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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O vinho do gelo brasileiro

por Alexandre Lalas


Domingo, dia 10/10/10, a vinícola Pericó, de Santa Catarina, lançou oficialmente o primeiro Icewine produzido no Brasil. A campanha de lançamento foi uma aula de marketing bem feito, com direito a contagem regressiva no site da vinícola, que também mostra toda a história da produção do vinho.

O Icewine foi feito com uvas naturalmente congeladas, colhidas no outono de 2009, entre os dias 4 e 12 de junho, nas vinhas da Pericó. A variedade escolhida foi a cabernet-sauvignon. De acordo com Jefferson Sancineto Nunes, enólogo da Pericó, esta variedade foi escolhida por ser a mais tardia disponível na Vinícola e, portanto, a única capaz de sustentar seu lento amadurecimento nas parreiras até a chegada das temperaturas negativas do inverno ao alto da serra de São Joaquim, Santa Catarina. A produção é de apenas 3,3 mil garrafas.

O esmero da vinícola não ficou apenas na produção do vinho. O rótulo foi encomendado à artista plástica Tereza Martorano, que preparou a gravura Vindima na Neve. O kit de lançamento do produto inclui, além d vinho, uma lata decorada, um livreto com a história da produção do vinho e um tag com dicas de harmonização.

Por enquanto, o Icewine Pericó está disponível para venda em apenas três estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. O preço sugerido ao consumidor é de R$ 189. Cada garrafa contém 200 ml de vinho.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A noite de Seu Antônio

por Alexandre Lalas
Seu Antônio ficou tão emocionado no dia da formatura da filha que não aguentou: mal chegou em casa, apagou. Acordou apenas no dia seguinte, deitado em uma cama de hospital. Só então, teve noção da gravidade da situação. Seu Antônio tivera um derrame e quase foi para o outro lado. Felizmente, a recuperação foi completa. Com apenas uma ressalva: o danado do médico proibiu Seu Antônio de beber. Que maldade!

Pois Antônio Dal Pizzol, desde então, segue a risca as orientações do médico. Salvo uma ou outra exceção, afinal de contas, ninguém é de ferro. E na semana passada, Seu Antônio abriu uma destas exceções. Não era para menos. A noite era de gala. Em um jantar no restaurante da chef Roberta Sudbrack, Seu Antônio estava lá para mostrar aos cariocas o mais novo lançamento da vinícola que dirige e leva o seu nome, a Dal Pizzol. E não era um vinho qualquer. E sim, o rótulo comemorativo dos 35 anos de existência da empresa, um corte de cabernet-sauvignon (45%), merlot (35%), cabernet franc (10%) e ancellotta (10%), de produção limitada a 3.350 garrafas, todas numeradas! Não havia recomendação médica que impedisse Seu Antônio de bebericar uma ou outra tacinha. Mas sem exageros, é claro.

A Dal Pizzol, a vinícola do Seu Antônio, é uma empresa familiar, desde sempre voltada para a produção de vinhos finos. A cantina fica em Faria Lemos, distrito de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. Para a feitura dos vinhos, são usadas uvas compradas de produtores parceiros da vinícola, espalhados por Serra Gaúcha, Campos de Cima da Serra e Encruzilhada do Sul. A produção é controlada por dois enólogos e pelo engenheiro agrônomo da Dal Pizzol. São produzidas 250 mil garrafas por ano.

O enólogo responsável pelos vinhos é Dirceu Scottá e a filosofia da vinícola é clara: vinhos frescos, com muita fruta e sem passagem em madeira. E é exatamente assim o Dal Pizzol 35 anos: um vinho com a cara e o frescor de Seu Antônio.

Dal Pizzol 35 anos Assemblage 2005
Faria Lemos, Brasil
O mais legal deste 35 anos é que, no primeiro gole, mesmo às cegas, pode-se afirmar que é um vinho da Dal Pizzol. Este tipo de assinatura é um bem que cabe à vinícola preservar. Vinho gastronômico, cresce com comida. De preferência, carne.
Nota: 8,5
Preço: R$ 60 (preço por garrafa em caixa de seis fechada, no site da vinícola)
Onde: www.dalpizzol.com.br

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Os melhores do ano que passou

por Alexandre Lalas

Toda vez é a mesma coisa. Basta o final do ano chegar e surgem as listas com os melhores isso, os piores aquilo. As pessoas adoram. E, para não ficar de fora da festa, resolvi, pela primeira vez, premiar os destaques do ano. Mas, até para valorizar as escolhas, apenas três prêmios serão distribuídos: vinho do ano, barato do ano e vinícola do ano.

O vinho do ano é simplesmente o melhor vinho que bebi em 2009 e que esteja disponível no Brasil. Ficaram de fora, portanto, grandes vinhos de safras antigas que tive a sorte de provar ao longo da temporada; bem como amostras que ainda não foram lançadas e produtos estrangeiros que não têm importador por aqui.

O barato bom é aquele que melhor aliou preço à qualidade. Para ser mais justo, usei um método bem simples: dividi o preço de mercado do vinho pela nota obtida. Aquele que conseguisse o menor número final seria o eleito.

E para escolher a melhor vinícola do ano, foi levado em consideração a consistência e a qualidade do portfólio disponível no Brasil, e as possíveis novidades já a caminho.

Abaixo, os vencedores de 2009:


VINHO DO ANO:

John Duval Eligo Reserve 2005

Vale do Barossa, Austrália
Degustado em janeiro de 2009

Sempre que a história do vinho australiano é contada, o nome de John Duval tem que ser mencionado. O sujeito foi o responsável pela elaboração do Penfolds Grange, o grande ícone da terra dos cangurus, durante quase 30 anos. Quando, em 2002, saiu da empresa, John resolveu montar a própria vinícola: a John Duval Wines. No vale do Barossa, com uvas compradas de produtores que conhece há décadas, faz três vinhos: Eligo, Entity e Plexus. Todos excelentes. Mas o Eligo está um degrau acima dos demais. E o dono da primeira nota 10 da coluna ficou também com o título de melhor vinho do ano.


John Duval foi o enólogo responsável pelo australiano Penfolds Grange, um dos maiores vinhos do mundo, durante quase três décadas. No Chile, como consultor da Ventisquero, elaborou dois ótimos vinhos: Pangea e Vértice. Nos Estados Unidos, também desfila sua técnica. Mas é em sua vinícola, no vale do Barossa, que Duval produz seus melhores tesouros. Este Eligo (100%shiraz) é um espetáculo. Tem complexidade, intensidade, frescor, potência, elegância, fruta, madeira, persistência...tudo na medida certa. Um vinho perfeito.

Nota: 10
Preço: R$ 660
Onde: KMM (2286-3873)



BARATO DO ANO:


Miolo Fortaleza do Seival Viognier 2008

Campanha, Brasil
Degustado em dezembro de 2009

Encontrar um vinho que seja barato e tenha qualidade é o sonho dourado de qualquer consumidor. E lançar um produto que una as duas coisas, o desejo de todo produtor. No Brasil, muito por conta da nossa carga tributária, que flerta com o absurdo e da eterna burrocracia, que só atrapalha, fica quase impossível dizer que um vinho seja barato. Mas, comparativamente, há coisas bem interessantes. E entre as possibilidade, o que conseguiu o melhor índice (preço de venda dividido pela nota conseguida) foi este branco brasileiro, feito pela Miolo. E olha que a vinícola chegou a ter dúvidas se valia a pena ou não lançar o vinho. O motivo era a pouca disposição dos brasileiros em provar vinhos brancos. Ainda bem que a qualidade falou mais alto e a Miolo lançou este viognier de respeito.


É sempre muito agradável provar este branco. Em recente prova às cegas de viognier, conseguiu o sétimo lugar, entre treze participantes. E era, disparado, o mais barato do painel. Leve, fresco, fácil, com aromas florais e um toque vegetal. Bom no nariz, melhor na boca, perfeito como aperitivo ou com frutos do mar. Foi lançado no final de 2008, e o tempo garrafa fez bem a este vinho, que está ainda melhor do que à época em que chegou ao mercado.

Nota: 8,5

Preço: R$ 24,50
Onde: Miolo (3077-0150)



VINÍCOLA DO ANO:


Von Siebenthal

Vale do Aconcagua, Chile

Até 1998, o suíço Mauro Von Siebenthal era um advogado com um sonho: ter uma vinícola. Onze anos depois, possivelmente nem o próprio Mauro poderia imaginar quão longe se pode sonhar. Neste ano, Jay Miller, colaborador de Robert Parker na América do Sul, elegeu a Von Siebenthal como a melhor vinícola do Chile. No vale do Aconcagua, em Panquehue, área semidesértica entre o Oceano Pacífico e a Cordilheira dos Andes, estão espalhadas as vinhas de cabernet-sauvignon, cabernet franc, carmenère, merlot e petit verdot da Viña Von Siebenthal. E destas uvas, saem alguns dos melhores vinhos chilenos da atualidade. Toda a linha de vinhos é de qualidade superior. O Montelìg é referência quando se fala em elegância chilena. O Toknar é um esplendor de vinho, que coroou a ousadia em apostar em uma uva como a petit verdot para um vinho varietal. E, como se o portfólio já não fosse bom o bastante, a Von Siebenthal ainda deu-se ao luxo de lançar um novo ícone: o Tatay de Cristóbal, ainda não disponível no Brasil, e que levou a carmenère a um patamar ainda desconhecido. No Brasil, a vinícola é representada pela Terramatter (3860-6565).

Vinhos da Von Siebenthal:

Parcela #7 2006

Corte de cabernet-sauvignon, merlot, cabernet franc e petit verdot, bem ao estilo bordalês. Nariz intenso, com notas de frutas vermelhas maduras, um toque de especiarias, alcaçuz e café. Na boca, taninos doces, maciez, equilíbrio, frescor, médio corpo e um final bastante prazeroso.

Nota: 8,5
Preço: R$ 85,10
Degustado em novembro de 2009

Carmenère Reserva 2006

Tinto de qualidade feito com a carmenère, cortada com 10% de cabernet-sauvignon. Nariz intenso, com notas de cereja, cassis, pimenta e um leve toque mineral. Na boca, fruta, frescor, elegância e taninos presentes.

Nota: 8,5
Preço: R$ 85,10
Degustado em abril de 2009

Carabantes 2003

Corte de syrah (85%), cabernet-sauvignon (10%) e petit verdot (5%), prontinho para beber. No nariz, frutas negras e um toque de especiarias. Na boca, redondo, fino, macio, longo e com ligeiro amargor no final.

Nota: 9
Preço: R$ 155,25
Degustado em abril de 2009

Montelìg 2004

Foram feitas apenas pouco mais de 7 mil garrafas deste corte de cabernet-sauvignon (65%), petit verdot (25%) e carmenère (10%), um dos melhores tintos do Chile. Longe de ser uma bomba aromática, é elegante e intenso no nariz, com notas de cassis, azeitona, chocolate, café, baunilha e couro. Na boca, combina força com classe, é macio, harmônico, de bom corpo e final longo e arrebatador.

Nota: 9,5
Preço: R$ 322
Degustado em junho de 2009

Montelìg 2005

Montelìg é a mistura de “monte”, com “lìg”, palavra indígena pré-inca que significa luz. Envolvente como a luz, aristocrático como as montanhas andinas, este tinto, corte de cabernet-sauvignon (60%), petit verdot (30%) e carmenère (30%) é ainda melhor do que o seu irmão da safra 2004. Superior, mas coisa pouca. Ambos são grandes vinhos, ícones da vinícola e símbolo do que o Chile pode fazer de melhor em matéria de vinhos.

Nota: 9,5
Preço: n/d no Brasil
Degustado em julho de 2009

Toknar 2005

Este é um vinho que merece toda a atenção, produzido com a petit verdot. Tinto robusto, repleto de estrutura, tanino, acidez e caráter. Se a idéia for comprar e beber, decante. Mas vale a pena guardar essa joia por, pelo menos, mais um par de anos.

Nota: 9,5
Preço: R$ 399
Degustado em maio de 2009

Tatay de Cristóbal 2007

Vinho ícone da Von Siebenthal, lançado em 2009, ainda a caminho do Brasil. É um corte de carmenère (90%) e petit verdot (10%). E que põe a uva símbolo do Chile em outro patamar. No nariz, mais parece um amarone. Aromas de ameixa madura, balsâmico, café. Na boca, é enorme, denso, concentrado, interminável. Um vinho para tomar com calma. E cabe guardá-lo por um bom período. Ainda tem muito que oferecer.

Nota: 9,5
Preço: n/d no Brasil
Degustado em dezembro de 2009