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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

11 motivos para brindar 2011

por Alexandre Lalas


É lugar mais do que comum dizer que espumante rima com réveillon, que o brinde de final de ano merece um champanhe e coisas do gênero. Mas é inevitável. Quando o relógio se aproxima da meia-noite, meio mundo começa a desamarrar o arame e, depois dos fogos de artifício, o barulho que mais se ouve é o espocar das rolhas das garrafas de espumante.

Portanto, segue abaixo mais uma listinha. Desta vez, com onze espumantes, de diferentes origens e preços, para comemorar a passagem de ano. Só não vale sacudir a garrafa e desperdiçar o precioso líquido gasoso que vem dentro da garrafa.

Saúde e feliz 2011 a todos.

Fabian Brut Champenoise NV
Serra Gaúcha, Brasil
Espumante feito pela Fabian, vinícola familiar do Rio Grande do Sul, de excelente relação custo-benefício. No nariz, maçã, frutas secas e um tostado leve. Na boca, é elegante, delicado e fresco.
Nota: 8,5
Preço médio: R$ 40
Onde: Vini Rio

Maximo Boschi Brut Speciale 2006
Vale dos Vinhedos, Brasil
Meu amigo Homero Sodré, quando provou este corte de chardonnay e pinot noir, falou na hora: “este espumante é para iniciados”. Acertou na mosca. Mais do que o descompromissado e delicioso frescor dos espumantes, este aqui aposta em outro caminho: o da estrutura. No mercado nacional, só o 130 da Casa Valduga tem o mesmo estilo. Perlage delicadíssima; nariz rico, com notas de frutas secas, especialmente damasco e abacaxi, e um toque de tostado; na boca, é encorpado, com volume, mas sem perder o frescor que se espera de todos os espumantes. Final longo e com um toque de pão.
Nota: 9
Preço médio: R$ 79
Onde: Confraria Carioca

Vallontano LH Zanini Extra Brut 2008
Vale dos Vinhedos, Brasil
Primeiro espumante produzido através do método tradicional por esta simpática vinícola de artesãos do Rio Grande do Sul. Corte de chardonnay e pinot noir, agrada em cheio. Embora o perlage ainda esteja um tiquinho agressivo, isso não influi em nada a satisfação que o vinho causa. No nariz, frutas cítricas, damasco e uma leve nota de pão. Na boca, frescor é a chave. É leve, delicado e muito gostoso. Daqueles em que a garrafa vai embora sem que ninguém dê conta.
Nota: 8,5
Preço médio: R$ 79,50
Onde: Mistral

Vértice Rose NV
Douro, Portugal
A touriga franca é a base deste espumante rosado bastante interessante feito em Portugal. No nariz, framboesa, morango e cereja. Na boca, é bem cremoso, fresco e fino, com um toque de framboesa no final.
Nota: 8,5
Preço médio: R$ 87
Onde: Adega Alentejana

Jansz Premium Cuvée NV
Tasmânia, Austrália
Nem só de diabos, lagartos estranhos, dragões e demônios esvoaçantes vive a Tasmânia. A região é pródiga em bons vinhos, especialmente, espumantes. Como este aqui, corte de chardonnay e pinot noir, com 2% de pinot meunier. No nariz, morangos, maçã, pêra, nozes e um toque floral. Na boca, é cremoso, fresco e levemente cítrico.
Nota: 8,5
Preço médio: R$ 100
Onde: KMM

Cave Geisse Terroir 2006
Pinto Bandeira, Brasil
Este é um espumante bem tradicional, sempre muito bem feito, feito por um dos grandes craques do ofício, o sempre simpático Mario Geisse. Corte de chardonnay e pinot noir, elegante e fino, com notas de maçã, frutas secas, amêndoas e um leve toque de mel. Na boca, mantém o padrão de fineza, com boa estrutura, equilíbrio preciso e um bom final. Dos melhores do país.
Nota: 9
Preço médio: R$ 105
Onde: Vinícola Geisse

Gramona Imperial Brut Gran Reserva 2005
Penedès, Espanha
Um cava de respeito, de excelente qualidade, desta vinícola-referência da região. Corte de xarel.lo, macabeo e chardonnay; com nariz rico em aromas, com notas de maçã verde, especiarias, frutas secas, brioche e um toque de tostado. Na boca, é cremosa, frutada, com uma acidez perfeita e um final elegante.
Nota: 9
Preço médio: R$ 115
Onde: Casa Flora

Henriot Brut Souverain NV
Champanhe, França
Um dos melhores champanhes de base disponíveis no mercado brasileiro. Nariz delicado e intenso, com notas de mel, frutas secas e brioche. Na boca, é fino, macio e cremoso, com final longo e agradável.
Nota: 9
Preço: R$ 175,07
Onde: Vinci

Ferrari Perlé Brut 2004
Trento, Itália
Este espumante italiano não tem nada a ver com as vermelhas baratinhas de Maranello. Em comum, apenas o nome. O que não impede que este Ferrari aqui tenha lá o seu valor. Na verdade, um baita valor. Às cegas, é difícil não jurar que trata-se de um legítimo champanhe, blanc des blancs, de produtor de respeito. Na verdade, dá de dez em várias champas campeãs de venda por aqui. Delicado e elegante, com notas de avelãs, brioche e damasco seco no nariz. Na boca, fica ainda melhor. É cremoso, fino, fresco, com bom volume e final longo. Uma beleza.
Nota: 9
Preço médio: R$ 199,90
Onde: Decanter

Lanson Rosé Label Brut NV
Champanhe, França
Champanhe de cor salmão bem claro, com aromas de rosas, cereja e um toque de compota. Na boca, é fresco, fino e macio, com um final longo e frutado.
Nota: 9
Preço médio: R$ 200
Onde: Barrinhas

Cuvée William Deutz Millésime Brut 1998
Champanhe, França
Este cuvée não deve nada a nenhum grande champanhe de produtores mais estrelados. Nariz fino, com notas de maçã cozida, damasco seco, brioche, noz moscada. Na boca, é macio, fino, cremoso, delicado, o supra-sumo da elegância. Este champanhe é uma experiência única. Para datas especiais. Saúde.
Nota: 10
Preço médio: R$ 622
Onde: Casa Flora

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Em plena forma


Dois séculos. Este foi o tempo que duas garrafas de champanhe uma da Juglar, marca que sequer existe mais, e outra da Veuve Clicquot, esperaram para enfim serem abertas e degustadas. As garrafas faziam parte do lote de 168 garrafas encontradas por um grupo de mergulhadores no Mar Báltico, em um barco naufragado na costa da Finlândia, perto do arquipélago Aaland, onde foi feita a degustação.

Quem provou, gostou. A Master of Wine finlandesa, Essi Avellan disse que ambas as garrafas estavam ‘incrivelmente vivas e frescas’.

“Como esperado, ambas estavam um pouco mais doces que o normal, mas com uma cor dourado surpreendentemente brilhante e com aromas de mel e tostado”, disse Essi. “A Juglar estava mais harmoniosa e completa, enquanto a Veuve apresentava um aroma mais picante e defumado, mas com uma impressionante acidez”, completou a finlandesa.

Especula-se que as garrafas faziam parte de um carregamento de champanhe enviado pelo rei Luis XVI à corte imperial da Rússia.

Já o governo de Aaland espera usar a descoberta para promover o arquipélago.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O desastre perfeito

por Alexandre Lalas


Quando a pessoa abre uma garrafa de um vinho em um restaurante chique e propõe um brinde, muitas vezes sequer imagina o caminho que a bebida fez para chegar até ali. Por mais cultura, história e charme que carregue na aura, o vinho é, no final das contas, um produto agrícola. E, como tal, está sujeito às intempéries e aos caprichos da Mãe Natureza.

Pois neste ano, em Sonoma County, nos Estados Unidos, vinhateiros e enólogos foram lembrados de quão pesada pode ser a mão da natureza. Não foi apenas um ano complicado, difícil. Foi um ano perdido. Para muitos, a pior safra da história recente da região.

Com a colheita quase no fim, sobrou pouco para contar a história. Elias Torres, da Halling Vineyard, no negócio desde 1974, não se lembra de um ano tão ruim quanto este 2010. Em um ano normal, a pequena propriedade de três acres que possui, é capaz de produzir 10 toneladas de zinfandel de alta qualidade, o que rende a Elias cerca de US$ 25 mil. Este ano, a coisa foi diferente.

“O sol fritou todas as uvas. Não sobrou uma para contar a história. Nunca vi uma safra tão desastrosa”, lamentou.

Elias não é o único a lamentar. A hora é de fazer contas. Muitos produtores ainda estão avaliando os prejuízos financeiros e os danos às vinhas. O ano começou complicado quando uma praga assolou a área no final da primavera e piorou de vez com a onda de calor que fez em agosto e arruinou campos inteiros.


E como desgraça pouca é bobagem, um temporal no último final de semana deu cores definitivas a um quadro quase catastrófico. A chuva gerou mofo em algumas vinhas, reduzindo ainda mais uma produção já reduzida a quase nada. Catadores eram obrigados a percorrem os vinhedos lentamente, examinando cacho por cacho para determinar quais uvas eram ainda saudáveis o suficiente para serem esmagadas.

“Tivemos que fazer uma baita seleção de uvas. Deixamos muita coisa no campo”, informou Steve Thomas, diretor de operações da Kunde Estate.

Chris Maloney, que dirige uma empresa que faz seguros da colheitas estima que os clientes tiveram perdas que podem ultrapassar os US$ 10 milhões. “Pode ser um recorde. Este foi um ano horroroso”, fez coro.

O total exato de quanto os produtores irão pedir às seguradoras virá a público somente em alguns meses. Pelo menos 64% dos vinhateiros da região estão cobertos por algum tipo de seguro. Dependendo da apólice, os produtores conseguirão reembolso de até 75% do que perderam na temporada.

Mas para alguns analistas, o clima não foi o único vilão da má safra. A recessão norte-americana também teria contribuído para o misere dos produtores. Os preços estavam tão baixos que muitos deles teriam preferido deixar as uvas apodrecerem nas vinhas a colher e vender pelo que os compradores estavam pagando. Estas uvas abandonadas enquanto ainda estavam saudáveis, em um ano normal, poderiam render um bom dinheiro aos produtores.

No entanto, há quem consiga manter um pouco de otimismo mesmo com toda a situação em volta. Diane Wilson, enóloga da Wilson Winery, já está com a colheita praticamente terminada. Faltam colher apenas 2% dos bagos. Segundo ela, apesar da pequena produção, o que sobrou foram uvas de excelente qualidade.

A temporada começou com as nuvens negras da recessão econômica no horizonte. Em abril, uma geada danificou diversas vinhas. Em seguida, um início de verão nebuloso e frio atrasou a maturação das uvas e reduziu o nível de açúcar nos bagos. Regiões mais frias, como Bennett Valley, Russian River e Carneros foram especialmente afetadas pela nebulosidade, que permitiu o aparecimento de fungos e insetos que se tornaram uma praga por todo o condado.

Quando o calor finalmente chegou, veio avassalador e literalmente cozinhou vinhedos inteiros.

“Foi um desastre perfeito”, resumiu Michael Collins, dono e enólogo da Limerick Lane, e cuja produção foi inteiramente perdida, incluindo a parcela centenária de zinfandel. "É a primeira vez que não colherei nada", disse ele. "Nunca vi nada como este ano. Não posso nem acreditar", falou.

Collins disse que até poderia ter sido capaz de colher 20% da produção, mas decidiu que a qualidade das uvas não era boa o suficiente.

"Eu tenho que fazer um vinho de qualidade muito alta, ou não fazer”, disse ele, que decidiu simplesmente deixar tudo apodrecer.

"Na agricultura, de vez em quando, você recebe um taco de beisebol na cara", disse ele. "Este ano, foi assim".

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Elegância portenha

por Alexandre Lalas


Silvio Alberto faz parte de uma geração de enólogos que, lá pelo meio dos anos 90, começou a mudar a cara do vinho argentino. Mas, desde que começou a trabalhar, lá se vão vinte e poucos anos, na La Rural (vinícola que faz o Rutini), Silvio sempre teve uma visão diferente do vinho. No lugar de muito extrato seco, concentração, fruta compotada, longos estágios em madeira e potência, Silvio buscava elegância, fineza, delicadeza para os vinhos que fazia.

Quando foi chamado para começar o projeto da Andeluna, ainda no nascedouro, Silvio estava na Navarro Correa. Havia sido contratado com a missão de mudar a cara dos vinhos da empresa. Complicadores internos não deixavam com que Silvio levasse a cabo a missão que lhe fora encomendada. Portanto, o convite da Família Reina, que em conjunto com o milionário norte-americano Ward Ley veio em boa hora. A ideia era criar uma nova vinícola, com um conceito diferente do que reinava no vinho argentino na ocasião. E Silvio era o nome perfeito para a empreitada.

A Andeluna nasceu em 2003. E, neste caso, a missão encomendada virou, de fato, missão cumprida. Os vinhos da Andeluna se destacam justamente pela elegância que exibem. Atributo este cada vez mais imitado pelos pares argentinos.

Mas Silvio não para por aí. Em um país cujas exportações estão diretamente atreladas à locomotiva chamada malbec, o enólogo enxerga diversidade. Embora seja fã da uva (e quem não é), Silvio enxerga muito mais coisas no horizonte do que a badalada malbec. Cabernet franc, syrah e petit verdot são apostas feitas. E, se a primeira já se mostrou vitoriosa, as outras duas estão em pleno processo de produção. Se chegarão ao mercado ou não, é uma questão que caberá aos investidores da Andeluna. Mas, analisando o histórico de Silvio Alberto, é perfeitamente crível imaginar que a Andeluna marcará mais um golaço.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O vinho do gelo brasileiro

por Alexandre Lalas


Domingo, dia 10/10/10, a vinícola Pericó, de Santa Catarina, lançou oficialmente o primeiro Icewine produzido no Brasil. A campanha de lançamento foi uma aula de marketing bem feito, com direito a contagem regressiva no site da vinícola, que também mostra toda a história da produção do vinho.

O Icewine foi feito com uvas naturalmente congeladas, colhidas no outono de 2009, entre os dias 4 e 12 de junho, nas vinhas da Pericó. A variedade escolhida foi a cabernet-sauvignon. De acordo com Jefferson Sancineto Nunes, enólogo da Pericó, esta variedade foi escolhida por ser a mais tardia disponível na Vinícola e, portanto, a única capaz de sustentar seu lento amadurecimento nas parreiras até a chegada das temperaturas negativas do inverno ao alto da serra de São Joaquim, Santa Catarina. A produção é de apenas 3,3 mil garrafas.

O esmero da vinícola não ficou apenas na produção do vinho. O rótulo foi encomendado à artista plástica Tereza Martorano, que preparou a gravura Vindima na Neve. O kit de lançamento do produto inclui, além d vinho, uma lata decorada, um livreto com a história da produção do vinho e um tag com dicas de harmonização.

Por enquanto, o Icewine Pericó está disponível para venda em apenas três estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. O preço sugerido ao consumidor é de R$ 189. Cada garrafa contém 200 ml de vinho.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Onde os fracos não têm vez

por Alexandre Lalas

Elizabeth Vianna, enóloga da Chimney Rock, vinícola do vale do Napa, nos Estados Unidos disse que “a safra deste ano não é para fracos de coração”. E, enquanto continua o veranico na região, o enólogo Chris Dearden disse que os trabalhadores seguem colhendo todas as variedades de uva, inclusive as últimas brancas e os primeiros cabernets na denominação de origem de St. Helena.

A seguir, um resumo da situação no vale do Napa, de norte a sul.

Calistoga — Paul Smith, Onthedge Winery: “o calor da semana passada trouxe muitas uvas sobremaduras, enquanto outros bagos foram queimados e ficaram muito ressecados. Muitas variedades serão prensadas nesta semana. A zinfandel teve rendimentos médios, enquanto quase dois terços da colheita de cabernet franc sofreram com queimaduras solares e desidratação, apenas uma parcela das vinhas, protegidas pela sombra da Mayacamas não ficou passificada, murcha. Em geral, os locais desprotegidos ao norte e ao leste do Napa sofreram mais danos por causa do calor do que aquelas a oeste e ao sul do rio”.

Diamond Mountain District — Dawnine Dyer, Dyer Vineyards: “com rendimentos mais baixos do que a média normal, as vinhas responderam bem ao calor da semana passada, e o nível de açúcar a maturação das uvas deu um salto. Alguns vinhedos mais expostos chegaram a sofrer algum tipo de passificação, mas a maioria das copas permanece saudável e com níveis de açúcar variando entre 23-36 Brix. Cepas mais precoces já estão em ponto de colhermos, mas com a continuação do bom tempo, a maioria dos cabernets estará pronta em mais uma ou duas semanas”.

Howell Mountain — Pat Stotesbery, Ladera Vineyards: “na maior parte das vinhas, as coisas ainda estão bem calmas. Mal começamos a colheita das frutas vermelhas e a maioria das pessoas ainda estão esperando uma melhor maturação das uvas. Algumas folhas amareladas já são vistas nas zonas de frutas, mas a maturação fenólica das uvas ainda está um pouco atrasada. Há muita conversa sobre o final desta semana, mas a previsão é de tempo frio e será na semana que vem, provavelmente, que as coisas deverão começar a de fato acontecer por aqui”.

Chiles Valley District — Volker Eisele, Eisele Vineyards: “é impressionante a diferença que uma semana faz. Agora, 90% das uvas brancas já estão prontas. Apenas uma pequena parta de chardonnay falta colher. O mais impressionante é que já iniciamos a vindima tanto a syrah quanto a zinfandel, e devemos continuar o trabalho com estas duas uvas durante a próxima semana. A cabernet-sauvignon mostra um bom nível de açúcar, em torno de 23 Brix, além de uma bela acidez e um baixo pH. A qualidade média é muito alta, mas com rendimentos abaixo do normal. Neste aspecto, os danos provocados pelo calor foram maiores do que o previsto anteriormente”.

Spring Mountain District — Stuart Smith, Smith-Madrone Winery: “a bolha de calor que fez na semana passada subiu substancialmente o nível de açúcar das uvas, principalmente as brancas e a pequena parcela de merlot que temos no alto da colina. As elevações mais baixas da montanha foram protegidas pelas névoas da manhã. Estamos em compasso de espera em relação às uvas destes vinhedos, e o desaquecimento previsto para a semana que vem nos colocou a todos aqui em um exercício de paciência”.

St. Helena — Chris Dearden, enólogo, V Madrone e Shibumi Knoll: “vinhateiros e produtores estão curtindo este veranico tardio e colhendo todas as variedades, incluindo a chenin blanc, mais tardia das brancas, vinhas velhas de zinfandel, petite syrah, syrah e até mesmo as primeiras vinhas de cabernet-sauvignon do ano. A qualidade da fruta é excelente, com aromas maduros e níveis moderados de açúcar. A cor da pele das uvas está de desenvolvendo cedo e temos taninos ricos e granulados, o que é um prenúncio de uma boa safra”.

Rutherford — Jeffrey Stambor, diretor de enologia, Beaulieu Vineyards: “esta é uma safra que exercita como poucas a paciência do mais experimentado dos enólogos. A continuação das baixas temperaturas e o clima seco são previsíveis, e, portanto, não há pressão para colhermos agora. As vinhas estão segurando bem, e já estamos no começo de outubro. A merlot já está começando a sair, mas ainda não colhemos nenhum cabernet. Os aromas ainda estão se desenvolvendo, e com uma ligeira contribuição do clima, estaremos olhando para grandes vinhos”.

Oakville — Pat Garvey, gerente de vinhedo, Flora Springs Winery: “Paul Steinauer, da Flora Springs, e Gary Brookman da Miner ainda estão esperando que os aromas da chardonnay se desenvolvam melhor. O nível de açúcar cresceu dois graus Brix na semana passada, um pouco mais quente, mas o desenvolvimento dos aromas ainda está lento, embora a acidez esteja até mais alta do que o esperado. Com o crescimento de mais 1,2 grau Brix por semana, os produtores esperam colher uvas com aromas de frutas tropicais e mel, e talvez a gente comece no final da semana que vem”.

Stags Leap District — Elizabeth Vianna, enóloga, Chimney Rock Winery: “a colheita começou oficialmente em Stags Leap. Elias Fernandez, da Shafer, disse que ‘o flautista chegou para pagamento’ e ele está ocupado colhendo merlot. Benoit Touquette, da Hartwell colheu apenas um pouco de merlot e está esperando um pouco de recuperação após o intenso calor. Em Chimney Rock, o jogo de espera continua, mas provavelmente iremos começar a colher a merlot nesta semana. Esta não é uma campanha para fracos de espíritos ou de coração. Será um outubro intenso para todos”.

Atlas Peak — Jan Krupp, Stagecoach Vineyards: “um merlot maravilhoso, chardonnay e zinfandel já começaram a serem colhidos em Atlas Peak. Será uma excelente safra, apesar das preocupações iniciais. Os aromas da cabernet estão ótimos e a previsão de bom tempo confirma que está será um excelente ano.

Mount Veeder — Brian Nuss, Vinoce Vineyards/Twenty Rows: “finalmente fez algum calor na semana passada, o que foi bom para começarmos a colocar as coisas nos eixos. Temos níveis de açúcar de 24 Brix nos vinhedos ao pé do morro. As sementes ainda estão um pouco verdes, mas estão chegando lá. Se a previsão for confirmada e tivermos um tempo bom com temperaturas na casa dos 27º C, poderemos ter algumas uvas colhidas na semana que vem”.

Oak Knoll District — Jon Ruel, Trefethen Vineyards & Winery: “aqui na Trefethen começamos a colher os primeiros cabernets e estamos no meio da vindima de chardonnay. Nesta semana, também colhemos um pouquinho de merlot, petit verdot e malbec também. Outubro será um mês longo e trabalhoso”.

Dave Pramuk, Robert Biale Vineyards: “continuamos a colher zinfandel nos nossos quatro vinhedos, sendo que em três deles estamos quase encerrando os trabalhos. A qualidade média é boa, embora tenhamos menos aromas frutados devido à desidratação de algumas vinhas. Metade das nossas uvas já estará na cantina até o final desta semana. A petite syrah deverá ser colhida na semana que vem.

Stan Boyd, Boyd Family Vineyards: “os aromas e sabores finalmente estão começando a surgir e tivemos aumento de 1,5 Brix no açúcar das uvas, na semana passada. Estamos pensando em colher nossa última parcela de chardonnay e algum syrah para a produção de vinho rosado ainda nesta semana”.

Morgan Morgan, gerente de negócios da Oak Knoll Ranch/Lamoreaux Vineyards: “terminamos a colheita de sauvignon blanc e de semillon. A qualidade é excelente, embora a produção tenha sido um pouco menor do que a normal, principalmente de sauvignon. O cabernet está indo bem. Esperamos que o tempo continue agradável, sem temperaturas extremas. Caso o clima colabore, poderemos esperar uma excelente safra, com rendimentos normais.

Carneros — Lee Hudson, Hudson Vineyards: “já colhemos mais da metade da chardonnay. Uvas muito saborosas chegaram durante a semana inteira, com rendimento perfeitamente moderado. A pinot noir está borbulhando. Começaremos a colher merlot e syrah nesta semana. Estamos todos ansiosos com a qualidade desta safra e abismados em ver como problemas aparentemente insolúveis podem desaparecer. Longa vida às boas surpresas de 2010”.

Wild Horse Valley — Bob Nicol, Robert Nicol Vineyards: “o tempo está mudando por aqui. Noites frias e manhãs com névoas estão ficando mais frequentes e as quentes tardes estão ficando mais raras. Ainda temos que esperar uma ou duas semanas até que o nível de Brix diga sim e possamos começar a colher e as sementes ainda estão escuras. O gosto está ótimo e as uvas, saudáveis. A beleza das cores do outono está aparecendo neste vale no céu, mas as folhas verdes ainda tentam se agarrar às vinhas".

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

As gotas de Deus

por Alexandre Lalas

O mundo dos mangás japoneses e dos vinhos franceses costumam girar em órbitas diferentes. Ou, pelo menos, assim era até o sucesso retumbante de “As gotas de Deus” (Kami no Shizuku, no original). O fato é que o cartum japonês, que fala sobre vinhos reais e disponíveis no mercado, criou uma impressionante mania de vinho no Japão e na Coreia do Sul e tem catapultado alguns produtores a um surpreendente estrelato.

O mangá virou uma série para a televisão, que se tornou um enorme sucesso. Em ambas as versões de "As gotas de Deus", o filho de um crítico de vinhos recentemente falecido volta-se contra o irmão adotivo para provar que era o herdeiro digno da vasta coleção de vinhos do pai morto.

O filho biológico, no entanto, não tem conhecimento do negócio do vinho. Ao contrário do irmão adotivo, ele não recebeu uma educação sobre safras, variedades de uva, châteaus, e todo o resto. O que ele tem de especial é um nariz capaz de identificar os mais preciosos aromas. Esse recurso faz dele um verdadeiro rival do irmão adotivo na busca dos 12 vinhos especiais que o pai chamava de "apóstolos" e de um 13º que era chamado de "as gotas de Deus".

Sete milhões de pessoas assistiram ao episódio final da série de TV, onde foi revelado que "as gotas de Deus" eram, na verdade, um Château Le Puy 2003.

Imediatamente após a revelação, na França, em um pequeno e sossegado vilarejo de Bordeaux, o telefone do enólogo Pascal Amoreau, do Château Le Puy, que pertence à mesma família há 400 anos, começou a tocar. E encomendas de clientes japoneses chegavam em quantidade jamais vista. “De repente, recebemos 150 pedidos por telefone, fax e e-mail do Japão. Todos querendo o Le Puy 2003. Liguei para meu importador de lá que, eufórico, disse que meu vinho tinha sido eleito o ‘gotas de Deus’. Foi assim que descobri o que estava acontecendo”, disse Amoreau a uma rádio local.

Mas o que começou com celebração, logo virou motivo de indignação para Amoreau. Quando descobriu que o vinho que vendia a 18 euros a garrafa estava custando 1 mil euros em Hong Kong, o enólogo do Château Le Puy resolveu tirar a safra 2003 do mercado. “Tomamos esta atitude a fim de evitar a especulação, porque queríamos que este vinho, que havia sido escolhido como um vinho mítico, ficasse ao alcance de todos e não apenas para uns poucos compradores de rótulos de luxo”, justificou Amoreau.

Os criadores da série são apreciadores reais de vinho e não esperavam que o sucesso do mangá pudesse influenciar desta maneira o mercado francês de vinho. Analistas de mercado no Japão acreditam que as vendas de vinhos de Bordeaux subiram cerca de 20% nos últimos anos por causa da série. “É comum pessoas entrarem nos bares de vinho com o mangá nas mãos e perguntarem se eles têm algum daqueles rótulos mencionados na história”, explica Sam Souibgui, dono de uma livraria em Tóquio.

Recentemente, os criadores da história foram visitar o Château Le Puy. Para celebrarem o sucesso da série e do vinho, os anfitriões abriram uma garrafa da safra 1917 do Le Puy.

domingo, 5 de setembro de 2010

O vinho da pedra amarela

por Alexandre Lalas

Gonzalo Muñoz e Sven Bruchfeld eram colegas de universidade no Chile. Desde a época, já sonhavam em montar alguma coisa juntos no futuro. Mas um foi estudar na Espanha, o outro saiu por aí trabalhando em vinícolas mundo afora e o projeto esfriou. Até que calhou de Sven e Gonzalo se encontrarem para passarem uns dias Narbonne, na França. Foram juntos a uma degustação de syrah em uma vinícola local e saíram de lá com a certeza de que a hora para tocar os projetos em conjunto havia chegado. E que a uva escolhida para dar continuidade ao sonho de ambos era a syrah.

De volta ao Chile, saíram em busca de um lugar para plantar as vinhas. Quando uma corretora de imóveis ligou avisando que havia um terreno em uma colina aos pés da Cordilheira da Costa, em Marchigüe, no vale do Colchágua, Sven, que já passara pelo lugar em uma visita anterior ao povoado, sabia que o lugar havia sido encontrado. E, de fato, ali os dois amigos, que àquela altura já contavam com os precisos préstimos de um sócio capitalista, fincaram as raízes da Agrícola La Viña. O ano era 2002.

Dois anos depois foi lançada a primeira safra. O vinho foi batizado como Polkura, que significa pedra amarela, no idioma mapuche, e é o nome da colina que fica na área do vinhedo. Ambos sabiam bem o que estavam fazendo e não foi surpresa para eles a boa receptividade que o vinho teve.

De lá para cá, a La Viña só fez crescer, e sem sacrificar a qualidade dos vinhos. Novas uvas foram plantadas, possibilidades exploradas e novos rótulos, sempre muito bem feitos, lançados. Independente e artesanal, a vinícola é membro atuante do MOVI, o movimento dos vinhateiros independentes do Chile.

Na semana passada, Sven Bruchfeld esteve no Rio para uma degustação seguida de almoço, no restaurante Mr. Lam. Ali, o enólogo apresentou uma degustação vertical do Polkura, além de mostrar dois novos lançamentos da La Viña. Foram provadas as safras 2004, 2006, 207 e 2008 do Polkura, além do Polkura Block G + I 2007 e o Aylin Sauvignon Blanc 2009, feito no vale de San Antonio, em Leyda.


Consistência na qualidade é a marca dos vinhos. Todos os tintos se equivalem, com ligeiro destaque para o Polkura 2006, que está no momento perfeito para ser degustado.
Abaixo, as notas de prova dos vinhos. Todos os rótulos da Agrícola La Viña são distribuídos no Brasil pela Premium (31 3282-1588).


Aylin Sauvignon Blanc 2009
Vale de Leyda, Chile
Aylin significa “claridade” e “transparência”. Daí a razão do nome deste sauvignon blanc feito em San Antonio, no vale de Leyda. Nariz intenso, com notas de frutas cítricas e tropicais, como abacaxi, papaia e um toque de manga, e ainda notas minerais. Na boca, médio corpo, muito frescor, bom volume e um final de média persistência e relativamente doce.
Nota: 8.5
Preço: R$ 42

Polkura Syrah 2004
Vale do Colchágua, Chile
Primeiro vinho produzido pela dupla Sven/Gonzalo, um syrah de primeira linha, com estágio de 12 meses em barricas de diversas tonelerias, origens e idades diferentes. Rico e intenso no nariz, ainda com muita fruta, como amora, mirtilo, figo, tomilho, com notas de baunilha e evolução para chocolate. Na boca, tem bom corpo, maciez, equilíbrio, volume e um final longo.
Nota: 9
Preço: N/D

Polkura Syrah 2006
Vale do Colchágua, Chile
Neste vinho, pela primeira vez na história da Polkura, a syrah não reina soberana. Aos 92% de syrah, se juntaram 4% de malbec, 2% de viognier e 2% de outras três castas: tempranillo, mourvèdre e grenache noir. O resultado foi um vinho igualmente impactante, porém, um pouco mais elegante do que o antecessor. No nariz, a mesma fruta negra madura, especialmente amora, junto a notas marcantes de pimenta negra e anis. Na boca, ótima estrutura, com muito corpo, taninos finos, bastante volume, equilibrado e com um final longo e cheio de fruta.
Nota: 9
Preço: N/D

Polkura Syrah 2007
Vale do Colchágua, Chile
Foi um ano mais frio do que costume em Marchigüe, o de 2007. E o resultado é um vinho ligeiramente diferente do estilo normal do Polkura. Menos intenso no nariz, com notas mais florais, embora ainda se encontre a fruta negra, as ervas e a pimenta. Na boca, é menos vigoroso, mas bastante fino, com ótima estrutura e um grande frescor. Final longo e que deixa uma sensação de frescor na boca. Um vinho para envelhecer mais um tempo em garrafa.
Nota: 9
Preço: R$ 75

Polkura Syrah 2008
Vale do Colchágua, Chile
Depois da fria safra de 2007, este Polkura retoma o estilo das safra 2006: nariz intenso, com muita fruta negra, em especial amora, ervas e pimenta negra. Na boca, ainda não está tão pronto quanto o 2006, os taninos ainda estão mais duros. Mas o corpo, o volume, a estrutura e o final longo estão lá. Deve chegar ao Brasil no final do ano.
Nota: 9
Preço: N/D

Polkura Syrah Block G+I 2007
Vale do Colchágua, Chile
Dos vinhedos da Polkura em Marchigüe, as parcelas G e I são as únicas voltadas para o sul. Por conta disso, recebem uma incidência solar menor, o que resulta em uvas com menos acúmulo de calor, que geram vinhos mais elegantes. Em 2007, Sven e Gonzalo resolveram fazer um vinho feito com uvas apenas destes dois vinhedos. Nasceu então o Block G+I, um syrah com uvas destas duas parcelas, cortadas com 2% de viognier. Fino no nariz, com notas de ervas, amoras frescas, pimenta branca e um toque de anis. Na boca, muita estrutura, volume, frescor, equilíbrio e um final longo e com um toque apimentado.
Nota: 9
Preço: R$ 141

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O vinho do adeus

por Alexandre Lalas

Muitas vezes o ser humano sonha secretamente com o fim dos tempos, com o dia em que tudo se acabará. Tsunamis, terremotos, erupções, pragas, e toda a sorte de catástrofes possíveis e imaginárias habitam o inconsciente coletivo da humanidade. É como se até desejássemos a morte definitiva, o fim irreversível. Seria, talvez, uma resposta à transitoriedade de todos nós, à nossa mortalidade. Ou seja, se tudo acabasse, não perderíamos nada do que estivesse por vir.

O fato é que o poder de decidir quando e como partir é sempre atraente. É como se pudéssemos controlar o incontrolável, alcançar o que não está ao nosso alcance. E, com esse pensamento fatalista na cabeça, a coluna resolveu fazer uma pergunta. Se fosse possível escolher que garrafa de vinho beber antes de morrer, qual seria o rótulo eleito?

Reinaldo Paes Barreto, meu colega de jornal e de taça, escolheria um champanhe. Mais precisamente, um Dom Pérignon. Para ele, a morte significa uma passagem de fase, uma entrada em uma nova etapa, um novo começo. Portanto, motivo para celebração.

Um champanhe também seria a escolha do mestre Célio Alzer, professor da Associação Brasileira de Sommeliers. Célio escolheria o Krug Clos du Mesnil 1990. “É um vinho que me levaria às alturas! E nessa hora, quanto mais perto do céu, melhor”, brincou.

O sommelier Dionísio Chaves, que em breve abrirá um novo restaurante na Barra da Tijuca, o Duo, escolheria um Montrachet 1990 da Domaine de La Romanée-Conti. Para ele, mais do que ser o melhor vinho que já provou na vida, é a história do poder que um vinho branco tem em superar tintos ainda mais badalados.

O mesmo vinho, mas em safra diferente, seria a escolha de outro sommelier, Eder Heck, do Mr. Lam. Eder escolheria o Montrachet 1978, também da DRC. Segundo ele, ‘este vinho seria capaz de salvar um condenado da forca’.

O mestre Danio Braga não se faria de rogado. Escolheria um Château Petrus 1921. “Fico com este vinho por ter sido o melhor que bebi, o que mais me emocionou, em toda a minha vida. Então, partiria para o outro lado com este gosto na boca”, disse Danio.

Da mesma safra é a escolha do sommelier Marcos Lima: o Château D’Yquem 1921. “Beberia este vinho para poder levar na boca e na memória o prazer e a doçura destes grandes momentos”, explicou Marquinhos.

Um vinho de Bordeaux seria a escolha de outro professor da ABS, Ricardo Farias. O Château Haut-Brion 1982 seria o eleito. O motivo, além da qualidade indiscutível da bebida, é saudade. “Há cerca de 10 anos, após uma degustação na ABS Rio, convidei algumas pessoas para continuarmos degustando na minha casa. Entre estas pessoas, estava uma querida amiga: Juarezita Santos, dona do Quadrifoglio. Para finalizar, provamos um Haut Brion 1982, irrepreensível. Mas, mais que o vinho, ficou-me a lembrança da Juarezita, que já se encontrava doente e foi, provavelmente, a sua última degustação. Pouco depois foi internada vindo a falecer”, contou Ricardo.

O chef Paulo Pinho, do Sagrada Familia, escolheria o italiano Brunello de Montalcino Soldera Riserva 1993. “Foi o melhor vinho que já tomei. É sensacional. Bebi uma garrafa lá na Itália e outra aqui no Brasil. Se eu tivesse outra garrafa, seria ela a eleita para este momento final”, falou Paulinho.

O professor Fernando Miranda iria de um vinho argentino feito na Patagônia. "Escolheria o Noemia, que além de ser um dos melhores vinhos das Américas, o casal proprietário, a italiana Noemí Marone Cinzano e o marido, o enólogo dinamarques Hans Vinding Diers são pessoas de primeira qualidade, muito simpáticos também", indicou Fernando.

O sommelier do Terzetto, João Souza, escolheria o português Barca Velha 1965. “Nasci em 1965, e, além de ser o vinho da ‘minha safra’, é um dos melhores que já tive o prazer de provar e que mais me surpreendeu”, explica.

Um vinho português também seria a escolha do enófilo e consultor Paulo Nicolay. Mas, se pudesse, Paulo degustaria um Quinta do Noval Nacional 1963 antes de passar desta para melhor. Por coincidência, seria a mesma escolha do colunista. E a explicação é simples: O Noval Nacional 1963 é um dos melhores vinhos do porto já feitos em todos os tempos. É, para os amantes deste tipo de bebida, uma espécie de Santo Graal.

Esta é a reprodução da última coluna que escrevi para a Revista Programa. Foram 189 colunas, sexta sim, sexta também, desde janeiro de 2007, sempre escritas com prazer. Muitos vinhos comentados, muitos assuntos discutidos e muitos amigos feitos. Fica o muito obrigado a todos os que leram, passaram os olhos, mandaram e-mail, comentaram e fizeram daquele espaço um lugar onde o vinho (e também outras cachaças) foram sempre tratados com muito respeito e seriedade.

Por aqui, a vida continua. As colunas seguem sendo publicadas neste blog, e nos sites Wine Report e EnoEventos. No mais, o importante é celebrar. Saúde.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Uma revanche histórica

por Alexandre Lalas

De cara já era para ter sido daquelas noites memoráveis. Afinal, estaríamos degustando cinco safras do Mas La Plana, vinho ícone da Torres, uma das mais importantes da Espanha. E, para melhorar ainda mais a coisa, entre os rótulos estaria o lendário 1970, tinto que bateu em prova às cegas promovida pela revista francesa Gault-Millau, em 1979, ícones como Château Latour da mesma safra, Sassicaia e La Mission-Haut Brion. Portanto, a noite prometia.

No Giuseppe Grill, para apresentar os vinhos e comandar a degustação, estava o espanhol Juan Ramon Pujol, um dos enólogos da Torres. Além do Mas La Plana 1970, degustaríamos as safras 1981, 1996, 2005 e 2006. Apresentados o Mas La Plana, servidos e comentados os vinhos, o que já estava ótimo ficou ainda mais sensacional. Marcelo Torres, proprietário do Giuseppe Grill e apaixonado por vinhos, resolveu abrir uma garrafa do Château Latour 1970, segundo colocado na degustação da Gault-Millau em 1979.

Presenciaríamos uma revanche histórica ou o Mas La Plana continuaria em vantagem 31 anos após a prova de Paris?

A ansiedade entre os participantes da prova era latente. Aberta a garrafa do Latour 1970, um inesperado problema: o vinho estava decrépito, já no fim da vida. Enquanto isso, ao lado, o Mas La Plana 1970 ainda esbanjava vitalidade, no alto de seus 40 anos. Seria uma garrafa que não envelheceu bem ou o Latour 70 já havia, de fato, ido para o saco?

Para que não houvesse nenhuma dúvida, Marcelo Torres mandou abrir outra garrafa do Latour 1970. E aí ficou difícil para o Mas La Plana. A segunda garrafa do Latour 1970 estava especial. Elegante ao extremo, austero, aos 40 anos com corpinho de 20. Um clássico. Mas vale registrar que, embora inferior ao Latour, o Mas La Plana 70 era um vinho de emocionar. E que, quase tão bom quanto o 70, estava o Mas La Plana 1981, ainda com uma longa vida pela frente.

Aos felizes comensais, extasiados com a possibilidade de degustar duas obras de arte que desafiam o tempo, ficou a confirmação da máxima de que não existem grandes vinhos, mas sim, grandes garrafas de vinho.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Não deu, Romanée-Conti

por Alexandre Lalas

O austríaco Wieninger’s Pinot Noir Grand Select 2004 ganhou uma prova às cegas realizada em Cingapura que contou com a participação de 33 outros vinhos feitos com a uva. Entre os tintos degustados estavam pinots da Nova Zelândia, do Oregon e da Borgonha, inclusive rótulos da Domaine de La Romanée-Conti.

Além do vencedor da prova, os austríacos emplacaram doze vinhos entre os 20 primeiros colocados. O resultado foi comemorado pelo gerente geral da Companhia de Marketing do Vinho Austríaco, Willi Klinger, que declarou: “durante muito tempo a Áustria foi associada apenas a vinhos brancos de qualidade, mas agora, cada vez mais estamos sendo reconhecidos também pela classe dos nossos tintos”.

O júri foi formado por 16 especialistas, entre os quais, a Master of Wine Lisa Perrotti-Brown, que trabalha com Robert Parker.

Abaixo, a lista dos vinte primeiros colocados na prova. Na foto, os cinco primeiros colocados.

1 Wieninger, Pinot Noir Grand Select 2004, Viena, Áustria
2 Comte Georges de Vogüè: Chambolle-Musigny, 1er Cru 2005, Borgonha, França
3 JR Reinisch, Pinot Noir "Holzspur" Grand Reserve 2007, Thermenregion, Áustria
4 Markowitsch, Pinot Noir Reserve 2004, Carnuntum, Áustria
5 Felton Road: Pinot Noir, Block 5, 2006, Central Otago, Nova Zelândia
6 Schloss Halbturn, Pinot Noir 2004, Burgenland, Áustria
7 Schneider, Pinot Noir Reserve 2004, Thermenregion, Áustria
8 DRC: Vosne-romanée, 1er Cru 2006, Borgonha, França
9 Paul Achs, Pinot Noir 2004, Burgenland, Áustria
10 Georges Roumier: Chambolle-Musigny "Les Cras", 1er 2006, Borgonha, França
11 Claus Preisinger, Pinot Noir 2004, Burgenland, Áustria
12 Auer, Pinot Noir Reserve 2002, Thermenregion, Áustria
13 JR Reinisch, Pinot Noir "Holzspur" Grand Reserve 2004, Thermenregion, Áustria
14 Markowitsch, Pinot Noir Reserve 2006, Carnuntum, Áustria
15 Auer, Pinot Noir Reserve 2007, Thermenregion, Áustria
16 Mèo Camuzet: Clos de Vougeot, Grand Cru 2006, Borgonha, França
17 Auguste Lignier: Clos de la Roche, Grand Cru 2004, Borgonha, França
18 DRC: Echezeaux, Grand Cru 2001, Borgonha, França
19 Juris, Pinot Noir "Hochreit" 2004, Burgenland, Áustria
20 Domaine Serene: Pinot Noir "Jerusalem Hill" 2006, Oregon, EUA

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Vinhos fantásticos, língua afiada

por Alexandre Lalas

Roman Bratasiuk era um bioquímico australiano que amava vinhos. Mas amava tanto, que um belo dia, apesar de não ter nenhuma formação em enologia nem agronomia, resolveu fazê-los. Então, bateu à porta de um viticultor do Mc Laren Valley, cujas uvas Roman apreciava, e, depois de um aperto de mão, alugou as vinhas do sujeito e ali nascera a Clarendon Hills. No dia 24 de fevereiro de 1990, um sábado, Roman chegou às vinhas às seis da manhã. E, para espanto do tal viticultor, começou, sozinho, a colher as uvas. Às nove da noite, com metade do vinhedo colhido, Roman parou o trabalho. Mas voltou bem cedo, no dia seguinte, para terminar tudo. O australiano repetiu o processo com a merlot e com a cabernet-sauvignon. Depois, usou garrafas vazias para amassar as uvas em uma cesta. Dali, o mosto foi transferido para três pequenos tanques de aço, comprados por 100 dólares cada, onde foi feita a fermentação, com leveduras indígenas, e sem nenhum controle de temperatura. Depois o vinho passou por um estágio em barricas de madeira de terceira mão. Em onze dias, tudo estava terminado. Os vinhos foram todos vendidos.


Vinte e uma colheitas depois, a Clarendon Hills coleciona prêmios e pontuações altas em tudo o quanto é canto. Robert Parker adora os vinhos. Jancis Robinson também. Mas Roman não caiu na tentação de aumentar demais a produção para atender a um mercado faminto por seus vinhos. E, se hoje em dia não precisa mais colher tudo sozinho como fizera em 1990, mantém os mesmos princípios de quando começou: vinhos de um único vinhedo, de uma única variedade, de vinhas muito velhas, com baixa produção, colhidos a mão e vinificados com o mínimo de intervenção possível. Por não gostar dos vinhos feitos em Mc Laren Valley, lugar onde estão os vinhedos dele, se recusa a colocar o nome da região nos rótulos. “Não tenho nada a ver com os outros vinhos dali”, brada Roman. E os vinhos da Clarendon Hills são, de fato, muito diferentes do que a região e mesmo a Austrália, costuma produzir.


No Brasil para apresentar os vinhos que, através da importadora Viníssimo, chegam, pela primeira vez, ao mercado sul-americano, Roman conversou com exclusividade com o blogueiro. Entre um gole e outro de cerveja, Roman destilou, sempre com muito bom humor, uma razoável dose de veneno contra outros produtores e contra a crítica especializada australiana.


Alexandre Lalas: O Sr começou a fazer vinhos por amá-los muito. Quais eram os vinhos pelos quais o Sr era apaixonado?
Roman Bratasiuk: Eu bebia muito o Grange, da Penfolds e outros bons vinhos australianos da década de 50 e 60, principalmente. Até porque os atuais caíram muito de qualidade depois que grandes conglomerados compraram as vinícolas familiares. Gosto e bebo muito também os vinhos de Bordeaux, da Borgonha e do vale do Rhône, especialmente os do norte.


AL: E hoje, quais os vinhos que o Sr bebe?
RB: Além dos meus, que gosto muito, continuo bebendo bons vinhos da Borgonha, de Bordeaux e do norte do Rhône. Os australianos eu parei. A vida é muito curta para vinhos ruins.


AL: A exceção dos seus, todos os outros vinhos australianos são ruins?
RB: Não digo que são todos ruins, mas a maioria. E os que não são ruins, não são melhores do que os franceses que gosto de beber. Mas não bebo apenas franceses não. Sou apaixonado por vinho do Porto, por exemplo. E, quando estive no Douro, vistando Dirk Niepoort, um produtor de lá, provei muita coisa realmente muito boa.


AL: O Sr já provou algum vinho brasileiro?
RB: Ainda não. Mas esta cerveja que estamos tomando é muito boa.


AL: O que o Sr espera do mercado brasileiro?
RB: Não sei muito o que esperar. É a primeira vez que meus vinhos estão aqui. Sei que é um mercado com potencial grande, que está em expansão. Sei também que bebem muitos vinhos do Chile e da Argentina. Daqui a um tempo saberei melhor, mas espero que meus vinhos tenham boa venda no Brasil. Sei que foi um namoro longo, mas estou feliz que meus vinhos estão aqui.


AL: Por que o Sr não faz corte de uvas ou mesmo um blend utilizando o que de melhor cada vinhedo pode produzir?
RB: É uma questão puramente filosófica. Eu acredito nos meus vinhos do jeito que eles são. Quero uma expressão pura da variedade da uva com o tipo de terroir de onde ela vem. Não me interessa perder este tipo de característica única de cada vinhedo. Em um lugar tenho um vinho mais frutado, no outro com mais especiarias e pimenta, no outro mais tanino. Gosto que cada vinho tenha uma expressão própria.


AL: Houve algum ano em que o Sr não ficou satisfeito com a colheita a ponto de não lançar o vinho?
RB: Houve sim, em 2000. Tivemos um ano atípico, um verão muito frio. Mesmo assim colhi as uvas e fiz o vinho, esperando que ele melhorasse na garrafa. O tempo foi passando e nada de o vinho melhorar. Eu não poderia lançar ao mercado aquele vinho. Tenho uma reputação a zelar. Então, quebramos as garrafas, uma a uma, para não corrermos o risco de algum engraçadinho encontrar nossas garrafas e vender a um mercado qualquer.


AL: Um prejuízo danado então...
RB: Mas é assim mesmo. Faço vinhos há 21 anos. E a cada ano, a bebida fica diferente. Quando acho que já sei tudo, acontece alguma coisa que me faz ver que ainda tenho muito o que aprender. Tudo influencia. O clima, a idade das vinhas, a quantidade de chuvas, de ventos. Nenhum ano é igual ao outro.


AL: Por que o Sr não produz mais vinhos brancos?
RB: Eu fazia, até o ano 2000, um chardonnay, fermentado em barrica, a moda da Borgonha, com grande capacidade de envelhecimento. Eram ótimos, mas não eram para o consumo rápido, como os consumidores estavam acostumados e o mercado não entendeu estes vinhos. Até o Robert Parker, que costuma gostar do que eu faço, caiu de pau em cima do vinho. Então, resolvi parar de fazê-lo. Mas, o engraçado é que, quando o Parker veio visitar a minha vinícola, abri pra ele uma garrafa de um destes chardonnays, já mais evoluídos. Quando o Parker provou, virou pra mim e disse ‘acho que eu estava errado’. Eu falei pra ele que, depois de ele me ferrar o mercado com notas péssimas praquele vinho, agora era tarde.


AL: E o Sr não pensa em voltar a produzir o chardonnay novamente?
RB: Nem pensar. Eu teria que começar a colheita quatro semanas antes, daria muito trabalho. Agora, quando quero um bom branco, fico na Borgonha e bebo uma garrafa de um corton-charlemagne ou de um montrachet mesmo.


AL: O Sr disse que críticas ruim de Robert Parker arruinaram o seu chardonnay. Como é a sua relação com os críticos de vinhos da Austrália?
RB: Acho que Deus faria um favor à Humanidade se todos os críticos de vinho australianos amanhecessem mortos. Eles não sabem nada.

sábado, 7 de agosto de 2010

Chantagem e morte na Borgonha

por Alexandre Lalas

A Domaine da La Romanée-Conti (DRC) é uma das vinícolas de maior prestígio no mundo. A empresa produz apenas quatro mil garrafas por ano. Os vinhos da empresa são disputados por endinheirados colecionadores e cultuados por enófilos do mundo inteiro. São sinônimo de elegância, qualidade e bom viver. Tal status desperta admiração de muitos, inveja de alguns e ganância de outros. Eis que em janeiro deste ano, Aubert de Villaine, o dono da Romanée-Conti, começou a receber cartas anônimas e ameaçadoras. O missivista exigia o pagamento de 1 milhão de euros (R$ 2,3 milhões) para não envenenar as vinhas da vinícola.

Em princípio, Aubert não deu muita importância ao fato. Até que o autor das cartas resolveu jogar mais pesado. Primeiro, mandou uma planta detalhada da localização dos vinhedos da domaine, com algumas vinhas específicas marcadas. E quando duas vinhas foram encontradas com as raízes afetadas por uma substância química, a polícia foi acionada.

Uma operação foi montada para a captura do chantageador. Diretores da DRC deixaram um pacote com notas falsas no lugar indicado pelo bandido. A polícia monitorava o local, e quando o larápio apareceu para pegar o dinheiro, foi preso em flagrante. Depois descobriu-se que o mesmo sujeito já havia tentado aplicar o golpe em outra vinícola da Borgonha, a Domaine de Vogue, que fica nas cercanias de Chambolle-Musigny.

Na ocasião, as autoridades francesas acharam por bem não revelar o nome do chantageador. Apenas nesta semana, o mistério foi desfeito. E o motivo da revelação foi uma tragédia. Jacques Soltys, de 57 anos, o acusado de tentar extorquir a DRC, foi encontrado morto na cela da prisão onde estava, em Dijon, na França. Segundo os carcereiros que encontraram o corpo, Soltys teria se enforcado.

O filho de Soltys, acusado de cumplicidade nos dois golpes, segue preso, aguardando julgamento, com a identidade resguardada. Ao ser informado da morte do sujeito que o tentou extorquir, Aubert de Villaine preferiu não comentar o fato. Apenas lamentou a morte de Soltys.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Na própria carne

por Alexandre Lalas

Bordeaux, na França, é uma das mais conhecidas e respeitadas regiões de vinho no mundo. Os vinhos tops de lá são vendidos a preços cada vez mais estratosféricos e são tidos e havidos como o que de melhor e de mais valioso existe sobre a bebida. Tanto que os principais châteaus passaram incólumes pela recessão econômica que assolou meio mundo. Mas estes são os tops, os primos ricos da região. Existe uma imensa maioria de produtores em Bordeaux, que produzem vinhos de custo bem mais baixo, e que de um tempo pra cá não sabem mais o que fazer para venderem os seus vinhos. Para esta gente, uma indústria que emprega cerca de 50 mil pessoas, a coisa está feia. E cortar na própria carne parece ser a única solução possível.



Na semana passada, os líderes do Conselho Vitivinícola de Bordeaux (CIVB) uma nova e ambiciosa estratégia para resolver o problema. O nome do plano é sintomático: Bordeaux Amanhã: a Reconquista. Otimistas, esperam, até 2018, aumentar a receita anual da indústria da região em 28%, chegando a 4,6 bilhões de euros (R$ 10,5 bilhões). Mas o sucesso da estratégia não está baseado apenas em operações agressivas de marketing, mas também na eliminação da produção de 110 milhões de litros, ou 12 milhões de caixas de vinho de baixa qualidade que são produzidos todos os anos em Bordeaux.



O problema da região não vem de hoje. De 2003 a 2007, apenas em exportações, Bordeaux deixou de vender cerca de 43 milhões de garrafas de vinho, o equivalente a 293 milhões de euros (R$ 674 milhões). Isso, antes mesmo de a crise econômica estourar. Para piorar a situação, mesmo no mercado interno a região perde prestígio a cada ano. O reflexo: queda nas vendas. E mesmo o fluxo de turistas nas cidades bordalesas só faz diminuir.



Para reverter este quadro, a aposta é subir a qualidade dos vinhos de baixo custo e investir em rótulos de fácil compreensão por parte dos consumidores. Tudo, claro, ancorado por uma campanha internacional de marketing. Pelas contas do CIVB, cerca de um terço dos produtores dos vinhos mais básicos de Bordeaux, que são vendidos aos atacadistas por menos de dois euros a garrafa, têm capacidade para melhorar a qualidade dos vinhos que fazem. Outro terço dos produtores de vinhos básicos, acreditam os diretores do Conselho, poderiam seguir fazendo brancos e rosados de baixo custo. E o outro terço das vinhas da região, de acordo com o CIVB deverão ser arrancadas. O fato riscaria do mapa 7% da área plantada e causaria uma diminuição de 26% do número de produtores da região. Bordeaux tem hoje, aproximadamente, nove mil produtores.



Não é a primeira vez que Bordeaux aposta em uma medida drástica como essa. Há alguns anos, uma tentativa de arrancar 10 mil hectares de vinha falhou feio. Na ocasião, a maioria esmagadora dos produtores recusou a proposta de 15 mil euros por hectare de vinha arrancada. Mas com o cenário ainda mais aterrador depois da recessão global, muitos produtores estão com a corda no pescoço. O que pode facilitar as coisas para a CIVB.



Outra forma de convencimento será o aumento das inspeções nos vinhedos e vinícolas para detectarem se os produtores estão seguindo as regras de qualidade estabelecidas pelo Conselho. Os que não estiverem dentro dos padrões exigidos, não terão direito a rotular os vinhos com o nome Bordeaux, o que seria ainda mais desastroso para estes produtores. Portanto, diante de tantas dificuldades, o pessoal da CIVB crê que ganhar dinheiro para arrancar vinhas pode até vir a ser mais lucrativo.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A volta ao mundo da Decanter

por Alexandre Lalas

Todo bom enófilo adora uma feira de vinhos. Pudera. É a oportunidade de provar uma infinidade de rótulos, de inúmeros produtores, de variadas regiões, estilos e preços. É uma alegria só. Em junho, a importadora Mistral promoveu o encontro anual dos produtores que fazem parte do catálogo da empresa. Foi um baita evento. Em agosto será a vez de outra importadora fazer o show. A caravana da Decanter vai passar por quatro cidades brasileiras. No Rio, a festa vai rolar no dia 2 de agosto, no Sofitel, na praia de Copacabana. A entrada custa R$ 180 e está a venda na loja Espírito do Vinho (2286-8838), na Cobal do Humaitá. Quem quiser ir é bom garantir logo o ingresso. As vagas são limitadas.

Esta será a terceira edição da feira da Decanter. Neste ano, 70 produtores de 12 países estarão apresentando centenas de rótulos. Muitos deles, novidades no mercado nacional. Para facilitar a vida dos leitores, a coluna preparou um pequeno guia com o que de melhor há para provar no evento.


Viña Alicia: Vinícola argentina de butique, produz vinhos superlativos, raros e sempre muito bem pontuados. Não deixe de provar o Brote Negro, um malbec de qualidade excepcional, e o Cuarzo, feito a base de petit de verdot e um dos grandes vinhos do país. Outra dica: vale a pena passar um tempo conversando com a proprietária da bodega, Dona Alicia Arizu. É sempre uma aula, de vinho e de vida.

Riglos: Outra vinícola argentina que impressiona pela qualidade. O sócio da empresa, Fabián Suffern, vai estar atrás do balcão conversando com os convidados. Entre os vinhos da Riglos, destaque para o Gran Corte.

El Principal: Vinícola chilena do Alto Maipo, produz vinhos de qualidade em todos os níveis de preço. Entre os tops, destaque para o El Principal, corte de cabernet-sauvignon e carmenère.


Villard: Um sauvignon blanc e um syrah são os destaques desta pequena vinícola chilena. O Expresíon é um dos bons vinhos feitos com a sauvignon blanc no país. Já o Tanagra é um syrah de grande qualidade, feito no frio vale de Casablanca. Um dos melhores produzidos com a cepa no Chile.

Bouza: Dois vinhos desta pequena bodega uruguaia chamam a atenção: um curioso albariño e um raro corte de tannat, merlot e tempranillo, o Monte Vide Eu.

Alain Brumont: Um dos mais importantes produtores do Madiran, no sudoeste francês, Brumont é uma das estrelas da feira. Vinhos sempre muito bem feitos, desde o bom e barato corte de gros manseng e sauvignon ao caro e raro Montus La Tyre. Tudo é bom. Imperdível: o Brumaire Pacherenc Du Vic Bilh Doux, branco doce espetacular.

Domaine Pierre Labet: François Labet é o proprietário da Domaine e também do Château de La Tour (não confundir com o Latour de Bordeaux), ambos da Borgonha. Excelente papo, grande figura e produtor de vinhos de primeira linha. O Clos Vougeot feito por ele é uma obra-prima. E mesmo os borgonhas genéricos estão furos acima da maioria dos pares. Visita indispensável e prove toda a linha.

Pio Cesare: Produtor italiano, do Piemonte. Vinhos grandiosos e caros. Mais um daqueles em que vale a pena provar a linha inteira. Mas, se não houver tempo para tanto, não perca o Piodilei, chardonnay vigoroso; e os barolos da casa.

San Fabiano Calcinaia: Guido Serio, torcedor fanático da Fiorentina, deve estar um tanto aborrecido com o fracasso da Azzurra na Copa. Portanto, vamos dividir nossas mágoas com o futebol brindando com um dos bons vinhos desta cantina da Toscana. Destaque para o Cerviolo.


Tommaso Bussola: Italiano do Vêneto, faz amarones como poucos. O Vigneto Alto é um dos melhores vinhos da Bota que tive o prazer de provar.

Pieropan: Outro do Vêneto. Aqui, os destaques são os brancos. Em especial, o La Rocca. Vale a passada.


Domingos Alves de Sousa: Papo de primeira, vinhos idem. Português estabelecido no Douro, faz vinhos de tudo quanto é tipo, para todos os gostos e bolsos. Vale fazer o passeio completo, até para descobrir do quanto Seu Domingos é capaz.


Anselmo Mendes: Português do Minho, um dos papas da alvarinho. O Muros de Melgaço é um absurdo de bom.


Quinta dos Roques e Quinta das Maias: Vinícolas irmãs do Dão, com muitos rótulos de qualidade. Destaque para o Roques Encruzado e para o Maias Jaen.

Dona Maria: Júlio Bastos é um dos craques do Alentejo. Durante muito tempo foi o dono da Quinta do Carmo. Quando vendeu a propriedade, manteve em seu poder as vinhas mais antigas. E é delas que saem as uvas para o Dona Maria. Novidade da Decanter, é imperdível.

Arzuaga: Na Ribera del Duero, Ignacio Arzuaga produz algumas joias da Espanha. Outro estande em que a vale a pena provar de tudo. Se a pressa imperar, não perca o Gran Arzuaga.

Frank Künstler: Bodega alemã do Rheingau, super premiada mundo afora. Uma bela amostra da capacidade que a riesling tem de gerar grandes vinhos. O Erstes Gewächs é extraordinário.

Pendits: Para terminar com chave de ouro a visita à feira, é indispensável passar no estande desta vinícola húngara e provar o magnífico Tokaji Aszú 6 Puttonyos. Simplesmente, um dos grandes vinhos brancos doces do mundo.

Decanter Wine Show
Ingresso: R$ 180
Rio de Janeiro - 2 de agosto, Sofitel
São Paulo - 3 e 4 d agosto, Grand Hyatt
Belo Horizonte - 5 de agosto, Buffet Catharina
Florianópolis - 6 de agosto, Majestic Plaza 
www.decanter.com.br

sexta-feira, 9 de julho de 2010

De portas abertas

por Alexandre Lalas

Era uma vez um país. Nasceu como reino em 1929 e foi esfacelada por diversas ocupações em 1941 para renascer como república em 1945. Era a Iugoslávia. Comandada por Josip Broz Tito, o idolatrado Marechal Tito, de 1945 a 1953 como primeiro-ministro e de 1953 até a morte, em 1980, como presidente. Tito foi capaz de manter unida uma região famosa pelo histórico de conflitos. Durante o período em que o Marechal deu as cartas, dizia-se que a Iugoslávia era um país formado por seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um partido. Embora fosse socialista, mantinha independência da poderosa União Soviética. Mas Tito morreu em 1980 e a frágil união que mantinha a Iugoslávia de pé começou a ruir. Até que em 1991 o país desintegrou-se de vez. Eslovênia e Croácia foram as primeiras repúblicas a proclamarem independência. Depois veio a Macedônia. Em seguida a Bósnia-Herzegovina. E, na sequência, veio a guerra.

Naquela altura, a indústria vinícola da Iugoslávia era forte. E o país era um dos maiores exportadores do mundo de vinho por atacado. Exuberante em quantidade, não era famosa exatamente pela qualidade. Mas a tradição de vinhos sobreviveu a anos de guerra e à divisão do país. E, depois de uma longa visita ao fundo do poço, vinícolas de repúblicas que faziam parte da antiga Iugoslávia já chamam a atenção da Europa e do mundo para o que é feito ali. E, melhor ainda, desta vez é pela qualidade da bebida. E não pelo volume de litros.

Das ex-repúblicas iugoslavas, três se destacam na produção de vinhos: Croácia, Eslovênia e Macedônia. E com uma produção voltada majoritariamente para a qualidade, a Eslovênia é que produz os vinhos mais interessantes. Situada entre os Alpes e o Adriático, o país tem três regiões produtoras: Podravje, Posavje, e Primorje. A produção anual varia entre 800 mil e 900 mil hectolitros, esparramados em 21.600 hectares. Ou seja, em uma área quase duas vezes maior, a Eslovênia faz cerca de metade da quantidade do vinho que é produzido em Bordeaux, na França.

Podravje é a maior das regiões vinícolas eslovenas e conhecida especialmente pelos ótimos vinhos de sobremesa que produz e por brancos de altíssima qualidade. Fica entre as fronteiras com Áustria e Hungria e é dividida em seis áreas: Maribor, Radgona-Kapela, Srednje Slovenske Gorice, Haloze, Ljutomer-Ormoz, e Prekmurske Gorice. De influência mais francesa, e focada em vinhos de corte, especialmente brancos, Posavje é famosa pela imensa variedade de solos. Apenas em Bela Krajina, uma das quatro sub-regiões de Posavje, existem 22 tipo de solo. Região fronteiriça com a Itália e que mais sofre a influência mediterrânea, Primorje produz vinhos minerais, de média acidez e ricos em aromas. Embora seja a única região que produza tintos e brancos na mesma quantidade, são os brancos mesmo é que se destacam no cenário internacional.

Embora ainda esteja relativamente atrasado em comparação aos eslovenos, o vinho croata não para de crescer. E conta até com uma estrela mundial. Mike Grgich é um dos grandes enólogos do mundo. Em 1973, quando morava nos Estados Unidos, Mike foi o enólogo responsável pela produção do Château Montelena Chardonnay, que, três anos mais tarde, seria eleito o melhor vinho branco em uma prova às cegas realizada na França, entre vinhos franceses e americanos, no que ficaria conhecido mundialmente como O Julgamento de Paris. Na Croácia, Mike produz vinhos de altíssima qualidade. E é um estudioso da plavac mali, casta autóctone croata, prima-irmã da zinfandel.


A Croácia é divida em duas regiões principais, a costeira e a interiorana. Cada uma delas é subdivida em diversos pequenos distritos. Ao todo, a Croácia tem cerca de 300 áreas definidas para a produção de vinhos. No interior, os brancos são a maioria absoluta. A casta mais plantada é a graševina, que gera vinhos leves, de acidez elevada e mediamente aromáticos. No litoral, a imensa quantidade de ilhas e colinas criam uma infinidade de microclimas. Variedades bordalesas como cabernet-sauvignon e merlot são as mais plantadas junto com uvas autóctones como a plavac mali.

Embora ainda esteja um degrau abaixo do que fazem eslovenos e croatas, os vinhos da Macedônia não deixam de ser interessantes. O país tem três regiões produtoras: Povardarie, no centro do país; Pchinya – Osogovo, ao leste; e Pelagonia – Polog, a oeste. A maior é mais importante é Povardarie, que concentra 85% da produção do país. Entre os vinhos macedônios, vale a pena conhecer os feitos com a vranec, uva tinta típica de lá, que gera vinhos ricos em aromas, de boa estrutura e de grande carga tânica. Outra uva local interessante é a branca zilavka, que gera vinhos pouco aromáticos, mas cheios de volume e estrutura na boca.

Por enquanto, ainda não existem vinhos de nenhuma das ex-repúblicas iugoslavas no Brasil. Mas, em feiras realizadas na Europa, alguns importadores provaram coisas interessantes destes países e novidades podem em breve chegar ao nosso mercado. Estaremos esperando com as portas abertas.

Vinho da semana:
Piodilei Chardonnay Langhe 2007
Piemonte, Itália
De um pequeno vinhedo em Barbaresco vem as uvas, colhidas sempre bem maduras, para este vinho, um dos grandes brancos italianos. Intenso e rico no nariz, com notas de pêssego, abacaxi, especiarias e amêndoas. Na boca, tem boa estrutura, é macio, fresco e persistente.
Nota: 9
Preço: R$ 227,10
Onde: Decanter (2286-8838)

Barato bom:
Birilo 2005
Toscana, Itália
A Grand Cru vai parar de importar este vinho, leve, fresco e saboroso corte de cabernet-sauvignon, merlot e sangiovese. Por este motivo, as garrafas que ainda existem na loja estão em promoção, com os preços quase pela metade. Corra, antes que acabe.
Nota: 8
Preço: R$ 39
Onde: Grand Cru (2511-7045)

sábado, 3 de julho de 2010

Respirar é preciso

por Alexandre Lalas

Muitas vezes quando abrimos uma garrafa de vinho, a bebida está quase sem aromas. No jargão dos enófilos, dizemos que o vinho está fechado. Nestes casos, recomenda-se colocar o líquido em um decanter para que o contato com o oxigênio liberte os aromas da bebida. Dizemos, então, que o vinho está abrindo. Dependendo do rótulo, leva tempo para que o vinho abra. Com a promessa de diminuir esta espera, surgiram os aeradores.

De um tempo para cá, o mercado de vinho tem sido invadido por estes produtos. Duas versões já estão disponíveis nas lojas e sites de vinho, outro está a caminho e ainda há um aerador francês que promete transformar qualquer vinho jovem em um ancião centenário em questão de segundos.

Para entender alguns destes produtos, a Confraria dos Nove se reuniu, na semana passada, para avaliar alguns dos aeradores disponíveis no mercado. O mesmo vinho foi provado, às cegas, em seis diferentes versões: passando pelo Vinturi, pelo The Wine Finer, pelo Oxyger De Vin, usando a Clef du Vin, um decanter normal e abrindo a garrafa sem aerar.

Participaram da degustação, além do colunista, a sommelière Cecilia Aldaz, do Eñe; o chef Danio Braga, da Loccanda; Paulo Nicolay, vice-presidente da SBAV-RJ; Ricardo Farias, diretor da ABS-RJ; a crítica de gastronomia Luciana Plaas e o empresário Duda Zagari, da Confraria Carioca, loja que cedeu os vinhos para a prova. A degustação foi realizada no Lorenzo Bistrô, no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio de Janeiro e o serviço foi conduzido com eficiência pelo dublê de garçom e sommelier Radamés Chinemann.

O teste foi feito primeiro com o espanhol Petit Grealo 2004, vinho espanhol sem passagem em madeira. A mesma prova foi repetida em seguida com o também espanhol Pujanza 2005, que tem estágio de 18 meses de barricas de carvalho. Foram conferidas notas de zero a dez para cada uma das versões dos dois vinhos. Só que mais importante do que estabelecer um vencedor da degustação foi avaliar o comportamento de cada aerador com os diferentes vinhos. E, finda a degustação, a principal conclusão foi de que ainda é preciso estudar, e muito, o assunto.

Abaixo, o desempenho de cada um dos aeradores nas duas provas:

Clef du Vin: produto francês, desenvolvido pelo sommelier Franck Thomas e pelo químico Lorenzo Zanon. É uma espécie de chave, com uma liga de metal, que promete “envelhecer” o vinho através de uma rápida oxigenação, promovida por reação química aos tais metais. Segundo o fabricante, cada segundo da chave em contato com o vinho, em dose de 10 cl, equivale a um ano de envelhecimento. Na prova, a chave ficou dois segundos em contato com o líquido.

No vinho sem passagem por madeira, o desempenho da Clef du Vin foi sofrível e obteve a pior nota para os degustadores. Já quando foi usada no vinho com envelhecimento em barricas de carvalho, a geringonça teve um resultado melhor: foi a que obteve a maior nota dos provadores. Ou seja, para vinhos sem madeira, não vale a pena usar o acessório. Não disponível no Brasil, custa US$ 129 no site www.vinetpassion.com.

Oxyger De Vin e Vinturi: Ambos funcionam seguindo o mesmo princípio: o aumento da velocidade de um fluido em movimento provoca a diminuição de sua pressão. Ambas as peças têm dois pequenos furos laterais, que sugam o ar para dentro do aerador e aumenta a oxigenação do vinho. Na prova, o americano Vinturi saiu-se um pouco melhor do que o brasileiro Oxyger de Vin, em ambos os vinhos. Porém, as médias dos dois produtos foram muito próximas. E, em ambos os casos, os vinhos ficaram melhor do que fossem servidos diretamente da garrafa para a taça. O Vinturi está a caminho do Brasil e custará cerca de R$ 120. Já o Oxiger de Vin é vendido no site Artesanato do Vinho (www.artesanatodovinho.com.br) e custa R$ 100.

The Wine Finer: Desenvolvido pelo designer dinamarquês Marcus Vagnby, funciona além de aerador, como filtrador e corta-gotas. Telas muito finas de aço inoxidável filtram a bebida que passa por 32 micro aeradores na hora em que o vinho é servido. Na prova, o Wine Finer saiu-se bem melhor com o vinho barricado, quando obteve a segunda maior nota. Na bebida sem passagem em madeira, em compensação, o Wine Finer ganhou apenas da Clef de Vin. Custa R$ 199 e é vendido na Spicy, e nos sites do Ponto Frio e do Extra.

Vale lembrar que o bom e velho decanter, cujos aeradores prometem aposentar, saiu-se muito bem com os dois vinhos.

sábado, 26 de junho de 2010

O cara

por Alexandre Lalas

Muita gente costuma dizer que o Dão é a Borgonha de Portugal. A comparação, embora um tanto exagerada, existe por conta da elegância comum aos bons rótulos das duas regiões. E também por conta do preço, relativamente alto se comparado ao de outros lugares produtores de vinho. Mas, se considerarmos de fato que o Dão é uma espécie de Borgonha de Portugal, então Álvaro Castro, dono e enólogo da Quinta da Pellada é a versão lusa de Aubert de Villaine, o responsável pelos míticos vinhos da Domaine de La Romanée-Conti.

É Álvaro Castro o principal produtor do Dão. Lá, ele é "O cara"! Em uma região cheia de potencial, mas marcada pela irregularidade do que é produzido, os vinhos da Quinta da Pellada são sinônimos de alta qualidade. Desde a linha mais em conta, com bebidas mais simples e acessíveis, aos rótulos mais caros, tudo é bom, acima da média.

A vinícola nasceu em 1980, quando o Álvaro herdou a propriedade e decidiu retomar a tradição da família em produzir vinhos, quebrada havia duas gerações. Na vinha, cuidado minucioso com as plantas. Na cantina, modernas técnicas de vinificação aliadas a métodos ancestrais. Esta é a filosofia de Álvaro, que lançou o primeiro vinho em 1989. Desde então, não parou mais.

Em recente visita ao Rio de Janeiro, Álvaro apresentou os vinhos que faz, de diferentes estilos, para distintas ocasiões. Abaixo, uma breve análise de cada um dos rótulos. Todos os vinhos de Álvaro Castro são importados pela Mistral (3534-0044)

Primus 2009
Dão, Portugal
Branco produzido com vinhas velhas de encruzado, bical, cercial, terrantez e verdelho; de média intensidade aromática, com notas de frutas secas, com ligeiro tostado; na boca tem volume, frescor, bom corpo, um toque cítrico, muito equilíbrio e um final longo.
Nota: 9
Preço: N/D no Brasil

Quinta de Saes Reserva Branco 2005

Dão, Portugal
Branco de cinco anos de idade e ainda em plena forma, este vinho é um exemplo clássico da capacidade do Dão de gerar grandes vinhos e da competência de Álvaro Castro em produzi-los. Delicado no nariz, elegante na boca, com bom volume, médio corpo, acidez perfeita, fruta e persistência.
Nota: 9
Preço: N/D no Brasil

Saes 2008
Dão, Portugal
Tinto de entrada de gama, fácil de beber e de gostar. No nariz, fruta. Na boca, é leve, frutado, fresco, com a elegância de sempre, marca registrada dos vinhos de Álvaro Castro.
Nota: 8
Preço: US$ 27,66

Quinta de Saes 2007
Dão, Portugal
Muita fruta fresca, com um toque floral no nariz. Na boca, é vivo, leve, fresco, bem equilibrado, bem frutado e com um final de média persistência.
Nota: 8
Preço: US$ 40,24


Quinta de Saes Estágio Prolongado 2007
Dão, Portugal
Tinto feito com vinhas velhas de touriga-nacional e tinta roriz; nariz de intensidade média, com notas de violeta, fruta madura, especiarias e um leve tostado. Na boca, tem bom corpo, volume, taninos finos, acidez correta e final longo.
Nota: 8,5
Preço: US$ 60,36


Quinta da Pellada 2007
Dão, Portugal
Corte de touriga-nacional e tinta roriz, vindas de vinhas velhas. Elegante no nariz, com notas de violeta e frutas vermelhas maduras. Na boca, encorpado, volumoso, fino, com acidez perfeita e final longo.
Nota: 9
Preço: US$ 125,34

Pape 2006
De vinhas de duas quintas (passarela e pellada) sai este tinto, corte de baga e touriga-nacional. No nariz, violeta e fruta fresca, aliada a um toque balsâmico e com evolução para chocolate amargo. Na boca, encorpado, vigoroso, com taninos finos, acidez bem marcada e um final longo e fresco.
Nota: 9
Preço: US$ 118,86

Carrocel 2007
Dão, Portugal
Feito exclusivamente com a touriga-nacional; elegante no nariz, repleto de notas florais, em especial, a violeta, e com cereja e amora. Na boca, tem bom corpo, taninos macios, leveza, acidez perfeita, vivacidade e um final longo e intenso.
Nota: 9,5
Preço: US$ 184,54


Quinta da Pellada Touriga Nacional 2004
Dão, Portugal
Este é um dos grandes tintos portugueses, de nariz intenso, com aromas de violeta, rosa, fruta vermelha e notas de baunilha e tostado. Na boca, delicado, macio, fino, envolvente, redondo, vivo, longo, com leve sensação de doçura no longo final.
Nota: 9,5
Preço: US$ 125,34

Doda 2005
Dão e Douro
Este vinho chamava-se Dado. É uma junção de Dão e Douro, regiões de onde vêm as uvas. Mas problemas com o registro da marca fizeram com que o nome mudasse para Doda. Pouco importa. O que interessa aqui é que a parceria de Álvaro Castro, da Quinta da Pellada, no Dão, com Dirk Van Der Niepoort, da Niepoort, no Douro, funciona que é uma maravilha. No nariz, violeta e frutas vermelhas frescas. Na boca, impressiona pela estrutura e pela elegância, com taninos macios, fruta, vivacidade e um final enorme e longo.
Nota: 9,5
Preço: US$ 113,31

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Do inferno ao inverno

por Alexandre Lalas

Oficialmente, o inverno começou apenas hoje, dia 21. Mas, na prática, o frio já chegou há tempos. Depois de um verão escaldante, quando a Cidade Maravilhosa mais parecia uma sucursal do inferno, os cariocas experimentam o alívio de um friozinho civilizado. E, já que na Copa do Mundo a única coisa a esquentar até agora foi o técnico Dunga, melhor deixar o futebol de lado e apostar em tintos encorpados e vinhos fortificados.

E não faltam opções de bons vinhos para todos os gostos e bolsos. Desde malbecs argentinos que esbanjam potência e concentração a delicados vinhos de porto, há de tudo. E, para ajudar na hora de escolher o rótulo certo para a ocasião, nada melhor do que uma boa listinha, com dez vinhos que perfeitos para aquecer o inverno de qualquer enófilo.

Kaiken Malbec 2008
Mendoza, Argentina
Poucos vinhos são tão bons e tão baratos quanto este malbec feito por esta vinícola, de propriedade da chilena Viña Montes. Violeta muito marcada no nariz, alia vigor e frescor. Combina com um bom ojo de bife.
Nota: 8
Preço: US$ 18,50
Onde: Vinci (2236-5390)


Château la Villatade Cuvée Sanguine 2008
Minervois, França
Este é mais um bom syrah que vem do Languedoc. Nariz de intensidade média, com aromas de frutas vermelhas e um toque de ervas frescas. Na boca, tem médio corpo, taninos presentes, boa presença e um final médio com pequeno amargor.
Nota: 8
Preço: R$ 48
Onde: La Cave Jadot (11 2478-2001)


Bridgewater Mill Shiraz Viognier 2005
Adelaide Hills, Austrália
Corte de shiraz com viognier, feito por esta vinícola que faz parte da Petaluma. Nariz expressivo, com notas de amora, um toque floral e um fundo de baunilha. Na boca, macio, de médio corpo, fresco, fácil, com final longo e agradável.
Nota: 9
Preço: R$ 87
Onde: Wine Society (2286-3873)

Blog 2006
Alentejo, Portugal
Tiago Cabaço produz em Estremoz, no Alentejo, este belo corte de alicante bouschet, syrah touriga-nacional. No nariz, é intenso e vigoroso, com fruta bem madura e especiarias. Na boca, é carnoso, denso, grande, com uma acidez generosa e um final longo e intenso.
Nota: 9
R$ 133
Onde: Adega Alentejana (2286-8838)

Domaine Baud Macvin do Jura
Jura, França
Vinho fortificado com aguardente vínica, produzido com a uva savagnin na região de Jura, na França. Rico em aromas, com notas de tangerina, damasco, casca de laranja, maçã, noz e mel. Na boca, combina bem açúcar e acidez, é untuoso e com um final largo. Vai bem com melão, creme de papaia, tarte tatin ou mesmo como aperitivo. Sirva bem gelado.
Nota: 8,5
Preço: R$ 148
Onde: Le Tire Bouchon (11 3822-0515)


Dona Maria Reserva 2005
Alentejo, Portugal
Júlio Bastos foi durante muito tempo o proprietário da Quinta do Carmo. Depois que vendeu a marca, manteve parte das vinhas e montou outra vinícola. Este Reserva é um corte de alicante bouschet, petit verdot e syrah, fermentado em lagares de mármore e com estágio em barricas de carvalho. Rico, intenso e limpo no nariz, com notas de frutas vermelhas frescas, um toque de menta, canela e chocolate. Na boca, é volumoso, macio, equilibrado e longo.
Nota: 9
R$ 155
Onde: Decanter (2286-8838)


Palácio da Bacalhôa 2005
Setúbal, Portugal
Rico e intenso no nariz, com notas de compota, frutas secas, chocolate e café. Na boca, é concentrado, estruturado, com boa acidez e um final largo. Vai muito bem com pratos de carne vermelhas e caça. Ainda jovem, merece ser decantado por uma hora.
Nota: 9
Preço: R$ 189
Onde: Bacalhôa Vinhos (2532-0957)


Roquette e Cazes 2006
Douro, Portugal
Intenso, persistente, rico e limpo no nariz, com notas de frutas vermelhas frescas muito bem combinadas com leves notas de tostado e chocolate amargo. Na boca, tem ótima estrutura, taninos macios, é elegante, harmônico, e com um final longo e frutado. Combina com lombo de porco, confit de pato, e outros pratos a base de carne. E também pode ser degustado solo, como um vinho de meditação. Decante por uma hora antes de servir.
Nota: 9,5
Preço: R$ 220
Onde: Qualimpor (2256-0858)


Domaine Roux Chambolle Musigny Les Charmes 1er Cru 2006
Borgonha, França
Clássico francês, este é um tinto espetacular. Delicadeza e elegância são as palavras-chave deste líquido, que representa, com louvor, uma das melhores áreas da Borgonha. Para muitos, um vinho feminino. Combina com magret de pato e coelho. Precisa ser decantado por uma hora, pelo menos.
Nota: 9,5
Preço: R$ 450
Onde: Zahil (3860-1701)


Paul Hobbs Cabernet Sauvignon Stagecoach Vineyard 2005
Califórnia, Estados Unidos
Poderoso no nariz, tem tudo o que um cabernet-sauvignon precisa ter: aromas de cassis, cereja preta, amora, chocolate, grafite. Na boca, corresponde às expectativas: musculoso, saboroso, com taninos redondos, muita fruta e uma acidez perfeita. Longo até dizer chega, pede carne. Ainda um bebê, precisa ser decantado por, no mínimo, uma hora.
Nota: 9,5
Preço: US$ 460,65
Onde: Mistral (3534-0044)