sexta-feira, 30 de julho de 2010

Pequenas porções, grandes prazeres

por Luciana Plaas

Como nasce um restaurante? Não existe uma fórmula exata cada um tem uma história. A que eu vou contar é, no mínimo, engraçada. Três sócios que já tinham um restaurante, que dava bons frutos. A chef estava inquieta querendo um segundo restaurante com uma proposta diferente do primeiro. A outra sócia estava grávida e só queria parir e amamentar tranquilamente. E o sócio fazia as contas e achava que as duas poderiam alcançar seus objetivos. Tentando buscar uma solução para inquietude da chef, os outros sócios disseram para ela tirar férias. Quando ela voltou, sabia exatamente o que queria. Um restaurante que servisse pequenas porções. Logo encontraram um casarão em Botafogo. O ex dono dizia que bastava jogar uma água que estaria tudo certo. Obviamente não era bem assim. A tal casa estava caindo aos pedaços. Uma boa reforma depois, nasceu o Oui Oui, irmão mais novo do Miam Miam. Na inauguração a sócia grávida estava com um barrigão que batia na parede, a chef com sorriso no rosto e sócio continuava fazendo as contas. Hoje o restaurante tem um ano. Já sabe ao que veio. A filha da sócia ainda não.

Quando fui a primeira vez ao restaurante, logo que abriu, pensei que seria um desses lugares super descolados que só vai gente jovem. Hoje vejo que estava errada. É um restaurante de bairro. Continua sendo descolado, mas vai gente de todas as idades.

Essa semana voltei ao Oui Oui. Comi de me fartar. Éramos quatro na mesa. Começamos com brulé de grana padano (R$ 22,50), que vinha com um pãozinho, que é receita da avó da chef. Realmente tem coisas que correm na família. Que pão gostoso, receita de vó mesmo! O grana padano fica muito legal e é divertido comido assim. Depois comi a truta grelhada coberta de alho-poró e amêndoas (R$ 26,80), me desanimei, porque tinha comido o peixe no dia anterior. Mas esta truta estava bem melhor do que a do dia anterior, cheia de sabor e no ponto certo.

Em seguida, cogumelos frescos marinados no limão siciliano (R$ 17,60). Tenho um problema com limão siciliano. Acho que ele rouba bastante o gosto da comida. Mas tenho certeza que esse prato é o preferido de muita gente. Depois provei os camarões e pupunha gratinados com zabaione (R$ 29,80). Esse prato poderia comer inteiro e sozinha. Fiquei intrigada por que a Roberta Ciasca brinca tanto com a textura de sobremesas tradicionais em forma de pratos salgados? A resposta dada pela Danni, a outra sócia do Oui, é que ela não gosta de fazer doces então faz pratos salgados baseados nas sobremesas. Gostei a brincadeira.

Estávamos prontos para a segunda rodada de pratinhos. O vol au vent de rabada com mascarpone (R$ 26,80) estava gostoso, a porção no tamanho certo para não dar tempo de enjoar. O crostini de cordeiro, tomates assados e pesto de coentro (R$ 28,30) me levou lá pro Marrocos. A carne com os tomates e o pesto coentro deram um balangandã ao prato. Já o risoto de legumes com mascarpone e pesto de ervas (R$ 17,90) não me encantou tanto, apesar de tudo estar correto.

Provamos ainda o mignon em marinada de capim limão (R$ 22,10). Ficou macio e com gosto de capim limão mesmo. Comemos também uma frigideira de batatinhas com bacon (R$ 16,50). As batatas são cortadas no mesmo tamanho do bacon e ficam com uma textura parecida depois de fritos. Crocantes até a última mordida. Até a vegetariana da mesa aprovou. Por falar nela, ela ganhou uma salada de quinoa com cogumelos frescos, legumes crocantes e azeite trufado (R$ 22,50). Fiquei com vergonha, mas não conseguia parar de comer a salada da coitada. Foi a primeira vez que comi algo com azeite trufado que não me incomodou. Devo concluir que o fato de não ser quente contribuiu bastante. Estava fresco, com a vagem crocante, junto com a cenoura ralada.

Terceira e última rodada: palitos de doce de leite com coco e creme inglês (R$ 16,80), cálices de tapioca com manga e coulis de frutas amarelas (R$ 15,90), e beignets de banana com papaya e creme de maracujá (R$ 14,80). Como a Roberta não curte fazer sobremesas, convidaram a chef pâtissier Ana Rosa Ippoliti, que é argentina para resolver esse problema. E ficou tudo certo. Como já haviam pedido os palitos, optei pelo cálice de tapioca, sem nenhuma expectativa. E como foi bom quebrar a cara. O maracujá com a manga e a tapioca, combinaram com tanta delicadeza que até parecia que já eram íntimos. Os palitos são gostosos, um clássico adorado por todos. Mas eu não sou muito fã de doce de leite com coco. Em compensação, estava difícil para de comer os beignets de banana. Estava tudo tão bom, que fiquei feliz por ninguém ter tido a infame ideia de eleger o melhor prato da noite. Para mim, seria impossível escolher.


Oui Oui
Rua Conde de Irajá, 85
Botafogo
Tel.: (21) 2527-3539

sábado, 24 de julho de 2010

Recompensa aos peregrinos

por Luciana Plaas

Sábado passado tive um dia intenso de peregrinação por lojas de decoração. Foi um entra e sai de estacionamentos, sobe e desce de escadas, filas e mais filas. Quando entramos no carro e finalmente sentamos, senti que estava cansada e, o pior, faminta. Fiz uma pergunta singela: "alguém está com fome?". Minha sogra respondeu que sim. Ufa, que alívio, pensei. O Alexandre disse que tomaria uma sopinha. Que desgosto. O primeiro pensamento que me veio a cabeça foi a sopa de milho, do restaurante Bazzar, em Ipanema. Vou morrer de fome, pensei, estamos do outro lado da cidade. Foi quando lembrei que estávamos muito perto do Mercado Produtor.

Só tinha ido ao Mercado durante o dia. Tudo parece muito diferente à noite. Falta aquela alegria das barraquinha de peixe, aquele movimento todo. Mas tínhamos que escolher, e rápido, algum lugar para comer. Entre os restaurantes do local, optamos pelo La Plancha.

Sentamos e fomos logo pedindo o caldinho de sururu, antes mesmo das bebidas. O garçom disse que tinha acabado. Que tristeza! Escolhemos então o caldinho de frutos do mar (R$ 18,50). Logo perguntei ao garçom se demorava muito, tamanha era a minha fome. Ele disse que era feito na hora. Resposta certa, mas não a que eu queria ouvir naquele momento. Conversa vai, conversa vem, o Alexandre solta a frase que eu esperava: "aqui tem uma lagosta e uma cavaquinha maravilhosas, alguém se anima?" Todos nos animamos. Perguntamos ao garçom o que estava melhor, a lagosta ou a cavaquinha? Lagosta foi a resposta. Seguimos a sugestão do garçom e pedimos o prato (R$ 148) para dividirmos entre os três.

Quinze minutos depois, chegaram os caldinhos. A aparência nunca é muito boa, mas o cheiro estava diabólico de tão bom e o pote era enorme. Estava super quente. Ainda isso, depois de esperar ficar pronto, agora tinha que esperar esfriar, para não queimar a língua. Mas ter paciência é uma tarefa difícil quando se está com fome. Mesmo quente, encarei o caldo. Estava divino. No final já nem usava a colher, virei o potinho mesmo. Que satisfação. Com aquele friozinho então, caiu muito bem. Quando pensei que nos precipitamos em pedir as lagostas, coisa de gente esfomeada, elas chegaram.

Sempre tenho medo de pedir lagosta. Muitas vezes não vem no ponto certo. A do La Plancha, grelhada, na brasa, somente com manteiga, veio no ponto. O prato dava direito a um acompanhamento. Pedimos arroz de brócolis. Estava bom.

Na volta pra casa, pensei que para fazer toda aquela peregrinação em lojas novamente, só mesmo se me prometessem uma recompensa tão boa quanto aquele caldinho e aquela lagosta.

La Plancha 148
Av. Ayrton Sena, 1791 - boxes 7 a 10
Barra da Tijuca - Rio de Janeiro
Telefone: (21) 3325-3383

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Tesouro no Mar Báltico

Cerca de 30 garrafas de champanhe de 1780 foram encontradas por um grupo de mergulhadores no Mar Báltico, entre a Suécia e a Finlândia, em um barco naufragado no local. Segundo o instrutor de mergulho Christian Ekstrom, responsável pelo achado e o primeiro a provar o espumante, a bebida está em perfeitas condições e tem um “sabor maravilhoso”.

Caso a bebida realmente ainda possa ser consumida, cada garrafa pode valer até 50 mil euros, cerca de R$ 115 mil. Para tanto, as rolhas terão que estar ainda intactas e a autenticidade do champanhe terá que ser comprovada. Amostras do espumante foram enviadas para análise em laboratórios na França.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A volta ao mundo da Decanter

por Alexandre Lalas

Todo bom enófilo adora uma feira de vinhos. Pudera. É a oportunidade de provar uma infinidade de rótulos, de inúmeros produtores, de variadas regiões, estilos e preços. É uma alegria só. Em junho, a importadora Mistral promoveu o encontro anual dos produtores que fazem parte do catálogo da empresa. Foi um baita evento. Em agosto será a vez de outra importadora fazer o show. A caravana da Decanter vai passar por quatro cidades brasileiras. No Rio, a festa vai rolar no dia 2 de agosto, no Sofitel, na praia de Copacabana. A entrada custa R$ 180 e está a venda na loja Espírito do Vinho (2286-8838), na Cobal do Humaitá. Quem quiser ir é bom garantir logo o ingresso. As vagas são limitadas.

Esta será a terceira edição da feira da Decanter. Neste ano, 70 produtores de 12 países estarão apresentando centenas de rótulos. Muitos deles, novidades no mercado nacional. Para facilitar a vida dos leitores, a coluna preparou um pequeno guia com o que de melhor há para provar no evento.


Viña Alicia: Vinícola argentina de butique, produz vinhos superlativos, raros e sempre muito bem pontuados. Não deixe de provar o Brote Negro, um malbec de qualidade excepcional, e o Cuarzo, feito a base de petit de verdot e um dos grandes vinhos do país. Outra dica: vale a pena passar um tempo conversando com a proprietária da bodega, Dona Alicia Arizu. É sempre uma aula, de vinho e de vida.

Riglos: Outra vinícola argentina que impressiona pela qualidade. O sócio da empresa, Fabián Suffern, vai estar atrás do balcão conversando com os convidados. Entre os vinhos da Riglos, destaque para o Gran Corte.

El Principal: Vinícola chilena do Alto Maipo, produz vinhos de qualidade em todos os níveis de preço. Entre os tops, destaque para o El Principal, corte de cabernet-sauvignon e carmenère.


Villard: Um sauvignon blanc e um syrah são os destaques desta pequena vinícola chilena. O Expresíon é um dos bons vinhos feitos com a sauvignon blanc no país. Já o Tanagra é um syrah de grande qualidade, feito no frio vale de Casablanca. Um dos melhores produzidos com a cepa no Chile.

Bouza: Dois vinhos desta pequena bodega uruguaia chamam a atenção: um curioso albariño e um raro corte de tannat, merlot e tempranillo, o Monte Vide Eu.

Alain Brumont: Um dos mais importantes produtores do Madiran, no sudoeste francês, Brumont é uma das estrelas da feira. Vinhos sempre muito bem feitos, desde o bom e barato corte de gros manseng e sauvignon ao caro e raro Montus La Tyre. Tudo é bom. Imperdível: o Brumaire Pacherenc Du Vic Bilh Doux, branco doce espetacular.

Domaine Pierre Labet: François Labet é o proprietário da Domaine e também do Château de La Tour (não confundir com o Latour de Bordeaux), ambos da Borgonha. Excelente papo, grande figura e produtor de vinhos de primeira linha. O Clos Vougeot feito por ele é uma obra-prima. E mesmo os borgonhas genéricos estão furos acima da maioria dos pares. Visita indispensável e prove toda a linha.

Pio Cesare: Produtor italiano, do Piemonte. Vinhos grandiosos e caros. Mais um daqueles em que vale a pena provar a linha inteira. Mas, se não houver tempo para tanto, não perca o Piodilei, chardonnay vigoroso; e os barolos da casa.

San Fabiano Calcinaia: Guido Serio, torcedor fanático da Fiorentina, deve estar um tanto aborrecido com o fracasso da Azzurra na Copa. Portanto, vamos dividir nossas mágoas com o futebol brindando com um dos bons vinhos desta cantina da Toscana. Destaque para o Cerviolo.


Tommaso Bussola: Italiano do Vêneto, faz amarones como poucos. O Vigneto Alto é um dos melhores vinhos da Bota que tive o prazer de provar.

Pieropan: Outro do Vêneto. Aqui, os destaques são os brancos. Em especial, o La Rocca. Vale a passada.


Domingos Alves de Sousa: Papo de primeira, vinhos idem. Português estabelecido no Douro, faz vinhos de tudo quanto é tipo, para todos os gostos e bolsos. Vale fazer o passeio completo, até para descobrir do quanto Seu Domingos é capaz.


Anselmo Mendes: Português do Minho, um dos papas da alvarinho. O Muros de Melgaço é um absurdo de bom.


Quinta dos Roques e Quinta das Maias: Vinícolas irmãs do Dão, com muitos rótulos de qualidade. Destaque para o Roques Encruzado e para o Maias Jaen.

Dona Maria: Júlio Bastos é um dos craques do Alentejo. Durante muito tempo foi o dono da Quinta do Carmo. Quando vendeu a propriedade, manteve em seu poder as vinhas mais antigas. E é delas que saem as uvas para o Dona Maria. Novidade da Decanter, é imperdível.

Arzuaga: Na Ribera del Duero, Ignacio Arzuaga produz algumas joias da Espanha. Outro estande em que a vale a pena provar de tudo. Se a pressa imperar, não perca o Gran Arzuaga.

Frank Künstler: Bodega alemã do Rheingau, super premiada mundo afora. Uma bela amostra da capacidade que a riesling tem de gerar grandes vinhos. O Erstes Gewächs é extraordinário.

Pendits: Para terminar com chave de ouro a visita à feira, é indispensável passar no estande desta vinícola húngara e provar o magnífico Tokaji Aszú 6 Puttonyos. Simplesmente, um dos grandes vinhos brancos doces do mundo.

Decanter Wine Show
Ingresso: R$ 180
Rio de Janeiro - 2 de agosto, Sofitel
São Paulo - 3 e 4 d agosto, Grand Hyatt
Belo Horizonte - 5 de agosto, Buffet Catharina
Florianópolis - 6 de agosto, Majestic Plaza 
www.decanter.com.br

Bom desde os tempos de Garrincha

por Luciana Plaas

Há quantos anos você não vai ao Plataforma? Eu não ia fazia tempo. Desde a época em que Garrincha conduzia a casa, frequentada quase diariamente por Tom Jobim. Até duas semanas atrás, quando fui depois do jogo Brasil contra Costa do Marfim, na primeira fase da Copa do Mundo. Depois disso, voltei ao restaurante nesta semana.

Quando fomos depois do jogo, éramos um grupo grande. Estávamos famintos. Avisamos ao garçom que trouxesse tudo. O couvert, (pães de queijo, torradas, manteiga, patê e azeitona; R$14,00), lingüiça (R$6,00 a unidade), e o que mais tivesse por vir. As cestas de pão de queijo foram chegando e acabando rapidamente. Quentinhos, uma gostosura. A esta altura, parecia que estávamos comendo por comer, um atrás do outro. Mas a linguiça, mesmo com toda a fome que eu estava, não me agradou. Estava passada. Sensação que repetiu-se da última vez que estive no Plataforma.

Na hora de escolher os pratos, pedi ajuda ao garçom. Ele me sugeriu o steak ao sal grosso (R$62 para uma pessoa e R$95 para duas). Embora a fome fosse grande, Alexandre e eu decidimos dividir uma porção individual. Estava divino, macio, no ponto que pedimos. Outras pessoas do grupo pediram o T-bone (R$56,00) que parecia bom também. Quem optou pelo o babybeef (R$54,00) não ficou tão feliz. Chegamos a conclusão de que os garçons que indicam o filé ao sal grosso estão certíssimos. Realmente é o melhor prato da casa.

Cada prato dava direito a um acompanhamento. Escolhemos batatas suflê, creme de espinafre, e farofa de ovo com banana . Os acompanhamentos eram simplesmente, acompanhamentos. Nada de especial.

Pedimos duas sobremesas para dividirmos. Banana flambada (R$24,00) e Cup Camargo (creme de abacate, R$16), que pedimos que fosse servido com Frangelico. Todos na mesa gostariam de uma colherada a mais.

Quando voltei ao restaurante, convidada por uma importadora de vinhos, não tive chance de escolher o que queria. A carne servida foi a picanha. Não estava lá grande coisa. Ou seja, no Plataforma, como em tantos lugares o garçom sabe exatamente o que indicar. Portanto, para quem for ao Plataforma melhor ficar no Steak ao sal grosso. Continua ótimo.

Plataforma
Rua Adalberto Ferreira, 32
Leblon
Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2274.4022
www.plataforma.com

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Na Copa e na cozinha

por Luciana Plaas

Demorei bastante tempo para ir até o restaurante Eñe, em São Conrado. Ao meu ver, quando um restaurante abre é muito difícil avaliar como ele realmente vai ser. É preciso dar tempo para a cozinha se acertar e o serviço ficar afiado. Antes de seis meses, não acho justo qualquer crítica. Logo quando o Eñe abriu, ouvi comentários contra e a favor da casa. Por isso, esperei até que parassem de falar um pouco de lá para ir e tirar as minhas próprias conclusões.

Era sábado e nossa mesa, de sete. Nada melhor do reunir vários amigos de uma vez só. Se a mesa é redonda então, todo mundo fica feliz. Como a maioria de nós estávamos indo ao Eñe pela primeira vez, o maître sugeriu o Gran Menu Degustação (R$140,00).

Começamos no melhor estilo espanhol: o couvert da casa, que tem pão, linguiças e chouriço, regados por um azeite maravilhoso (R$14,00). Daí por diante os pratos vieram num ritmo contínuo e preciso. Lembrando que era uma sábado e o restaurante estava lotado.

O primeiro prato foi o Tartar de pescados com ovas de peixe voador. Além de lindo era uma delicadeza só. Acidez no ponto certo. Começamos bem, pensei.

O segundo foi o Ravioli de castanhas de caju, foie gras e azeitonas pretas. Um ravióli grande com um caldo bem saboroso. Achei um pouco doce demais. Culpa de castanha.

Depois veio o Olhete com crosta de fideus e ceviche de melancia. Outro prato muito bonito. Adorei a crosta de fideus, uma espécie de massa bem fininha. Deu uma crocância boa ao peixe. Por sinal, este nem me encantou tanto assim. Em compensação, poderia comer um prato inteiro do ceviche de melancia.

O próximo prato foi o Ensopado de alcachofra com panceta e caldo de carne. Estava divino. A mesa inteira gostou. Parecia que seria o eleito da noite. Até que nos serviram o último prato: Leitão crocante com maçã. Fui às nuvens. Um delírio. Como é bom comer um porquinho bem feito e crocante.

Mas, uma das pessoas da mesa, que não come carne, escolheu o Arroz negro com lagostim e lula. Todos provamos o prato dela. Coitada, quase não sobrou nada, de tão bom que estava. Da próxima vez, este prato será uma das minhas escolhas. O bom de um menu degustação é justamente o fato de podermos provar uma série de pratos diferentes. Por alguns nos apaixonamos, por outros, nem tanto. O que vale é a surpresa.

Como estávamos bebendo vinho, seguimos com queijos. Aliás contamos com o serviço impecável e a presença elegante da sommelière Cecília Aldaz.

Para terminar veio a sobremesa: Turrón gelado de amêndoas. Muito gostoso.
Realmente os espanhóis, quinhentos anos depois de dividirem o globo com Portugal, estão querendo reconquistar o mundo. Na culinária, nos vinhos e até no futebol.

Eñe - Hotel Intercontinental
Avenida Prefeito Mendes de Morais, 222
São Conrado
TEL. (21) 3322-6561
www.enerestaurante.com.br

De portas abertas

por Alexandre Lalas

Era uma vez um país. Nasceu como reino em 1929 e foi esfacelada por diversas ocupações em 1941 para renascer como república em 1945. Era a Iugoslávia. Comandada por Josip Broz Tito, o idolatrado Marechal Tito, de 1945 a 1953 como primeiro-ministro e de 1953 até a morte, em 1980, como presidente. Tito foi capaz de manter unida uma região famosa pelo histórico de conflitos. Durante o período em que o Marechal deu as cartas, dizia-se que a Iugoslávia era um país formado por seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um partido. Embora fosse socialista, mantinha independência da poderosa União Soviética. Mas Tito morreu em 1980 e a frágil união que mantinha a Iugoslávia de pé começou a ruir. Até que em 1991 o país desintegrou-se de vez. Eslovênia e Croácia foram as primeiras repúblicas a proclamarem independência. Depois veio a Macedônia. Em seguida a Bósnia-Herzegovina. E, na sequência, veio a guerra.

Naquela altura, a indústria vinícola da Iugoslávia era forte. E o país era um dos maiores exportadores do mundo de vinho por atacado. Exuberante em quantidade, não era famosa exatamente pela qualidade. Mas a tradição de vinhos sobreviveu a anos de guerra e à divisão do país. E, depois de uma longa visita ao fundo do poço, vinícolas de repúblicas que faziam parte da antiga Iugoslávia já chamam a atenção da Europa e do mundo para o que é feito ali. E, melhor ainda, desta vez é pela qualidade da bebida. E não pelo volume de litros.

Das ex-repúblicas iugoslavas, três se destacam na produção de vinhos: Croácia, Eslovênia e Macedônia. E com uma produção voltada majoritariamente para a qualidade, a Eslovênia é que produz os vinhos mais interessantes. Situada entre os Alpes e o Adriático, o país tem três regiões produtoras: Podravje, Posavje, e Primorje. A produção anual varia entre 800 mil e 900 mil hectolitros, esparramados em 21.600 hectares. Ou seja, em uma área quase duas vezes maior, a Eslovênia faz cerca de metade da quantidade do vinho que é produzido em Bordeaux, na França.

Podravje é a maior das regiões vinícolas eslovenas e conhecida especialmente pelos ótimos vinhos de sobremesa que produz e por brancos de altíssima qualidade. Fica entre as fronteiras com Áustria e Hungria e é dividida em seis áreas: Maribor, Radgona-Kapela, Srednje Slovenske Gorice, Haloze, Ljutomer-Ormoz, e Prekmurske Gorice. De influência mais francesa, e focada em vinhos de corte, especialmente brancos, Posavje é famosa pela imensa variedade de solos. Apenas em Bela Krajina, uma das quatro sub-regiões de Posavje, existem 22 tipo de solo. Região fronteiriça com a Itália e que mais sofre a influência mediterrânea, Primorje produz vinhos minerais, de média acidez e ricos em aromas. Embora seja a única região que produza tintos e brancos na mesma quantidade, são os brancos mesmo é que se destacam no cenário internacional.

Embora ainda esteja relativamente atrasado em comparação aos eslovenos, o vinho croata não para de crescer. E conta até com uma estrela mundial. Mike Grgich é um dos grandes enólogos do mundo. Em 1973, quando morava nos Estados Unidos, Mike foi o enólogo responsável pela produção do Château Montelena Chardonnay, que, três anos mais tarde, seria eleito o melhor vinho branco em uma prova às cegas realizada na França, entre vinhos franceses e americanos, no que ficaria conhecido mundialmente como O Julgamento de Paris. Na Croácia, Mike produz vinhos de altíssima qualidade. E é um estudioso da plavac mali, casta autóctone croata, prima-irmã da zinfandel.


A Croácia é divida em duas regiões principais, a costeira e a interiorana. Cada uma delas é subdivida em diversos pequenos distritos. Ao todo, a Croácia tem cerca de 300 áreas definidas para a produção de vinhos. No interior, os brancos são a maioria absoluta. A casta mais plantada é a graševina, que gera vinhos leves, de acidez elevada e mediamente aromáticos. No litoral, a imensa quantidade de ilhas e colinas criam uma infinidade de microclimas. Variedades bordalesas como cabernet-sauvignon e merlot são as mais plantadas junto com uvas autóctones como a plavac mali.

Embora ainda esteja um degrau abaixo do que fazem eslovenos e croatas, os vinhos da Macedônia não deixam de ser interessantes. O país tem três regiões produtoras: Povardarie, no centro do país; Pchinya – Osogovo, ao leste; e Pelagonia – Polog, a oeste. A maior é mais importante é Povardarie, que concentra 85% da produção do país. Entre os vinhos macedônios, vale a pena conhecer os feitos com a vranec, uva tinta típica de lá, que gera vinhos ricos em aromas, de boa estrutura e de grande carga tânica. Outra uva local interessante é a branca zilavka, que gera vinhos pouco aromáticos, mas cheios de volume e estrutura na boca.

Por enquanto, ainda não existem vinhos de nenhuma das ex-repúblicas iugoslavas no Brasil. Mas, em feiras realizadas na Europa, alguns importadores provaram coisas interessantes destes países e novidades podem em breve chegar ao nosso mercado. Estaremos esperando com as portas abertas.

Vinho da semana:
Piodilei Chardonnay Langhe 2007
Piemonte, Itália
De um pequeno vinhedo em Barbaresco vem as uvas, colhidas sempre bem maduras, para este vinho, um dos grandes brancos italianos. Intenso e rico no nariz, com notas de pêssego, abacaxi, especiarias e amêndoas. Na boca, tem boa estrutura, é macio, fresco e persistente.
Nota: 9
Preço: R$ 227,10
Onde: Decanter (2286-8838)

Barato bom:
Birilo 2005
Toscana, Itália
A Grand Cru vai parar de importar este vinho, leve, fresco e saboroso corte de cabernet-sauvignon, merlot e sangiovese. Por este motivo, as garrafas que ainda existem na loja estão em promoção, com os preços quase pela metade. Corra, antes que acabe.
Nota: 8
Preço: R$ 39
Onde: Grand Cru (2511-7045)

sábado, 3 de julho de 2010

Respirar é preciso

por Alexandre Lalas

Muitas vezes quando abrimos uma garrafa de vinho, a bebida está quase sem aromas. No jargão dos enófilos, dizemos que o vinho está fechado. Nestes casos, recomenda-se colocar o líquido em um decanter para que o contato com o oxigênio liberte os aromas da bebida. Dizemos, então, que o vinho está abrindo. Dependendo do rótulo, leva tempo para que o vinho abra. Com a promessa de diminuir esta espera, surgiram os aeradores.

De um tempo para cá, o mercado de vinho tem sido invadido por estes produtos. Duas versões já estão disponíveis nas lojas e sites de vinho, outro está a caminho e ainda há um aerador francês que promete transformar qualquer vinho jovem em um ancião centenário em questão de segundos.

Para entender alguns destes produtos, a Confraria dos Nove se reuniu, na semana passada, para avaliar alguns dos aeradores disponíveis no mercado. O mesmo vinho foi provado, às cegas, em seis diferentes versões: passando pelo Vinturi, pelo The Wine Finer, pelo Oxyger De Vin, usando a Clef du Vin, um decanter normal e abrindo a garrafa sem aerar.

Participaram da degustação, além do colunista, a sommelière Cecilia Aldaz, do Eñe; o chef Danio Braga, da Loccanda; Paulo Nicolay, vice-presidente da SBAV-RJ; Ricardo Farias, diretor da ABS-RJ; a crítica de gastronomia Luciana Plaas e o empresário Duda Zagari, da Confraria Carioca, loja que cedeu os vinhos para a prova. A degustação foi realizada no Lorenzo Bistrô, no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio de Janeiro e o serviço foi conduzido com eficiência pelo dublê de garçom e sommelier Radamés Chinemann.

O teste foi feito primeiro com o espanhol Petit Grealo 2004, vinho espanhol sem passagem em madeira. A mesma prova foi repetida em seguida com o também espanhol Pujanza 2005, que tem estágio de 18 meses de barricas de carvalho. Foram conferidas notas de zero a dez para cada uma das versões dos dois vinhos. Só que mais importante do que estabelecer um vencedor da degustação foi avaliar o comportamento de cada aerador com os diferentes vinhos. E, finda a degustação, a principal conclusão foi de que ainda é preciso estudar, e muito, o assunto.

Abaixo, o desempenho de cada um dos aeradores nas duas provas:

Clef du Vin: produto francês, desenvolvido pelo sommelier Franck Thomas e pelo químico Lorenzo Zanon. É uma espécie de chave, com uma liga de metal, que promete “envelhecer” o vinho através de uma rápida oxigenação, promovida por reação química aos tais metais. Segundo o fabricante, cada segundo da chave em contato com o vinho, em dose de 10 cl, equivale a um ano de envelhecimento. Na prova, a chave ficou dois segundos em contato com o líquido.

No vinho sem passagem por madeira, o desempenho da Clef du Vin foi sofrível e obteve a pior nota para os degustadores. Já quando foi usada no vinho com envelhecimento em barricas de carvalho, a geringonça teve um resultado melhor: foi a que obteve a maior nota dos provadores. Ou seja, para vinhos sem madeira, não vale a pena usar o acessório. Não disponível no Brasil, custa US$ 129 no site www.vinetpassion.com.

Oxyger De Vin e Vinturi: Ambos funcionam seguindo o mesmo princípio: o aumento da velocidade de um fluido em movimento provoca a diminuição de sua pressão. Ambas as peças têm dois pequenos furos laterais, que sugam o ar para dentro do aerador e aumenta a oxigenação do vinho. Na prova, o americano Vinturi saiu-se um pouco melhor do que o brasileiro Oxyger de Vin, em ambos os vinhos. Porém, as médias dos dois produtos foram muito próximas. E, em ambos os casos, os vinhos ficaram melhor do que fossem servidos diretamente da garrafa para a taça. O Vinturi está a caminho do Brasil e custará cerca de R$ 120. Já o Oxiger de Vin é vendido no site Artesanato do Vinho (www.artesanatodovinho.com.br) e custa R$ 100.

The Wine Finer: Desenvolvido pelo designer dinamarquês Marcus Vagnby, funciona além de aerador, como filtrador e corta-gotas. Telas muito finas de aço inoxidável filtram a bebida que passa por 32 micro aeradores na hora em que o vinho é servido. Na prova, o Wine Finer saiu-se bem melhor com o vinho barricado, quando obteve a segunda maior nota. Na bebida sem passagem em madeira, em compensação, o Wine Finer ganhou apenas da Clef de Vin. Custa R$ 199 e é vendido na Spicy, e nos sites do Ponto Frio e do Extra.

Vale lembrar que o bom e velho decanter, cujos aeradores prometem aposentar, saiu-se muito bem com os dois vinhos.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Cenoura mecânica

por Luciana Plaas

 Para manter a tradição que tem dado certo nesta Copa, procurei uma receita holandesa para o jogo de hoje. A culinária sem dúvida não é das habilidades mais notáveis dos holandeses. Cheguei a encontrar uma receita de hutspot, uma carne cozida, cortada em cubos e misturada com purê de legumes (cenoura, feijão branco, batata e cebola). Este prato costuma ser servido com cerveja. Mas não me empolguei com a receita. Mas para não deixar os supersticiosos de plantão de cabelo em pé, resolvi o problema justamente pelo que a seleção holandesa tem de mais marcante: a cor laranja. Vou fazer um bolo de cenoura bem laranja e, por via das dúvidas, abrir o apetite antes com alguns queijinhos bem holandeses: Gouda, Edam e Leyden.

Receita do bolo de cenoura

Assadeira redonda de 20 cm

250 ml óleo vegetal
4 ovos batidos
225g açúcar mascavo
140g de cenoura sem casca e ralada
225g farinha com fermento
½ colher de chá de bicarbonato
1 ½ colher de chá de canela

Cobertura
45g de manteiga sem sal (fora da geladeira)
170g cream cheese
300g açúcar de confeiteiro
1 colher de chá de essência de baunilha

1 Acenda o forno na temperatura de 180C. Unte a assadeira.
2 Numa vasilha, misture o óleo, os ovos, o açúcar e a cenoura.
3 Peneire a farinha, o bicarbonato de sódio a canela em uma outra vasilha.
4 Misture os ingredientes das duas vasilhas.
5 Coloque na assadeira. Asse por aproximadamente 35 minutos.
6 Faça o teste do palito de dente para saber quando está bom. Enfie no meio do bolo se o palito sair limpo está pronto.
7 Para a cobertura, bata a manteiga e o cream cheese até que forme uma mistura homogênea . Peneire o açúcar por cima da mistura da manteiga e com o cream cheese. Acrescente a baunilha.
8 Quando o bolo esfriar coloque a cobertura por cima.

Até o próximo jogo.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ceviche chileno

por Luciana Plaas

Para manter o ritual que tem dado certo nesta Copa, uma receita de um prato bem típico chileno, nossos adversários no jogo de logo mais, o ceviche. Esta receita serve quatro pessoas

Ingredientes:

450g de filé de peixe (tamboril, salmão ou atum) cortado em tirinhas
Suco de limão de 2 limões
1 colher de azeite extra virgem
1 pitada de pimenta vermelha
1 pimenta fresca ardida cortada bem pequena e sem semente
1 colher de sopa de cebolinha picada
1 abacate partido e cubos
1 tomate partido em cubos sem semente
Sal e pimenta a gosto

Modo de preparo

1 Coloque o peixe cortado, a cebola, ao suco de limão, o azeite, a pimenta vermelha e a ardida e metade da cebolinha cortados em uma vasilha. Mexa ocasionalmente. Se o peixe estiver cortado em tirinhas bem finas levara 3 minutos. Estará pronto quando o peixe ficar com uma tonalidade opaca.
2 Tempere com pimenta e sal. Arrume o ceviche com o abacate e tomate.
3 Sirva salpicado com o restante da cebolinha.

sábado, 26 de junho de 2010

O cara

por Alexandre Lalas

Muita gente costuma dizer que o Dão é a Borgonha de Portugal. A comparação, embora um tanto exagerada, existe por conta da elegância comum aos bons rótulos das duas regiões. E também por conta do preço, relativamente alto se comparado ao de outros lugares produtores de vinho. Mas, se considerarmos de fato que o Dão é uma espécie de Borgonha de Portugal, então Álvaro Castro, dono e enólogo da Quinta da Pellada é a versão lusa de Aubert de Villaine, o responsável pelos míticos vinhos da Domaine de La Romanée-Conti.

É Álvaro Castro o principal produtor do Dão. Lá, ele é "O cara"! Em uma região cheia de potencial, mas marcada pela irregularidade do que é produzido, os vinhos da Quinta da Pellada são sinônimos de alta qualidade. Desde a linha mais em conta, com bebidas mais simples e acessíveis, aos rótulos mais caros, tudo é bom, acima da média.

A vinícola nasceu em 1980, quando o Álvaro herdou a propriedade e decidiu retomar a tradição da família em produzir vinhos, quebrada havia duas gerações. Na vinha, cuidado minucioso com as plantas. Na cantina, modernas técnicas de vinificação aliadas a métodos ancestrais. Esta é a filosofia de Álvaro, que lançou o primeiro vinho em 1989. Desde então, não parou mais.

Em recente visita ao Rio de Janeiro, Álvaro apresentou os vinhos que faz, de diferentes estilos, para distintas ocasiões. Abaixo, uma breve análise de cada um dos rótulos. Todos os vinhos de Álvaro Castro são importados pela Mistral (3534-0044)

Primus 2009
Dão, Portugal
Branco produzido com vinhas velhas de encruzado, bical, cercial, terrantez e verdelho; de média intensidade aromática, com notas de frutas secas, com ligeiro tostado; na boca tem volume, frescor, bom corpo, um toque cítrico, muito equilíbrio e um final longo.
Nota: 9
Preço: N/D no Brasil

Quinta de Saes Reserva Branco 2005

Dão, Portugal
Branco de cinco anos de idade e ainda em plena forma, este vinho é um exemplo clássico da capacidade do Dão de gerar grandes vinhos e da competência de Álvaro Castro em produzi-los. Delicado no nariz, elegante na boca, com bom volume, médio corpo, acidez perfeita, fruta e persistência.
Nota: 9
Preço: N/D no Brasil

Saes 2008
Dão, Portugal
Tinto de entrada de gama, fácil de beber e de gostar. No nariz, fruta. Na boca, é leve, frutado, fresco, com a elegância de sempre, marca registrada dos vinhos de Álvaro Castro.
Nota: 8
Preço: US$ 27,66

Quinta de Saes 2007
Dão, Portugal
Muita fruta fresca, com um toque floral no nariz. Na boca, é vivo, leve, fresco, bem equilibrado, bem frutado e com um final de média persistência.
Nota: 8
Preço: US$ 40,24


Quinta de Saes Estágio Prolongado 2007
Dão, Portugal
Tinto feito com vinhas velhas de touriga-nacional e tinta roriz; nariz de intensidade média, com notas de violeta, fruta madura, especiarias e um leve tostado. Na boca, tem bom corpo, volume, taninos finos, acidez correta e final longo.
Nota: 8,5
Preço: US$ 60,36


Quinta da Pellada 2007
Dão, Portugal
Corte de touriga-nacional e tinta roriz, vindas de vinhas velhas. Elegante no nariz, com notas de violeta e frutas vermelhas maduras. Na boca, encorpado, volumoso, fino, com acidez perfeita e final longo.
Nota: 9
Preço: US$ 125,34

Pape 2006
De vinhas de duas quintas (passarela e pellada) sai este tinto, corte de baga e touriga-nacional. No nariz, violeta e fruta fresca, aliada a um toque balsâmico e com evolução para chocolate amargo. Na boca, encorpado, vigoroso, com taninos finos, acidez bem marcada e um final longo e fresco.
Nota: 9
Preço: US$ 118,86

Carrocel 2007
Dão, Portugal
Feito exclusivamente com a touriga-nacional; elegante no nariz, repleto de notas florais, em especial, a violeta, e com cereja e amora. Na boca, tem bom corpo, taninos macios, leveza, acidez perfeita, vivacidade e um final longo e intenso.
Nota: 9,5
Preço: US$ 184,54


Quinta da Pellada Touriga Nacional 2004
Dão, Portugal
Este é um dos grandes tintos portugueses, de nariz intenso, com aromas de violeta, rosa, fruta vermelha e notas de baunilha e tostado. Na boca, delicado, macio, fino, envolvente, redondo, vivo, longo, com leve sensação de doçura no longo final.
Nota: 9,5
Preço: US$ 125,34

Doda 2005
Dão e Douro
Este vinho chamava-se Dado. É uma junção de Dão e Douro, regiões de onde vêm as uvas. Mas problemas com o registro da marca fizeram com que o nome mudasse para Doda. Pouco importa. O que interessa aqui é que a parceria de Álvaro Castro, da Quinta da Pellada, no Dão, com Dirk Van Der Niepoort, da Niepoort, no Douro, funciona que é uma maravilha. No nariz, violeta e frutas vermelhas frescas. Na boca, impressiona pela estrutura e pela elegância, com taninos macios, fruta, vivacidade e um final enorme e longo.
Nota: 9,5
Preço: US$ 113,31

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Bacalhau de sexta

por Luciana Plaas

Dizem que em time que está ganhando não se mexe. E como na semana passada deu sorte postar antes do jogo contra a Costa do Marfim uma receita típica do país africano, decidi repetir o ritual. E escrever sobre a comida de Portugal, nosso próximo adversário na Copa do Mundo. Quem sabe assim não garantimos mais uma vitória.
Lembro bem da primeira vez que fiz um bacalhau. Ficou muito ruim. Não sabia direito quanto tempo para dessalgar, nem quanto cozinhar e, principalmente, faltava uma boa receita. Conclusão: foi um completo fiasco. Até que um dia, voltei ao restaurante português, Gruta Santo Antônio, em Niterói.

Experimentei as punhetas de bacalhau. E amei. Enquanto comia, aproveitei para folhear o livro Cozinhar é preciso (Ed. Senac-Rio, R$ 27,90), escrito por Dona Henriqueta Henriques, a proprietária do restaurante. Enchi-me de coragem, comprei o livro e resolvi tentar fazer de novo um bacalhau. A primeira receita que me arrisquei foram as punhetas. Deu certo e fui me arriscando mais. Graças as receitas da Dona Henriqueta, hoje posso dizer que sei fazer bacalhau. Por isso, a receita escolhida para o jogo dessa sexta-feira foi:


Punhetas de Bacalhau
(bacalhau cru desfiado)
Rendimento: 2 porções

Ingredientes

250g de bacalhau cru desfiado e demolhado
pimenta do reino a gosto
2 colheres de sopa de cebola em tirinhas finas
um pouquinho de alho picado
2 ou 3 gotas de vinagre
8 colheres de sopa de azeite
sal a gosto
1 colher de sopa de pimenta-rosa
utensílios necessário: travessa

Modo de preparar
1.Misture, com as pontas dos dedos, o bacalhau cru desfiado e demolhado (mais ainda um pouquinho de sal) com todos os ingredientes (exceto a pimenta-rosa).
2.Acerte o sal.
3.Disponha a mistura em uma travessa, regue com mais azeite e acrescente a pimenta rosa.
Segredinho
Corte rodelas de pão, coloque por cima delas um pouco da "punheta de bacalhau", como se fosse um canapé. É bom demais.

E rumo ao hexa!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Do inferno ao inverno

por Alexandre Lalas

Oficialmente, o inverno começou apenas hoje, dia 21. Mas, na prática, o frio já chegou há tempos. Depois de um verão escaldante, quando a Cidade Maravilhosa mais parecia uma sucursal do inferno, os cariocas experimentam o alívio de um friozinho civilizado. E, já que na Copa do Mundo a única coisa a esquentar até agora foi o técnico Dunga, melhor deixar o futebol de lado e apostar em tintos encorpados e vinhos fortificados.

E não faltam opções de bons vinhos para todos os gostos e bolsos. Desde malbecs argentinos que esbanjam potência e concentração a delicados vinhos de porto, há de tudo. E, para ajudar na hora de escolher o rótulo certo para a ocasião, nada melhor do que uma boa listinha, com dez vinhos que perfeitos para aquecer o inverno de qualquer enófilo.

Kaiken Malbec 2008
Mendoza, Argentina
Poucos vinhos são tão bons e tão baratos quanto este malbec feito por esta vinícola, de propriedade da chilena Viña Montes. Violeta muito marcada no nariz, alia vigor e frescor. Combina com um bom ojo de bife.
Nota: 8
Preço: US$ 18,50
Onde: Vinci (2236-5390)


Château la Villatade Cuvée Sanguine 2008
Minervois, França
Este é mais um bom syrah que vem do Languedoc. Nariz de intensidade média, com aromas de frutas vermelhas e um toque de ervas frescas. Na boca, tem médio corpo, taninos presentes, boa presença e um final médio com pequeno amargor.
Nota: 8
Preço: R$ 48
Onde: La Cave Jadot (11 2478-2001)


Bridgewater Mill Shiraz Viognier 2005
Adelaide Hills, Austrália
Corte de shiraz com viognier, feito por esta vinícola que faz parte da Petaluma. Nariz expressivo, com notas de amora, um toque floral e um fundo de baunilha. Na boca, macio, de médio corpo, fresco, fácil, com final longo e agradável.
Nota: 9
Preço: R$ 87
Onde: Wine Society (2286-3873)

Blog 2006
Alentejo, Portugal
Tiago Cabaço produz em Estremoz, no Alentejo, este belo corte de alicante bouschet, syrah touriga-nacional. No nariz, é intenso e vigoroso, com fruta bem madura e especiarias. Na boca, é carnoso, denso, grande, com uma acidez generosa e um final longo e intenso.
Nota: 9
R$ 133
Onde: Adega Alentejana (2286-8838)

Domaine Baud Macvin do Jura
Jura, França
Vinho fortificado com aguardente vínica, produzido com a uva savagnin na região de Jura, na França. Rico em aromas, com notas de tangerina, damasco, casca de laranja, maçã, noz e mel. Na boca, combina bem açúcar e acidez, é untuoso e com um final largo. Vai bem com melão, creme de papaia, tarte tatin ou mesmo como aperitivo. Sirva bem gelado.
Nota: 8,5
Preço: R$ 148
Onde: Le Tire Bouchon (11 3822-0515)


Dona Maria Reserva 2005
Alentejo, Portugal
Júlio Bastos foi durante muito tempo o proprietário da Quinta do Carmo. Depois que vendeu a marca, manteve parte das vinhas e montou outra vinícola. Este Reserva é um corte de alicante bouschet, petit verdot e syrah, fermentado em lagares de mármore e com estágio em barricas de carvalho. Rico, intenso e limpo no nariz, com notas de frutas vermelhas frescas, um toque de menta, canela e chocolate. Na boca, é volumoso, macio, equilibrado e longo.
Nota: 9
R$ 155
Onde: Decanter (2286-8838)


Palácio da Bacalhôa 2005
Setúbal, Portugal
Rico e intenso no nariz, com notas de compota, frutas secas, chocolate e café. Na boca, é concentrado, estruturado, com boa acidez e um final largo. Vai muito bem com pratos de carne vermelhas e caça. Ainda jovem, merece ser decantado por uma hora.
Nota: 9
Preço: R$ 189
Onde: Bacalhôa Vinhos (2532-0957)


Roquette e Cazes 2006
Douro, Portugal
Intenso, persistente, rico e limpo no nariz, com notas de frutas vermelhas frescas muito bem combinadas com leves notas de tostado e chocolate amargo. Na boca, tem ótima estrutura, taninos macios, é elegante, harmônico, e com um final longo e frutado. Combina com lombo de porco, confit de pato, e outros pratos a base de carne. E também pode ser degustado solo, como um vinho de meditação. Decante por uma hora antes de servir.
Nota: 9,5
Preço: R$ 220
Onde: Qualimpor (2256-0858)


Domaine Roux Chambolle Musigny Les Charmes 1er Cru 2006
Borgonha, França
Clássico francês, este é um tinto espetacular. Delicadeza e elegância são as palavras-chave deste líquido, que representa, com louvor, uma das melhores áreas da Borgonha. Para muitos, um vinho feminino. Combina com magret de pato e coelho. Precisa ser decantado por uma hora, pelo menos.
Nota: 9,5
Preço: R$ 450
Onde: Zahil (3860-1701)


Paul Hobbs Cabernet Sauvignon Stagecoach Vineyard 2005
Califórnia, Estados Unidos
Poderoso no nariz, tem tudo o que um cabernet-sauvignon precisa ter: aromas de cassis, cereja preta, amora, chocolate, grafite. Na boca, corresponde às expectativas: musculoso, saboroso, com taninos redondos, muita fruta e uma acidez perfeita. Longo até dizer chega, pede carne. Ainda um bebê, precisa ser decantado por, no mínimo, uma hora.
Nota: 9,5
Preço: US$ 460,65
Onde: Mistral (3534-0044)

domingo, 20 de junho de 2010

Prá frente, Brasil

por Luciana Plaas


Passei os últimos dias tentando achar uma receita tradicional da Costa do Marfim. Afinal, os africanos, que estão entre os maiores exportadores mundiais de cacau (empresas como Cadbury, Hershey's e Nestlé compram a fruta dos marfinenses), serão os nossos adversários na Copa do Mundo, no próximo domingo. Não foi nada fácil. Precisei da ajuda do meu amigo Yann Lesaffre, que além de outras coisas é um gastrônomo de carteirinha, para encontrar, em um site francês, uma receita típica da Costa do Marfim. Parece interessante, e bastante diferente também. Ainda não testei. Quero fazer no domingo, na hora do almoço, antes do jogo. Quem se animar, também pode experimentar. Quem sabe assim tiramos um pouco da força de nossos adversários. Afinal de contas, nossa Seleção até que anda precisando de uma ajudinha extra. E em época de Copa do Mundo, tudo é valido.

Receita de coxa de frango da Costa do Marfim

Ingredientes:
4 coxas de frango
4 bananas
4 batatas doces pequenas
2 papaias pequenos ou 1 grande
O suco de um limão
3 colheres de sopa de curry
1 cebola cortada em tiras
100ml de leite de coco
sal

Para a marinada:
2 colheres de sopa de molho de soja
1 colher de sopa de azeite
2 dentes de alho picado
Sal a gosto

Modo de preparo:
Aqueça o forno na temperatura de 200C.
Junte todos os ingredientes da marinada e coloque sobre as coxas do frango. Reserve.
Descasque as batatas. Corte em quatro e cozinhe na água com sal.
Coloque as bananas com casca no forno pré-aquecido.
Parta o papaia ao meio, tire as sementes e a casca. Jogue suco de limão por cima e reserve. Coloque as coxas de frango, com a marinada, numa vasilha que possa ir ao forno.
Salpique as coxas com curry.
Quando as bananas já estiverem assadas, tire a casca e corte em quatro.
Suba o forno para 220C e coloque o frango para assar com as cebolas cortadas.
Após 20 minutos, regue as coxas com 200 ml de água quente.
Continue a assar por mais 10 minutos.
Coloque as batatas, as bananas e o papaia na vasilha com o frango.
Asse por mais 10 minutos.
Quando já estiver quase na hora de tirar do forno, acrescente o leite de coco e deixe no assar por mais 5 minutos.
Tire do forno, leve à mesa e aproveite.

Que venham os outros países e novas receitas!!!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Pujança espanhola

por Alexandre Lalas
Pujança significa robustez, força, vigor. No sentido figurado, grandeza, poderio, magnificência. Pois os vinhos da Pujanza, bodega espanhola de Rioja, exprimem com exatidão todos os significados da palavra. São vinhos robustos, fortes, vigorosos, grandes, poderosos e magnificentes. E, ainda por cima, adorados pela crítica especializada. Tanto que obter pontuações altas é quase uma rotina para o pessoal da bodega. Na edição 2010, o Guia Proensa conferiu 100 pontos ao Pujanza Norte 2007. Outro guia espanhol, o Gourmets, deu nota 9,5 ao mesmo vinho. Jay Miller, colaborador de Robert Parker, elaborou recentemente uma lista com os melhores vinhos de Rioja, na opinião dele. Quatro rótulos da Pujanza estavam na lista: com 95 pontos, o Cisma 2007; com 94 pontos, o Norte 2007; com 91, o Pujanza 2007; e com 90, o Díos Ares Crianza 2007. Ou seja, não faltam credenciais aos vinhos de Carlos San Pedro, dono e enólogo da Pujanza.

A vinícola é relativamente nova. É um projeto pessoal de Carlos, filho e neto de enólogos, e que possuía 15 hectares de vinhas em Laguardia, no coração da Rioja Alavessa. A primeira safra foi a de 1998, lançada no outono europeu de 2001. No ano seguinte, foi inaugurada a cantina própria, e os vinhos passaram a ser feitos literalmente em casa.

No Brasil, os vinhos da Pujanza são representados pela Mercovino, importadora baseada no interior de São Paulo, em Ribeirão Preto. Na semana passada, Rodrigo Arteaga Jiménez, braço-direito de Carlos San Pedro, esteve no Rio para apresentar alguns dos vinhos da casa. Em uma degustação no Fasano, provamos o Díos Ares Crianza 2006, o Pujanza 2005, o Pujanza Norte 2005 e o Pujanza Cisma 2006.

De uma linha mais popular da vinícola e feito com a tempranillo, o Díos Ares Crianza 2006 é um vinho mais leve e fácil do que os outros da família Pujanza. Nariz de intensidade média, com aromas de cereja e framboesa, notas de especiarias e um toque de baunilha. Na boca, alia força e frescor, tem taninos macios, bastante fruta e um final longo e relativamente doce.

Também feito exclusivamente com a tempranillo, o Pujanza 2005 é uma beleza. Intenso e rico no nariz, com notas de frutas maduras, alcaçuz, chocolate e baunilha. Na boca, frescor, potência e elegância, com taninos finos, fruta madura e um final delicioso.

O Pujanza Norte 2005 vem de um único vinhedo de 2,2 hectares, a 680 metros de altitude e plantado por Carlos San Pedro quando ainda era adolescente. É um corte de tempranillo (60%) com 40% de outras uvas (as tintas graciano, marzuello e a branca viura). E o vinho é um espetáculo. Nariz rico, intenso e longo, com um amplo leque aromático, com notas de amora, cereja, café, chocolate, alcaçuz, couro e especiarias. Na boca, superlativo. Com o perdão do trocadilho, pujante. E no meio de tanta força e intensidade, sobra elegância. Um grande vinho que está pronto e pode ser degustado já.

O Pujanza Cisma 2006 é outro espetáculo. É feito com a tempranillo de vinhas bem velhas, de mais de 100 anos de idade, de um vinhedo único de 0,7 hectares, em La Valcavada a 550 metros de altitude. Também rico e intenso no nariz, com notas de amora, cereja preta, fumo, couro e alcaçuz. Na boca, alia robustez e elegância, com frescor, frutas negras, e um final longo e com um toque de baunilha. Jovem, vai ficar ainda melhor com mais alguns anos de garrafa.

Vinho da semana:
Pujanza Norte 2005
Rioja, Espanha
Nariz rico, intenso e longo, com um amplo leque aromático, com notas de amora, cereja, café, chocolate, alcaçuz, couro e especiarias. Na boca, superlativo. Taninos finos, macio, robusto, harmônico, elegante, e com um final bem longo e arrebatador. Caro, mas vale cada centavo.
Nota: 10
Preço: R$ 350
Onde: Mercovino (9123-5615)

Barato bom:
Díos Ares Crianza 2006
Rioja, Espanha
Nariz de intensidade média, com aromas de cereja e framboesa, notas de especiarias e um toque de baunilha. Na boca, alia força e frescor, tem taninos macios, bastante fruta e um final longo e relativamente doce.
Nota: 9
Preço: R$ 59
Onde: Mercovino (9123-5615)

Para guardar:
Pujanza Cisma 2006
Rioja, Espanha
Rico e intenso no nariz, com notas de amora, cereja preta, fumo, couro e alcaçuz. Na boca, alia robustez e elegância, com frescor, frutas negras, e um final longo e com um toque de baunilha. Jovem, vai ficar ainda melhor com mais alguns anos de garrafa.
Nota: 9,5
Preço: R$ 980
Onde: Mercovino (9123-5615)

sábado, 5 de junho de 2010

A arte de fazer café

por Luciana Plaas

Começar o dia com um café bem feito é sempre bom. Pensando nisso, aceitei o convite para conhecer o Cafuné, uma cafeteria na Barra da Tijuca. O horário marcado foi 11 da manhã. Só consegui chegar às 11h40min. Ainda em jejum, e meio envergonhada pelo atraso. Logo, o barista do Cafuné, Leo Moço, me perguntou por qual café gostaria de começar. Deixei para ele a responsabilidade em escolher. Veio o capuccino (R$6,00).

Quando dei o primeiro gole, lembrei do melhor capuccino da minha vida, que tomei em Londres. Eu tinha ido participar de uma seleção de padeiros para um restaurante local chamado Locanda Locatelli. Depois de o dia inteiro na cozinha, o barista, um senhor italiano muito simpático, me ofereceu um capuccino. No final da história, não aceitei o trabalho, mas o tal capuccino ficou na minha memória. Memória gustativa é assim, parece um sonho. Fica ali guardadinha, quase que escondida. Até que um dia você finalmente encontra algo que te faz ter as mesmas sensações. Aí como se fosse mágica, o que estava ali escondido reaparece. E o capuccino do Cafuné conseguiu se igualar aquele de Londres. Não é pouca coisa.

Os donos são dois apaixonados por café, Thiago Antunes e Léo Moço. No início a idéia era ter um lugar que só servisse café. Até um blend próprio eles criaram: o cafuné. É uma mistura de grãos arábica provenientes de fazendas capixabas. Mas a necessidade falou mais alto e eles agora servem os quitutes da Casa da Tatá para acompanhar a bebida.

O proprietário da Fazenda Camocim, Espírito Santo, Henrique Araújo, também estava lá nesse dia. A fazenda dele é biodinâmica, e produz o Jacu Coffee Bird. É um tipo de café cujos grãos são selecionados pelo jacu, ave nativa da Mata Atlântica. O jacu se alimenta dos melhores frutos do café e, após a digestão, elimina os grãos ao pé das árvores. Depois de colhidos manualmente, limpos e guardados, os grãos dão origem a um café de rara qualidade. Pude provar, é muito especial mesmo.

No Cafuné o cliente pode escolher como vai ser preparado o café. O que não faltam são opções. Tem até café coado em filtro cônico e porta-filtro de porcelana, vindos lá do outro lado mundo, da terra do sol nascente. Uma das coisas que aprendi é que, para minha surpresa, os japoneses são o povo que mais entende de café no mundo, junto com os noruegueses. E olha que nem um nem outro são conhecidos pela produção de café!

Outra novidade, pelo menos para mim, foi uma geringonça, que mais parece uma espécie de ampulheta gigante, onde a pessoa coloca os grãos de café ali e deixa na geladeira por várias horas. A ideia é tirar a acidez do café e manter a cafeína. Uma ótima pedida para quem tem problemas estomacais, mas não abre mão de um cafezinho.


Cafuné
Città America
Avenida das Américas, 700 bloco 8, loja 115K
Barra da Tijuca
(21) 2132-8260

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A noite de Seu Antônio

por Alexandre Lalas
Seu Antônio ficou tão emocionado no dia da formatura da filha que não aguentou: mal chegou em casa, apagou. Acordou apenas no dia seguinte, deitado em uma cama de hospital. Só então, teve noção da gravidade da situação. Seu Antônio tivera um derrame e quase foi para o outro lado. Felizmente, a recuperação foi completa. Com apenas uma ressalva: o danado do médico proibiu Seu Antônio de beber. Que maldade!

Pois Antônio Dal Pizzol, desde então, segue a risca as orientações do médico. Salvo uma ou outra exceção, afinal de contas, ninguém é de ferro. E na semana passada, Seu Antônio abriu uma destas exceções. Não era para menos. A noite era de gala. Em um jantar no restaurante da chef Roberta Sudbrack, Seu Antônio estava lá para mostrar aos cariocas o mais novo lançamento da vinícola que dirige e leva o seu nome, a Dal Pizzol. E não era um vinho qualquer. E sim, o rótulo comemorativo dos 35 anos de existência da empresa, um corte de cabernet-sauvignon (45%), merlot (35%), cabernet franc (10%) e ancellotta (10%), de produção limitada a 3.350 garrafas, todas numeradas! Não havia recomendação médica que impedisse Seu Antônio de bebericar uma ou outra tacinha. Mas sem exageros, é claro.

A Dal Pizzol, a vinícola do Seu Antônio, é uma empresa familiar, desde sempre voltada para a produção de vinhos finos. A cantina fica em Faria Lemos, distrito de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. Para a feitura dos vinhos, são usadas uvas compradas de produtores parceiros da vinícola, espalhados por Serra Gaúcha, Campos de Cima da Serra e Encruzilhada do Sul. A produção é controlada por dois enólogos e pelo engenheiro agrônomo da Dal Pizzol. São produzidas 250 mil garrafas por ano.

O enólogo responsável pelos vinhos é Dirceu Scottá e a filosofia da vinícola é clara: vinhos frescos, com muita fruta e sem passagem em madeira. E é exatamente assim o Dal Pizzol 35 anos: um vinho com a cara e o frescor de Seu Antônio.

Dal Pizzol 35 anos Assemblage 2005
Faria Lemos, Brasil
O mais legal deste 35 anos é que, no primeiro gole, mesmo às cegas, pode-se afirmar que é um vinho da Dal Pizzol. Este tipo de assinatura é um bem que cabe à vinícola preservar. Vinho gastronômico, cresce com comida. De preferência, carne.
Nota: 8,5
Preço: R$ 60 (preço por garrafa em caixa de seis fechada, no site da vinícola)
Onde: www.dalpizzol.com.br

sábado, 29 de maio de 2010

Il mio nome non è Eduardo!

por Alexandre Lalas

Apesar da forte chuva e do tráfego intenso, o produtor italiano Pio Boffa, da vinícola Pio Cesare, conseguiu chegar ao aeroporto de Congonhas a tempo de embarcar no voo previsto, com destino ao Rio de Janeiro. Nem cinco horas da tarde eram ainda, e havia tempo suficiente para chegar o Rio, fazer o check-in no hotel em Ipanema e descansar um pouquinho antes de ir para o jantar com clientes da Decanter, importadora que traz para o Brasil os vinhos da Pio Cesare. O evento estava marcado para começar às 20h30, no restaurante D’Amici, no Leme. Mas, infelizmente para Pio, as coisas não saíram exatamente como deveriam...

Para começar, atraso na hora do embarque. E, para piorar a vida do já cansado italiano, fila. Dezenas de senhorinhas carregando bolsas imensas amontoavam-se no saguão do aeroporto a espera do chamado para embarcar. E a fila crescia. Pio não sabia, e nem poderia saber, que o brasileiro tem uma estranha mania: formar filas em salas de embarque de aeroportos. Por mais que os lugares sejam marcados e que o avião não decole sem que todos os passageiros estejam a bordo, o brasileiro não quer saber: basta dois ou três resolverem esperar de pé perto do portão de embarque que forma-se uma fila. Pio não sabia disso. E, vendo a fila formada, imaginou que o embarque já tivesse sido autorizado. E lá foi o italiano do Piemonte para o fim da fila. Que, evidentemente, não andava. E só foi andar já quase às seis, quando o embarque foi finalmente autorizado.

No avião, nada a reclamar. Voo tranquilo e tempo para um rápido cochilo. Afinal de contas, com o atraso para o embarque, já não haveria mais a chance de uma boa relaxada no hotel antes do jantar. O desembarque no Rio foi calmo e um motorista aguardava o italiano no desembarque do Santos Dumont. Eram seis e vinte.

No Rio, caos. Chuva fina, tudo parado no Aterro do Flamengo. E, para azedar ainda mais o humor de Pio Boffa, ar-condicionado no máximo, um motorista que não falava inglês (e muito menos italiano) e um carro que morria a cada dez metros. E a hora passando. Já passava das sete, nada de chegar o hotel. E o jantar marcado às 20h30. No Leme.

Depois de muito trânsito e morridas do carro, enfim, o hotel. O relógio marcava sete e meia. Ainda havia tempo para um banho rápido antes do jantar. Não deu. Ainda havia mais um imprevisto na conta do italiano. No balcão, na hora do check-in, mais confusão:

- Boa noite; perguntou o recepcionista do hotel.

- Boa noite. Tenho uma reserva aqui, meu nome é Pio Boffa; disse o italiano.

O recepcionista olhou no computador, olhou para Pio, olhou de novo no computador, e mandou:

- Tenho uma reserva aqui para o sr. Eduardo Pio.
- Bom, eu não me chamo Eduardo. Meu nome é Pio Boffa.

Sem entender muito bem o que estava acontecendo, um confuso recepcionista chamou o gerente. Que mal chegou e pediu o passaporte de Pio. O gerente olhou o passaporte, olhou para Pio, olhou para o computador. Sem saber o que fazer, perguntou:

- Nós aqui temos uma reserva marcada para Eduardo Pio. Por um acaso o senhor não teria Eduardo no seu nome?

Já sentindo o sangue piemontês ferver nas veias, Pio argumentou que não tinha sequer algum parente chamado Eduardo. Nova rodada de explicações por parte do staff do hotel, nenhuma solução. O italiano perguntou então se havia quartos disponíveis. Havia. Pio quis saber o preço e quase caiu para trás: o mais barato, na parte dos fundos do hotel, sem vista para a praia, custava uma pequena fortuna.


Cansado, irritado e, a esta altura, atrasado, Pio ligou para o dono da importadora. O problema é que, ao mesmo tempo em que o italiano voava para o Rio, o dono da Decanter ia para Florianópolis. E estava com o telefone desligado. Depois de muita insistência, Pio finalmente falou com Adolar Hermann, o dono da importadora. Explicou o que acontecia. Adolar falou com o gerente. Que, depois de uma rápida conversa, explicou a Pio que a agência responsável pela reserva fizera uma confusão e que o Eduardo Pio em questão era, de fato, Pio Boffa.

Desfeito o imbróglio, Pio subiu ao quarto, largou as bagagens e foi para o D’Amici. Lá, comandou um autêntico banquete, harmonizado com os fabulosos vinhos da Pio Cesare. O italiano apresentou os rótulos, contou a história da família e respondeu às perguntas dos convivas. No dia seguinte, refeito, ainda comandou um brunch para profissionais do mundo do vinho. Em seguida, voltou ao aeroporto e embarcou rumo a Turim. E prometeu voltar, em setembro. Com mais tempo, a família e de férias. Será bem-vindo. E se trouxer os magníficos vinhos que produz, melhor ainda...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Canja para quem precisa

por Luciana Plaas

Nas últimas semanas, quase todo mundo com que falo está ou esteve com gripe. Eu também tive. Durou 10 dias. Depois foi a vez do Alexandre. A dele já está quase no fim. Agora é a minha sogra que começou a apresentar os sintomas. Nem minha dentista se safou.

Pensando nisso, a coluna desta semana é voltada aos gripados de plantão. É para os que mal conseguem sair de casa, nem sentir gosto ou cheiro de coisa alguma. Uma receitinha simples e gostosa, da tradicional canja de galinha.

Canja de galinha:
1 cebola grande picada
1 dente de alho picado
2 cenouras descascadas e raladas
1 folha de louro
3 talos de salsa
1kg de frango (coxa e sobrecoxa sem pele)
1 colher de sopa de manteiga
2 colheres de sopa de azeite, sem ser extra virgem
2 litros de água
1 tablete de caldo de frango ou 100ml do caldo feito em casa
250 gramas de massa conchigliette lisce, da De Cecco, ou qualquer outra do gosto do doente
Salsa, coentro ou manjericão picado.

Tempere o frango com pimenta e sal, e reserve. Refogue a cebola com manteiga, até que fique translúcida, depois acrescente o alho. Acrescente o azeite. Quando estiver quente coloque o frango. Deixe dourar um pouco. Acrescente o caldo e deixe ferver um pouco. Coloque na panela o louro, e os talos de salsa. Acrescente a água, deixe ferver e baixe e fogo. Cozinhe com tampa por 30 minutos.

Com uma colher grande, tire da borda da panela a gordura que subiu.

Suba o fogo. Quando voltar a ferver, acrescente a massa ou e as cenouras. Cozinhe o tempo que diz no pacote da massa.

Prove para acertar o sal. Retire o louro e os talos de salsa. Sirva com o tempero que mais gostar.

Quem estiver com preguiça para fazer em casa, pode ir a algum restaurante e pedir o prato. O Lamas, no Flamengo, por exemplo, faz. Custa R$ 26. Não vai curar a gripe, mas dá certo conforto. Um último detalhe, serve também para outras mazelas do estomago, ajuda no frio e, como dizia a minha avó, prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Delícias em casa

Delícias da Dona Gema é uma das muitas entradas do Giuseppe Grill. Parece um pão de queijo, mas só que comprido e fino. E é feito com grana padano. Uma tentação!

A novidade é que não é mais preciso ir até o Giuseppe para provar as delícias. Didi Ribeiro, maître do restaurante e filho da Dona Gema, está aceitando encomendas para festas, jantares e afins.

Maiores informações pelo telefone 21 8128-6143.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Meu amigo Paulo Coelho

por Alexandre Lalas

Fazia frio naquela bela manhã de outono em Montalcino, histórica cidadezinha no interior da Toscana. O ano era 2005. Acordei bem cedo e fui andar pelas ruelas. Era domingo e o comércio ainda estava fechado. O lugar estava deserto e parecia que a cidade era toda minha. Passei pela igreja, pela praça e cheguei à Fortezza de Montalcino, um castelo medieval que se manteve de pé ao longo de guerras e invasões. Quando entrei, a loja de vinhos que fica dentro da fortaleza estava fechada, mas ao acabar a minha visita, a enoteca recém-abrira e ainda não tinha nenhum outro cliente. Dei uma olhada pelos vinhos, uma autêntica parede de brunellos. Vi também que a loja oferecia duas degustações verticais: uma de Brunello Biondi-Santi, de cinco diferentes safras, custava 25 euros. Mas a que me chamou mais a atenção foi a outra: seis safras do Sassicaia, um dos maiores vinhos italianos, por 75 euros. Abri a carteira, contei meus trocados e vi, resignado, que teria que me contentar com a prova de Biondi-Santi.

A atendente era uma italiana baixinha e bem gordinha, com os cabelos presos, de cerca de 40 e poucos anos. Paguei a ela e comecei, com meu italiano macarrônico, um papo informal enquanto ela me servia os vinhos, que, por sinal, estavam maravilhosos. Papo vai e papo vem, ela, percebendo meu sotaque pra lá de estranho, me perguntou de onde eu era.

- Brasil, respondi.

A senhora sorriu e disse que tinha muita vontade de conhecer o Brasil, que adorava a nossa cultura e coisa e tal. Perguntei a ela o que conhecia do nosso país, e ela, de primeira, rebateu:

- Sou muito fã de Paulo Coelho! Li todos os seus livros!

Acometido por um súbito ataque de canalhice, menti descaradamente, sem titubear:

- Paulo Coelho?!?! É muito meu amigo!! Meu vizinho de porta, no Rio de Janeiro!

A mulher se transformou. Parecia que ela estava diante de uma celebridade. Queria saber tudo sobre o escritor. Se era simpático, se tinha cachorro, se saía muito de casa, seu prato preferido, e tudo mais que a sua imaginação permitisse perguntar. Eu, que nunca encontrei Paulo Coelho na minha vida, ia inventando as respostas.

Finda a prova dos brunellos, eu já me preparava para encerrar o papo e ir embora quando a senhora me ofereceu, por conta da casa, a degustação de Sassicaia. Aí foi a vez de os meus olhos brilharem. Eu nunca tinha provado o vinho. No Brasil, seu preço estava muitos zeros acima do meu apertado orçamento. Evidentemente, não havia como recusar. Eram seis safras: 1985, 1990, 1995, 1996, 1997 e 1998. Difícil descrever em palavras a emoção que sentia a cada gole. E a senhora, inebriada por imaginar estar na presença de um sujeito íntimo de um de seus grandes ídolos, caprichava na dose. Meu preferido foi o Sassicaia 1985. Mas poderia ter sido o 1990, ou o 1995. Estavam todos magníficos. Saí de lá com a alma nas nuvens. E com a obrigação moral de, no dia em que esbarrar com Paulo Coelho em algum lugar, dar-lhe meu muitíssimo obrigado. Mesmo que ele jamais entenda a razão.