produits de la  Vigne (CEEV) é infinitamente mais bem redigida, estruturada e fundamentada do que aquela apresentada pelos peticionários quando entraram com o pedido junto ao Governo Brasileiro.

Leia aqui a argumentação europeia:

Leia aqui a argumentação tupiniquim:

terça-feira, 10 de abril de 2012

Farra marinha


No final de semana, a convite de um casal de amigos, Alexandre e eu fomos almoçar no Satyricon, em Ipanema. Não ia lá fazia muito tempo. Antigamente, quem me levava lá era o meu pai. Como ele não mora no Rio, quando vinha me visitar, sempre fazia questão de marcar alguma coisa por lá. Mas faz tempo que ele não aparece por aqui.

Logo na entrada você já se depara com uma espécie de peixaria, todos os peixes e crustáceos lá expostos. Isso sem falar no aquário que também é impressionante. Mesmo assim, com essa infinidade de frutos do mar, se engana quem pensa que não servem carne. Está no cardápio, eles até oferecem, mas eu é que não ia pedir.

Como nossos amigos são habitués do restaurante, todas as escolhas ficaram por conta deles. E eles acertaram na mosca. Comecei atacando vorazmente os pães de queijo. Aí pensei que deveria me controlar, afinal ninguém vai num restaurante daqueles pra se empanturrar de pão de queijo. Mas eram bons.

Logo em seguida, para minha felicidade, chegou uma travessa gigantesca com vários potinhos com peixes preparados com diferentes temperos. Um cortado bem fininho temperado com pimenta, outro com aneto. Tinha carpaccio, guacamole e ainda vieiras, que estavam maravilhosas, as melhores que já comi no Brasil. Segundo o garçom, são de Arraial do Cabo, para minha surpresa. Pensei que fossem de Santa Catarina. Nada de molhos roubando o gosto das coisas, tudo muito bom.



Depois passamos para os lagostins. Lindos, tenras e até adocicados de tão frescos. Mais uma vez feitas da maneira mais simples. E as lulas também não foram esquecidas. Vieram em duas versões uma só grelhada e outra com molho e pimenta. Da pimenta eu até que gostei, mas foi a grelhada que me conquistou. E não é aquele tipo de lula que desmancha na boca não, mas não é borrachuda e como tem que ser. Quase me esqueci de falar dos cogumelos e que cogumelos. Parecia um filé, macios que só eles. Somente grelhados com salsinha.





Quando achei que tínhamos encerrado a comilança, nosso anfitrião nos disse que tínhamos que provar uma massa imperdível. Então dividimos um pouco para cada um na mesa. Uma massa feita com grão duro, tomatinho, e lagosta. Saboroso e simples. A massa al dente, a lagosta macia e o tomate com sabor. Não precisava mais nada e a porção foi no tamanho ideal. O garçom nos informou que quando quisesse pedir esse prato novamente, é só dizer que é a massa que o seu Jorge pede, Jorge era o nome do nosso anfitrião.



Na hora da sobremesa, foi a nossa anfitriã quem deu o pitaco. Pediu logo um tiramissu, para dividir é claro. Todo molhadinho, e vinha com uma calda de chocolate. Na medida.



Portanto, se você pensa em ir em breve ao Satyricon, guarde este texto. Quem escolheu os pratos sabia o que estava pedindo. E, afinal de contas, é o que dizem: quem tem amigos, não morre pagão.

Satyricon
Rua Barão Torre, 192 - Ipanema
T. 2521-0627
www.satyricon.com.br

sábado, 7 de abril de 2012

Tão perto e tão longe


Na volta de uma viagem para Angra dos Reis, minha filha parou para almoçar no restaurante Bira, em Guaratiba. Assim que chegou em casa, não parava de falar do pastel de camarão. Segundo ela, comeu uns quatro. Desde então, fiquei com muita vontade de dar um pulinho lá para conferir.

Mesmo morando no Recreio, acabo por esquecer que Grumari é aqui perto e Guaratiba nem é tão longe assim. O problema é sempre parar o que se está fazendo e simplesmente ir. Como não conseguia nunca, resolvi pedir ao Alexandre, para que no dia do meu aniversário fossemos lá.

Dito e feito, o dia chegou e partimos. Meio que na corrida, já que o restaurante fecha às 17hs. Chegamos a tempo. Amém. Já na entrada do restaurante, a vista encanta. É maravilhoso, natureza pura. Tudo bem rústico e aconchegante.


Mal sentamos e já fui logo pedindo quatro pastéis (R$4 a unidade), dois de camarão e dois de siri. Para acompanhar, caipirinha de lima com cachaça de alambique. Realmente minha filha tinha razão, dá pra comer muitos desses pastéis. O de camarão é campeão, mas o de siri também é gostoso. Tudo muito bem temperado, com camarão e siri mesmo.



Partimos para a moqueca de camarão (R$135). Enquanto ela não chegava ficamos conversando e tentando descobrir porque demoramos tanto para aproveitar as coisas que estão ao nosso alcance. Antes de chegarmos a qualquer conclusão a moqueca chegou. Cheirosa que só ela. Veio acompanhada de arroz branco e farofa de dendê. Servi-me de moqueca e farofa. Gostei muito do tempero dela, mas o camarão tinha passado um pouco do ponto, coisa de alguns minutinhos a menos. Mesmo assim não parei de comer a moqueca, porque o tempero realmente era certeiro. A farofa também estava um pouco cansada, já não era tão convidativa. Que pena.



Mesmo assim, quero voltar outras muitas vezes lá. Ainda tem a moqueca mista pra provar além de repetir os pastéis de camarão e me deliciar com a vista que não cansa de encantar.

Bira
Estrada da Vendinha, 68 - A
Barra de Guaratiba
T. 2410-8304

Brasil et Clochers



Duelo, bossa-nova, carnaval. Teve de tudo um pouco no Toques et Clochers, mega evento que gira em torno dos vinhos, e que ocorreu entre nos dias 31 de março e 1º de abril, nas cidades de Limoux e Antugnac. Neste ano, o Brasil foi o homenageado da festa. E conferiu um tempero todo especial ao evento, com direito a jantar de gala sob o comando dos chefs Roberta Sudbrack, Claude Troisgros e Rolland Villard, todos residentes no Rio de Janeiro.

As festividades começaram no sábado, com um almoço pondo a frente duas instituições das gastronomias francesa e brasileira: o cassoulet e a feijoada. Com o chef francês Jean Vasquié de um lado do fogão e a brasileira Kátia Barbosa, do Aconchego Carioca, do outro, foi realizada a disputa. Mais de 300 refeições depois, os comensais decidiram entre os dois pratos qual foi o melhor. O resultado foi indiscutível: com mais de 80% dos votos, a feijoada ganhou o duelo.

Após a brincadeira – realizada na praça principal da cidade de Limoux – os convidados foram a pequena Antugnac, onde seria realizada a abertura oficial das festividades. E sob um sol inclemente, teve início um desfile, seguido de festa e degustação, em uma festa que misturou gastronomia, música, artes plásticas, artesanato e vinho. Orgulhosos, produtores desfilavam suas bandeiras e catedrais, festejando a chegada da primavera.


O Brasil marcou presença novamente, com uma barraca montada estrategicamente no alto da cidade, com direito a livros e folhetos sobre o Rio de Janeiro, e quitutes como bolinho de feijoada, coxinha de galinha e queijo coalho com goiabada, preparados pela equipe do Aconchego Carioca. Em frente à barraca, um pequeno palco com uma banda brasileiríssima, comandada pelo pianista Mu Carvalho, pelo violonista Paulinho Lemos e pelo saxofonista Raul Mascarenhas colocava as pessoas para dançar ao som de samba e bossa-nova até o sol se por.



Em outros locais da pequena vila, bandas das cidades vizinhas se revezavam misturando ritmos tradicionais franceses a ousadias como a música tema do filme Rei Leão, sucessos do Abba e até um heavy metal meio fanfarra cover do Metallica. Em toda a parte, degustação de vinhos regionais, barraquinhas com gastronomia local (como ostras, foie gras e cassoulet) e inúmeros pequenos ateliers de artistas da região expondo quadros, gravuras, azulejos e artesanato em geral.

No final do dia, uma queima de fogos deixou todos ainda mais animados e a festa rolou até alta madrugada, sem que nenhum incidente fosse registrado – é bom deixar claro.

No dia seguinte, pela manhã, os convidados puderam degustar as amostras de cerca de 140 barricas, dos 60 principais produtores da Cooperativa de vinhos Aimery Sieur d'Arques, e que seriam leiloadas na tarde do mesmo dia. São quatro as regiões que compõe o universo da AOC Limoux. O mais valorizado costuma ser o Haute-Vallée. Neste ano, não foi diferente. No leilão, que arrecadou um total de € 728 mil e contou com a presença da baronesa Philippine de Rothschild, o clocher de La Serpent, que já havia sido o campeão no ano passado, voltou a se destacar sendo arrematado por € 8,8 mil. Entre os compradores (atacadistas, sommeliers, importadores e restauranteurs do mundo inteiro), muitos brasileiros, que ficaram com quase uma dezena das barricas.




Após o leilão, para celebrar, o jantar de gala. Com o salão decorado com motivos brasileiros, os chefs Roberta Sudbrack, Claude Troisgros e Rolland Villard desfilavam suas criações, bem escoltados por vinhos selecionados pelo sommelier Dionísio Chaves. No palco, a mesma banda que se apresentara em Antugnac no dia anterior, fazia a festa. E o espírito festeiro dos brasileiros contagiou tanto os convidados de diversas nacionalidades que, antes mesmo que a sobremesa fosse servida, a pista já estava cheia e o carnaval já havia começado oficialmente em Limoux.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Os grandes produtores de vinho brasileiro estão com fome. O apetite parece cada vez mais incontrolável. Depois do abominável selo fiscal dos trópicos, eis que os "gênios" que dominam a produção do vinho nacional conseguiram a proeza de retirar não um coelho, mas um mamute da cartola: a lei da salvaguarda. Em bom português, trata-se de um projeto indecente, que visa, como forma de proteger o vinho nacional das invasões bárbaras dos produtos do resto do mundo, aumentar o imposto de importação de 27% para 55%! Ou seja, já temos um dos maiores impostos do mundo! Mas a carga tributária insana vigente no Brasil não parece ser suficiente para proteger os pobres coitadinhos dos grandes produtores nacionais. Eles querem mais. Não importa os meios que tenham que usar para conquistar mais mercado. Por trás deste movimento estão quatro entidades, todas sediadas no Rio Grande do Sul, estado que concentra a produção nacional, tanto de vinhos finos como os de mesa: o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), a União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), a Federação das Cooperativas do Vinho (Fecovinho) e o Sindicato da Indústria do Vinho do Estado do Rio Grande do Sul (Sindivinho) e as vinícolas Aurora, Salton, Miolo, Perini, Luiz Argenta e Don Giovanni.

E quando falo os grandes produtores nacionais, é porque os pequenos, artesanais, estes sim, pobres coitados, sofrem com a "burrocracia" do selo fiscal e sofrerão novamente com o aumento desta alíquota. A razão é simples: a competição é o melhor regulador do mercado. Quem trabalha bem fica. Quem não faz direito, morre. Os grandes produtores, latifundiários do vinho, alegam que competem em condições desiguais, pois não têm os mesmos incentivos à produção que outros países desfrutam. Ora bolas, se o problema é esse, que lutem, pois, com a mesma sede, por uma redução nos custos da cadeia produtiva.

Há 15 anos, o vinho brasileiro de qualidade não existia. Os produtores, na grande maioria descendentes de italianos, faziam um produto pra lá de ruim, cheio de defeitos, fruto de ideias defasadas na vinha e de ausência de conhecimento na adega. Se este quadro mudou, foi por conta da chegada dos vinhos importados, que abriram o mercado e os olhos destes produtores para a porcaria que eles faziam.

Pois o mercado cresceu, a cultura de vinho vai aos poucos sendo instalada no país. E se os vinhos brasileiros não cresceram na mesma proporção é porque não trabalharam direito. Inexiste uma política de preços, de custos, o marketing é feito ao deus-dará. Não há união entre os grandes produtores, exceto quando o assunto é taxar o vinho importado.

O inimigo do vinho brasileiro não é o produto importado. Mas a falta de visão dos grandes produtores. E a qualidade (ainda discutível) e o preço fora da realidade dos vinhos que produzem.

É hora de dar um BASTA! Consumidor, reaja! Caso esta lei seja aprovada, NÃO COMPRE MAIS vinho brasileiro, especialmente os feitos por estes produtores que nos querem empurrar goela abaixo as próprias limitações. O BOICOTE é nossa arma!

Se você também é contra, assine o abaixo-assinado contra esse abuso no link:

http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2012N22143


Alexandre Lalas
jornalista e crítico de vinhos

quarta-feira, 14 de março de 2012

Volta ao mundo em cinco pratos

Inês Braconnot, crudívora de carteirinha (a esq na foto, com a chef), me convidou na semana passada para um jantar diferente, pelo menos para mim. No menu só ingredientes vivos. Ou, se você preferir, crus. Daí o nome crudívora. Os adeptos só se alimentam de vegetais crus. Mas não pense que isso significa simplesmente ralar uma cenourinha e colocar no prato. É algo muito além disso. Uma culinária que usa a técnica de desidratação dos alimentos e a germinação dos grão, que é o que dá força à comida e potencializa os nutrientes.

Inês resolveu juntar um grupo de pessoas para jantar e aproveitar que a chef canadense, Stéphanie Audet, estava no Brasil. Foi uma mostra de que essa culinária tem traços de alta gastronomia também. Stéphanie, roda pelo mundo ensinando a alimentação viva, quando não está viajando, fica no restaurante Crudessence (www.crudessence.com), em Montreal, no Canadá.

Éramos dez na mesa, alguns adeptos desta alimentação, outros nem tanto. O aperitivo foi o Kéfir de Goji e Pitanga. Kéfir é uma bebida fermentada, nesse caso ela usou a frutinha tibetana, a goji, que é rica em aminoácidos e a pitanga. Eu achei um pouco estranho, mas para os mais entendido foi um frison só.

O amuse-bouche era Cogumelos marinados, recheados com Patê de Nozes e Dill fresco coberto com Sour Cream de Pignoli e Alecrim. Tratava-se de cogumelos sem o caule, servidos “de cabeça para baixo” e por cima um creme de pinoles e alecrim. Denso e gostoso.


Seguimos com Sopa Thai de Côco, Coentro e Açafrão com Gengibre e Shitake. Muito delicada, de coentro, açafrão-da-terra, algas e cogumelos. Gostei muito. É para ser saboreada devagar, para apreciar lentamente o cheiro, os gostos e tudo mais. Obviamente, como gostei bastante, fui a primeira a acabar.


Existe toda uma preparação dos pratos, que tem que ser feito na hora de servir, por esse motivo há certa demora entre um parto e outro. Nesse momento percebi que comecei a ficar um pouco sonolenta e minha barriga se agitava. Como tínhamos tempo, começamos a conversar.

Quando chegou Lasanha de Abobrinha com pesto de Pistache fresco, fiquei encantada. Para mim, o prato mais bonito da noite. Muito saboroso também. Tudo nessa alimentação tem frescor.


A essa altura do jantar, todos a mesa, já se sentiam próximos e cada um de nós começou a fazer algum tipo de revelação. Um disse que é louco por salame, outra disse que por ser achar muito louca se tornou uma pessoa regrada. Tiveram aquelas que disseram que essa comida dá vontade de lamber o prato. Eu não disse nada, mas meu corpo disse. Comecei a me sentir com muita energia e minha barriga continuava agitada.

Para que todos ficassem quietos, chegou o Ravioli de Beterraba recheado com Ricota de Figo e Macadâmia, servido com Rúcula, Abacaxi e molho de mel de Figo e Balsâmico. A beterraba disfarçada de ravióli era cortada bem fininha e era crocante ao morder. Não gostei muito da salada. O abacaxi estava doce demais, achei que a combinação não funcionou bem.



Quando veio a sobremesa, (Torta Creme de Maple, Caqui, Castanha do Pará e Nibs de Cacao crocante com Yogurte de Côco fresco e Limão) levei um susto, era uma fatia enorme de torta de caqui com maple, para que não restasse dúvida a respeito da nacionalidade da chef é! E a crostinha era feita de cacau e noz do Brasil, para que ela não esquecesse onde estava. Estava tão boa que apesar de já estar satisfeita comi tudo.



Só depois do jantar é que me dei conta de que todos os pratos eram servidos em temperatura ambiente. Tudo me pareceu muito natural, talvez por isso, enquanto comia, não tenha nem notado. O sal, que a chef nos disse que usa com parcimônia, também nem se fez notar.

No final, Inês agradeceu muito a presença de todos e disse que estava realizando um sonho, que era reunir à mesa pessoas amigas e poder dividir com elas a comida que ela acredita como forma de vida. Na verdade quem tem que agradecer sou eu! Para mim foi uma experiência e tanto. A propósito, minha barriga parou de sacolejar. Acho que ela levou um susto com a tanta comida vida de uma vez só, uma mudança pra lá de súbita na minha alimentação normal.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Essência do Vinho



Mal passava das 9 da manhã quando cheguei para ao Palácio da Bolsa para a prova de escolha do Top 10 da EV – A Essência do Vinho, feira patrocinada pela revista Wine, que acontece anualmente na cidade do Porto, em Portugal, e que teve a nona edição realizada entre os dias 16 e 19 de fevereiro. As portas seriam abertas ao público apenas às 15 horas. Mas tudo já estava devidamente arrumado. As mesas postas, com os nomes dos respectivos produtores, cuspidores, corredores largos, enfim, um show de organização.

Não por acaso, a EV firma-se, ano a ano, como um dos mais importantes eventos de vinho em Portugal. Nesta edição, participaram cerca de 350 produtores, que disponibilizaram ao redor de 3 mil vinhos para degustação, incluindo alguns tops de linha. Nos quatro dias de evento, cerca de 20 mil pessoas passaram pelo Palácio da Bolsa. E o número de visitantes estrangeiros chegou ultrapassou a marca de 3 mil, ou seja, pelo menos 15% do público total.

Voltando à prova do Top 10 (realizada na manhã do dia 16, antes de a feira abrir), éramos diversos jornalistas, entre portugueses e estrangeiros (de 11 diferentes nacionalidades), avaliando 45 vinhos pré-selecionados (8 brancos, 31 tintos e 6 portos). Para compor a lista dos 10 melhores da feira, seriam escolhidos o melhor branco, os oito melhores tintos e o melhor porto. Entre os brasileiros, além do repórter que vos escreve, estavam a Suzana Barelli, editora-chefe da revista Menu; Dias Lopes e Alexandre Bronzatto, respectivamente editor e colaborador da revista Gosto; e o advogado Carlos Celso Orcesi, colunista de vinhos do jornal Diário do Comércio, de São Paulo. As notas seguiam o padrão consagrado em Portugal, com um máximo de 20 pontos. Destaque para o alto nível da prova, em especial, nos vinhos brancos.

O resultado final foi divulgado no dia seguinte, durante um jantar no luxuoso restaurante do hotel Yeatman, onde tive a honra de entregar um dos prêmios concedidos. Além dos vinhos premiados no Top 10, a solenidade serviu para que a revista Wine entregasse os troféus aos melhores do ano segundo a publicação.

Na feira, além dos expositores, chamou a atenção o bom número de degustações paralelas. Entre elas, “vinhos exóticos de Portugal”, comandada pelo crítico de vinhos português Rui Falcão, e “os grandes moscatéis de Setúbal da Bacalhôa”, conduzida pela enóloga Filipa Tomáz da Costa.

Os brasileiros terão a possibilidade de conferir in loco a capacidade organizacional do pessoal da EV no mês que vem. É que entre os dias 20 e 22 de março a recém-criada Essência do Vinho Brasil realiza, no Rio de Janeiro a “Brasil International Wine Fair”, uma feira internacional de vinhos que está incluída na 24ª edição da “Super Rio Expofood”, no Riocentro. Se a feira carioca mantiver os padrões de qualidade da irmã mais velha do Porto, estaremos bem na fita...

Confira abaixo os vinhos indicados para o Top 10, os vencedores do concurso e os premiados pela revista Wine:



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

por Luciana Plaas


Pela segunda vez, na mesma semana, saí de casa para o jantar no restaurante Eñe. Mas, ao contrário do dia anterior, quando me confundi toda, desta vez era sim a data certa do jantar. Confesso que deu uma preguiça danada de sair de casa de novo, mas não é sempre que se tem a chance de comer trufas negras. Por isso, tomei coragem e lá fui eu novamente. Ao rever o manobrista do hotel, nos cumprimentamos como velhos conhecidos. Com o maître, já no restaurante, foi a mesma coisa.

Enquanto esperava os outros convidados para o festival de trufas, o chef Javier nos contou que ele mesmo colheu as trufas. E disse que ficou com medo da alfândega quando chegou no Brasil com a mala recheada de trufas, quatro quilos para o festival. Felizmente, elas chegaram sãs e salvas para nossa alegria.

Tudo começou com o Royal de trufas. Um creme leve de trufas, feito à base de caldo de vitelo. Era aveludado, deu vontade de pedir bis.



O primeiro prato foi a Crema de feijão verdes com trufas. O chef explicou que o feijão usado para fazer o creme, é branco, mas colhido ainda verde, para acentuar o gosto. Foi servido com gelatina de consome, em cubos, bacon e trufas. Creme denso combinou muito tudo.



De todos os pratos, o mais surpreendente foi o Ovo com jamón e trufas. Era um ovo servido em creme de espinafre, com fatias de presunto e trufas. Pra começar, ovo com trufas, por si só já é muito bom, esse então estava um espetáculo. O creme de espinafre deu liga e leveza ao prato e o jamón contribuiu com textura e sabor.



Outono com trufas foi o nome do prato seguinte, uma emulsão de cogumelos catalães, lâminas de trufas e areia de cogumelos. Foi o prato que menos me encantou. Achei bastante pesado, faltou a leveza que encontrei em todos os outros pratos.



O prato de peixe foi uma garoupa com molho de civet (molho denso de vitelo), servido com raiz salsifí (uma raiz catalana que não tem tradução) e lâminas de trufas. Gostei muito do peixe servido com o molho de carne, deu corpo ao prato. A garoupa estava desmanchando na boca, muito delicada.



Em seguida, veio o inevitável porquinho, que não podia mesmo faltar. Chamava-se mil folhas de coxinilho com trufas. As trufas estavam em lâminas intercaladas entre o jamón e o porco, formando assim o mil folhas. Foi servido com um purê de cará e molho perigueux com trufas. Derretia na boca, um sabor maravilhoso e o tamanho da porção, perfeita.



O prato de queijo, foi com o Torta del casar, queijo de denominação de origem, da região da Extremadura. O chef fez uma terrine do queijo com trufas trituradas. O queijo sozinho fica um pouco cansativo, mas o vinho, Dehesa Gago, cumpriu seu papel com primor. Segurou o queijo direitinho. Foi um casamento e tanto.



A sobremesa se chamava Joia de chocolate com sorvete de baunilha. Nessa sobremesa, o chocolate, tinha uma textura toda especial, era como estivesse a ponto de endurecer. Muito diferente e nada enjoativo. O sal que tinha por cima de o toque que faltava. A trufa era uma poeira por cima. O sorvete misturava os sabores. Esse foi o prato que fiquei com mais medo. Quando li o menu, pensei: isso pode dar muito errado. Mas, para minha felicidade, aconteceu o contrario: estava divino.




Todos os pratos foram harmonizados com vinhos em taças, que nesse caso é a melhor opção. Pena que não pude provar todos por conta da Lei Seca que poderia estar me esperando no caminho de volta.


Foi uma noite e tanto, valeu muito ter voltado pela segunda vez na semana a São Conrado. O Eñe está sempre trazendo alguma novidade, é só ficar atento para qual será a próxima.