quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O vinho é a estrela

por Luciana Plaas


Do lado de fora dá pra ver as garrafas de vinho. Na parte de dentro, mais garrafas por todos os lados. Olhando assim, seria apenas mais uma loja de vinhos. Mas subindo as escadas, se chega ao Bistrô. Mal dá pra acreditar na quantidade de gente que cabe ali dentro. Diariamente acontece um happy hour e mensalmente tem uma programação com degustações, muitas vezes com visitas de enólogos dos vinhos degustados.

Semana passada, estive em uma degustação conduzida por Enrique Tirado, enólogo responsável pela produção do Don Melchor, um ícone do Chile.

De entrada foi servida Lagosta ao molho de pêra. Para harmonizar, Terrunyo Sauvignon Blanc. O prato combinou bem com vinho, que era bastante fresco.

O primeiro prato tinha uma apresentação bastante interessante. Era o Bacalhau à Bergut, uma brandade servida dentro de um pão. Já havia comido algo parecido, mas servido com sopa de queijo. O prato estava gostoso com o pão crocante que comi até as beiradas, mas a harmonização não funcionou. Foi servido com o Don Melchor 2006. Caso tivesse sido servido com o vinho anterior, teria dado mais certo. Além de que, o vinho não lembrava em nada um Don Melchor. O último que provara foi o 2004, há dois anos e ainda guardava o sabor na memória.

Tudo resolvido no prato seguinte, um Filet ao foie gras com suspiro de batata ao funghi. Servido com o Don Melchor 2005. Agora sim, o filé estava macio, assim com o vinho. Fiz as pazes com o Don Melchor.

Para os amantes do chocolate, a sobremesa estava na medida, Terrine de chocolate suíço Lindt. E para os amantes do vinho de sobremesa também: Late Harvest Concha y Toro.

O Bergut não deve ser visto como um lugar de alta gastronomia ou um restaurante extraclasse. O foco ali é o vinho, é reunir os amigos em uma mesa, em torno de uma boa garrafa, a preço mais do que justo e com uma comida saborosa e sem grandes pretensões. E o bistrô alcança com perfeição esses objetivos.

Bergut Castelo
Avenida Erasmo Braga 299, Centro - RJ (21)2220-1887

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Vinhos fantásticos, língua afiada

por Alexandre Lalas

Roman Bratasiuk era um bioquímico australiano que amava vinhos. Mas amava tanto, que um belo dia, apesar de não ter nenhuma formação em enologia nem agronomia, resolveu fazê-los. Então, bateu à porta de um viticultor do Mc Laren Valley, cujas uvas Roman apreciava, e, depois de um aperto de mão, alugou as vinhas do sujeito e ali nascera a Clarendon Hills. No dia 24 de fevereiro de 1990, um sábado, Roman chegou às vinhas às seis da manhã. E, para espanto do tal viticultor, começou, sozinho, a colher as uvas. Às nove da noite, com metade do vinhedo colhido, Roman parou o trabalho. Mas voltou bem cedo, no dia seguinte, para terminar tudo. O australiano repetiu o processo com a merlot e com a cabernet-sauvignon. Depois, usou garrafas vazias para amassar as uvas em uma cesta. Dali, o mosto foi transferido para três pequenos tanques de aço, comprados por 100 dólares cada, onde foi feita a fermentação, com leveduras indígenas, e sem nenhum controle de temperatura. Depois o vinho passou por um estágio em barricas de madeira de terceira mão. Em onze dias, tudo estava terminado. Os vinhos foram todos vendidos.


Vinte e uma colheitas depois, a Clarendon Hills coleciona prêmios e pontuações altas em tudo o quanto é canto. Robert Parker adora os vinhos. Jancis Robinson também. Mas Roman não caiu na tentação de aumentar demais a produção para atender a um mercado faminto por seus vinhos. E, se hoje em dia não precisa mais colher tudo sozinho como fizera em 1990, mantém os mesmos princípios de quando começou: vinhos de um único vinhedo, de uma única variedade, de vinhas muito velhas, com baixa produção, colhidos a mão e vinificados com o mínimo de intervenção possível. Por não gostar dos vinhos feitos em Mc Laren Valley, lugar onde estão os vinhedos dele, se recusa a colocar o nome da região nos rótulos. “Não tenho nada a ver com os outros vinhos dali”, brada Roman. E os vinhos da Clarendon Hills são, de fato, muito diferentes do que a região e mesmo a Austrália, costuma produzir.


No Brasil para apresentar os vinhos que, através da importadora Viníssimo, chegam, pela primeira vez, ao mercado sul-americano, Roman conversou com exclusividade com o blogueiro. Entre um gole e outro de cerveja, Roman destilou, sempre com muito bom humor, uma razoável dose de veneno contra outros produtores e contra a crítica especializada australiana.


Alexandre Lalas: O Sr começou a fazer vinhos por amá-los muito. Quais eram os vinhos pelos quais o Sr era apaixonado?
Roman Bratasiuk: Eu bebia muito o Grange, da Penfolds e outros bons vinhos australianos da década de 50 e 60, principalmente. Até porque os atuais caíram muito de qualidade depois que grandes conglomerados compraram as vinícolas familiares. Gosto e bebo muito também os vinhos de Bordeaux, da Borgonha e do vale do Rhône, especialmente os do norte.


AL: E hoje, quais os vinhos que o Sr bebe?
RB: Além dos meus, que gosto muito, continuo bebendo bons vinhos da Borgonha, de Bordeaux e do norte do Rhône. Os australianos eu parei. A vida é muito curta para vinhos ruins.


AL: A exceção dos seus, todos os outros vinhos australianos são ruins?
RB: Não digo que são todos ruins, mas a maioria. E os que não são ruins, não são melhores do que os franceses que gosto de beber. Mas não bebo apenas franceses não. Sou apaixonado por vinho do Porto, por exemplo. E, quando estive no Douro, vistando Dirk Niepoort, um produtor de lá, provei muita coisa realmente muito boa.


AL: O Sr já provou algum vinho brasileiro?
RB: Ainda não. Mas esta cerveja que estamos tomando é muito boa.


AL: O que o Sr espera do mercado brasileiro?
RB: Não sei muito o que esperar. É a primeira vez que meus vinhos estão aqui. Sei que é um mercado com potencial grande, que está em expansão. Sei também que bebem muitos vinhos do Chile e da Argentina. Daqui a um tempo saberei melhor, mas espero que meus vinhos tenham boa venda no Brasil. Sei que foi um namoro longo, mas estou feliz que meus vinhos estão aqui.


AL: Por que o Sr não faz corte de uvas ou mesmo um blend utilizando o que de melhor cada vinhedo pode produzir?
RB: É uma questão puramente filosófica. Eu acredito nos meus vinhos do jeito que eles são. Quero uma expressão pura da variedade da uva com o tipo de terroir de onde ela vem. Não me interessa perder este tipo de característica única de cada vinhedo. Em um lugar tenho um vinho mais frutado, no outro com mais especiarias e pimenta, no outro mais tanino. Gosto que cada vinho tenha uma expressão própria.


AL: Houve algum ano em que o Sr não ficou satisfeito com a colheita a ponto de não lançar o vinho?
RB: Houve sim, em 2000. Tivemos um ano atípico, um verão muito frio. Mesmo assim colhi as uvas e fiz o vinho, esperando que ele melhorasse na garrafa. O tempo foi passando e nada de o vinho melhorar. Eu não poderia lançar ao mercado aquele vinho. Tenho uma reputação a zelar. Então, quebramos as garrafas, uma a uma, para não corrermos o risco de algum engraçadinho encontrar nossas garrafas e vender a um mercado qualquer.


AL: Um prejuízo danado então...
RB: Mas é assim mesmo. Faço vinhos há 21 anos. E a cada ano, a bebida fica diferente. Quando acho que já sei tudo, acontece alguma coisa que me faz ver que ainda tenho muito o que aprender. Tudo influencia. O clima, a idade das vinhas, a quantidade de chuvas, de ventos. Nenhum ano é igual ao outro.


AL: Por que o Sr não produz mais vinhos brancos?
RB: Eu fazia, até o ano 2000, um chardonnay, fermentado em barrica, a moda da Borgonha, com grande capacidade de envelhecimento. Eram ótimos, mas não eram para o consumo rápido, como os consumidores estavam acostumados e o mercado não entendeu estes vinhos. Até o Robert Parker, que costuma gostar do que eu faço, caiu de pau em cima do vinho. Então, resolvi parar de fazê-lo. Mas, o engraçado é que, quando o Parker veio visitar a minha vinícola, abri pra ele uma garrafa de um destes chardonnays, já mais evoluídos. Quando o Parker provou, virou pra mim e disse ‘acho que eu estava errado’. Eu falei pra ele que, depois de ele me ferrar o mercado com notas péssimas praquele vinho, agora era tarde.


AL: E o Sr não pensa em voltar a produzir o chardonnay novamente?
RB: Nem pensar. Eu teria que começar a colheita quatro semanas antes, daria muito trabalho. Agora, quando quero um bom branco, fico na Borgonha e bebo uma garrafa de um corton-charlemagne ou de um montrachet mesmo.


AL: O Sr disse que críticas ruim de Robert Parker arruinaram o seu chardonnay. Como é a sua relação com os críticos de vinhos da Austrália?
RB: Acho que Deus faria um favor à Humanidade se todos os críticos de vinho australianos amanhecessem mortos. Eles não sabem nada.

sábado, 7 de agosto de 2010

Chantagem e morte na Borgonha

por Alexandre Lalas

A Domaine da La Romanée-Conti (DRC) é uma das vinícolas de maior prestígio no mundo. A empresa produz apenas quatro mil garrafas por ano. Os vinhos da empresa são disputados por endinheirados colecionadores e cultuados por enófilos do mundo inteiro. São sinônimo de elegância, qualidade e bom viver. Tal status desperta admiração de muitos, inveja de alguns e ganância de outros. Eis que em janeiro deste ano, Aubert de Villaine, o dono da Romanée-Conti, começou a receber cartas anônimas e ameaçadoras. O missivista exigia o pagamento de 1 milhão de euros (R$ 2,3 milhões) para não envenenar as vinhas da vinícola.

Em princípio, Aubert não deu muita importância ao fato. Até que o autor das cartas resolveu jogar mais pesado. Primeiro, mandou uma planta detalhada da localização dos vinhedos da domaine, com algumas vinhas específicas marcadas. E quando duas vinhas foram encontradas com as raízes afetadas por uma substância química, a polícia foi acionada.

Uma operação foi montada para a captura do chantageador. Diretores da DRC deixaram um pacote com notas falsas no lugar indicado pelo bandido. A polícia monitorava o local, e quando o larápio apareceu para pegar o dinheiro, foi preso em flagrante. Depois descobriu-se que o mesmo sujeito já havia tentado aplicar o golpe em outra vinícola da Borgonha, a Domaine de Vogue, que fica nas cercanias de Chambolle-Musigny.

Na ocasião, as autoridades francesas acharam por bem não revelar o nome do chantageador. Apenas nesta semana, o mistério foi desfeito. E o motivo da revelação foi uma tragédia. Jacques Soltys, de 57 anos, o acusado de tentar extorquir a DRC, foi encontrado morto na cela da prisão onde estava, em Dijon, na França. Segundo os carcereiros que encontraram o corpo, Soltys teria se enforcado.

O filho de Soltys, acusado de cumplicidade nos dois golpes, segue preso, aguardando julgamento, com a identidade resguardada. Ao ser informado da morte do sujeito que o tentou extorquir, Aubert de Villaine preferiu não comentar o fato. Apenas lamentou a morte de Soltys.

Um cordeiro para os pais

por Luciana Plaas

Domingo é Dia dos Pais. Nestas datas, não recomendo restaurante algum. É fila atrás de fila, trânsito, um caos. Mas para não deixar a data passar em branco, segue uma receita para quem preferir celebrar em casa mesmo. O cordeiro agrada a nove entre dez homens. E esta é uma receita do Jamie Oliver, daquelas que não tem erro e não dão trabalho algum. Atenção pois o prato requer um longo tempo de cozimento, que deixa a carne ainda mais macia e gostosa. Portanto se for fazer o cordeiro, programe-se.

Serve 6 pessoas
1 pernil de cordeiro
sal e pimenta
3 colheres de sopa de azeite de oliva
6 fatias de bacon
3 cebolas roxas, cortadas em quatro
3 dentes de alho, descascados e fatiados
2 mãos cheias de um mix de ervas (tomilho, alecrim e loro)
4 batatas grandes, descascadas e cortadas em quatro
1 aipo cortado em quatro
6 cenouras, descascadas e partidas ao meio
3 batatas baroa, descascadas e partidas ao meio
1 garrafa de vinho branco

Aqueça forno na temperatura de 170C. Tempere o pernil com pimenta e sal. Numa caçarola grande ou em um tabuleiro, doure o pernil com azeite até que fique dourado de todos os lados. Acrescente o bacon e as cebolas e por último alho. Continue fritando por mais 3 minutos. Coloque os vegetais e as ervas, o vinho e a mesma quantidade de água. Deixe ferver e cubra com papel laminado. Leve ao forno por 5 horas, até que fique macio. Tempere o molho que sair da carne. Prove. Sirva com os vegetais.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Na própria carne

por Alexandre Lalas

Bordeaux, na França, é uma das mais conhecidas e respeitadas regiões de vinho no mundo. Os vinhos tops de lá são vendidos a preços cada vez mais estratosféricos e são tidos e havidos como o que de melhor e de mais valioso existe sobre a bebida. Tanto que os principais châteaus passaram incólumes pela recessão econômica que assolou meio mundo. Mas estes são os tops, os primos ricos da região. Existe uma imensa maioria de produtores em Bordeaux, que produzem vinhos de custo bem mais baixo, e que de um tempo pra cá não sabem mais o que fazer para venderem os seus vinhos. Para esta gente, uma indústria que emprega cerca de 50 mil pessoas, a coisa está feia. E cortar na própria carne parece ser a única solução possível.



Na semana passada, os líderes do Conselho Vitivinícola de Bordeaux (CIVB) uma nova e ambiciosa estratégia para resolver o problema. O nome do plano é sintomático: Bordeaux Amanhã: a Reconquista. Otimistas, esperam, até 2018, aumentar a receita anual da indústria da região em 28%, chegando a 4,6 bilhões de euros (R$ 10,5 bilhões). Mas o sucesso da estratégia não está baseado apenas em operações agressivas de marketing, mas também na eliminação da produção de 110 milhões de litros, ou 12 milhões de caixas de vinho de baixa qualidade que são produzidos todos os anos em Bordeaux.



O problema da região não vem de hoje. De 2003 a 2007, apenas em exportações, Bordeaux deixou de vender cerca de 43 milhões de garrafas de vinho, o equivalente a 293 milhões de euros (R$ 674 milhões). Isso, antes mesmo de a crise econômica estourar. Para piorar a situação, mesmo no mercado interno a região perde prestígio a cada ano. O reflexo: queda nas vendas. E mesmo o fluxo de turistas nas cidades bordalesas só faz diminuir.



Para reverter este quadro, a aposta é subir a qualidade dos vinhos de baixo custo e investir em rótulos de fácil compreensão por parte dos consumidores. Tudo, claro, ancorado por uma campanha internacional de marketing. Pelas contas do CIVB, cerca de um terço dos produtores dos vinhos mais básicos de Bordeaux, que são vendidos aos atacadistas por menos de dois euros a garrafa, têm capacidade para melhorar a qualidade dos vinhos que fazem. Outro terço dos produtores de vinhos básicos, acreditam os diretores do Conselho, poderiam seguir fazendo brancos e rosados de baixo custo. E o outro terço das vinhas da região, de acordo com o CIVB deverão ser arrancadas. O fato riscaria do mapa 7% da área plantada e causaria uma diminuição de 26% do número de produtores da região. Bordeaux tem hoje, aproximadamente, nove mil produtores.



Não é a primeira vez que Bordeaux aposta em uma medida drástica como essa. Há alguns anos, uma tentativa de arrancar 10 mil hectares de vinha falhou feio. Na ocasião, a maioria esmagadora dos produtores recusou a proposta de 15 mil euros por hectare de vinha arrancada. Mas com o cenário ainda mais aterrador depois da recessão global, muitos produtores estão com a corda no pescoço. O que pode facilitar as coisas para a CIVB.



Outra forma de convencimento será o aumento das inspeções nos vinhedos e vinícolas para detectarem se os produtores estão seguindo as regras de qualidade estabelecidas pelo Conselho. Os que não estiverem dentro dos padrões exigidos, não terão direito a rotular os vinhos com o nome Bordeaux, o que seria ainda mais desastroso para estes produtores. Portanto, diante de tantas dificuldades, o pessoal da CIVB crê que ganhar dinheiro para arrancar vinhas pode até vir a ser mais lucrativo.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Pequenas porções, grandes prazeres

por Luciana Plaas

Como nasce um restaurante? Não existe uma fórmula exata cada um tem uma história. A que eu vou contar é, no mínimo, engraçada. Três sócios que já tinham um restaurante, que dava bons frutos. A chef estava inquieta querendo um segundo restaurante com uma proposta diferente do primeiro. A outra sócia estava grávida e só queria parir e amamentar tranquilamente. E o sócio fazia as contas e achava que as duas poderiam alcançar seus objetivos. Tentando buscar uma solução para inquietude da chef, os outros sócios disseram para ela tirar férias. Quando ela voltou, sabia exatamente o que queria. Um restaurante que servisse pequenas porções. Logo encontraram um casarão em Botafogo. O ex dono dizia que bastava jogar uma água que estaria tudo certo. Obviamente não era bem assim. A tal casa estava caindo aos pedaços. Uma boa reforma depois, nasceu o Oui Oui, irmão mais novo do Miam Miam. Na inauguração a sócia grávida estava com um barrigão que batia na parede, a chef com sorriso no rosto e sócio continuava fazendo as contas. Hoje o restaurante tem um ano. Já sabe ao que veio. A filha da sócia ainda não.

Quando fui a primeira vez ao restaurante, logo que abriu, pensei que seria um desses lugares super descolados que só vai gente jovem. Hoje vejo que estava errada. É um restaurante de bairro. Continua sendo descolado, mas vai gente de todas as idades.

Essa semana voltei ao Oui Oui. Comi de me fartar. Éramos quatro na mesa. Começamos com brulé de grana padano (R$ 22,50), que vinha com um pãozinho, que é receita da avó da chef. Realmente tem coisas que correm na família. Que pão gostoso, receita de vó mesmo! O grana padano fica muito legal e é divertido comido assim. Depois comi a truta grelhada coberta de alho-poró e amêndoas (R$ 26,80), me desanimei, porque tinha comido o peixe no dia anterior. Mas esta truta estava bem melhor do que a do dia anterior, cheia de sabor e no ponto certo.

Em seguida, cogumelos frescos marinados no limão siciliano (R$ 17,60). Tenho um problema com limão siciliano. Acho que ele rouba bastante o gosto da comida. Mas tenho certeza que esse prato é o preferido de muita gente. Depois provei os camarões e pupunha gratinados com zabaione (R$ 29,80). Esse prato poderia comer inteiro e sozinha. Fiquei intrigada por que a Roberta Ciasca brinca tanto com a textura de sobremesas tradicionais em forma de pratos salgados? A resposta dada pela Danni, a outra sócia do Oui, é que ela não gosta de fazer doces então faz pratos salgados baseados nas sobremesas. Gostei a brincadeira.

Estávamos prontos para a segunda rodada de pratinhos. O vol au vent de rabada com mascarpone (R$ 26,80) estava gostoso, a porção no tamanho certo para não dar tempo de enjoar. O crostini de cordeiro, tomates assados e pesto de coentro (R$ 28,30) me levou lá pro Marrocos. A carne com os tomates e o pesto coentro deram um balangandã ao prato. Já o risoto de legumes com mascarpone e pesto de ervas (R$ 17,90) não me encantou tanto, apesar de tudo estar correto.

Provamos ainda o mignon em marinada de capim limão (R$ 22,10). Ficou macio e com gosto de capim limão mesmo. Comemos também uma frigideira de batatinhas com bacon (R$ 16,50). As batatas são cortadas no mesmo tamanho do bacon e ficam com uma textura parecida depois de fritos. Crocantes até a última mordida. Até a vegetariana da mesa aprovou. Por falar nela, ela ganhou uma salada de quinoa com cogumelos frescos, legumes crocantes e azeite trufado (R$ 22,50). Fiquei com vergonha, mas não conseguia parar de comer a salada da coitada. Foi a primeira vez que comi algo com azeite trufado que não me incomodou. Devo concluir que o fato de não ser quente contribuiu bastante. Estava fresco, com a vagem crocante, junto com a cenoura ralada.

Terceira e última rodada: palitos de doce de leite com coco e creme inglês (R$ 16,80), cálices de tapioca com manga e coulis de frutas amarelas (R$ 15,90), e beignets de banana com papaya e creme de maracujá (R$ 14,80). Como a Roberta não curte fazer sobremesas, convidaram a chef pâtissier Ana Rosa Ippoliti, que é argentina para resolver esse problema. E ficou tudo certo. Como já haviam pedido os palitos, optei pelo cálice de tapioca, sem nenhuma expectativa. E como foi bom quebrar a cara. O maracujá com a manga e a tapioca, combinaram com tanta delicadeza que até parecia que já eram íntimos. Os palitos são gostosos, um clássico adorado por todos. Mas eu não sou muito fã de doce de leite com coco. Em compensação, estava difícil para de comer os beignets de banana. Estava tudo tão bom, que fiquei feliz por ninguém ter tido a infame ideia de eleger o melhor prato da noite. Para mim, seria impossível escolher.


Oui Oui
Rua Conde de Irajá, 85
Botafogo
Tel.: (21) 2527-3539

sábado, 24 de julho de 2010

Recompensa aos peregrinos

por Luciana Plaas

Sábado passado tive um dia intenso de peregrinação por lojas de decoração. Foi um entra e sai de estacionamentos, sobe e desce de escadas, filas e mais filas. Quando entramos no carro e finalmente sentamos, senti que estava cansada e, o pior, faminta. Fiz uma pergunta singela: "alguém está com fome?". Minha sogra respondeu que sim. Ufa, que alívio, pensei. O Alexandre disse que tomaria uma sopinha. Que desgosto. O primeiro pensamento que me veio a cabeça foi a sopa de milho, do restaurante Bazzar, em Ipanema. Vou morrer de fome, pensei, estamos do outro lado da cidade. Foi quando lembrei que estávamos muito perto do Mercado Produtor.

Só tinha ido ao Mercado durante o dia. Tudo parece muito diferente à noite. Falta aquela alegria das barraquinha de peixe, aquele movimento todo. Mas tínhamos que escolher, e rápido, algum lugar para comer. Entre os restaurantes do local, optamos pelo La Plancha.

Sentamos e fomos logo pedindo o caldinho de sururu, antes mesmo das bebidas. O garçom disse que tinha acabado. Que tristeza! Escolhemos então o caldinho de frutos do mar (R$ 18,50). Logo perguntei ao garçom se demorava muito, tamanha era a minha fome. Ele disse que era feito na hora. Resposta certa, mas não a que eu queria ouvir naquele momento. Conversa vai, conversa vem, o Alexandre solta a frase que eu esperava: "aqui tem uma lagosta e uma cavaquinha maravilhosas, alguém se anima?" Todos nos animamos. Perguntamos ao garçom o que estava melhor, a lagosta ou a cavaquinha? Lagosta foi a resposta. Seguimos a sugestão do garçom e pedimos o prato (R$ 148) para dividirmos entre os três.

Quinze minutos depois, chegaram os caldinhos. A aparência nunca é muito boa, mas o cheiro estava diabólico de tão bom e o pote era enorme. Estava super quente. Ainda isso, depois de esperar ficar pronto, agora tinha que esperar esfriar, para não queimar a língua. Mas ter paciência é uma tarefa difícil quando se está com fome. Mesmo quente, encarei o caldo. Estava divino. No final já nem usava a colher, virei o potinho mesmo. Que satisfação. Com aquele friozinho então, caiu muito bem. Quando pensei que nos precipitamos em pedir as lagostas, coisa de gente esfomeada, elas chegaram.

Sempre tenho medo de pedir lagosta. Muitas vezes não vem no ponto certo. A do La Plancha, grelhada, na brasa, somente com manteiga, veio no ponto. O prato dava direito a um acompanhamento. Pedimos arroz de brócolis. Estava bom.

Na volta pra casa, pensei que para fazer toda aquela peregrinação em lojas novamente, só mesmo se me prometessem uma recompensa tão boa quanto aquele caldinho e aquela lagosta.

La Plancha 148
Av. Ayrton Sena, 1791 - boxes 7 a 10
Barra da Tijuca - Rio de Janeiro
Telefone: (21) 3325-3383

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Tesouro no Mar Báltico

Cerca de 30 garrafas de champanhe de 1780 foram encontradas por um grupo de mergulhadores no Mar Báltico, entre a Suécia e a Finlândia, em um barco naufragado no local. Segundo o instrutor de mergulho Christian Ekstrom, responsável pelo achado e o primeiro a provar o espumante, a bebida está em perfeitas condições e tem um “sabor maravilhoso”.

Caso a bebida realmente ainda possa ser consumida, cada garrafa pode valer até 50 mil euros, cerca de R$ 115 mil. Para tanto, as rolhas terão que estar ainda intactas e a autenticidade do champanhe terá que ser comprovada. Amostras do espumante foram enviadas para análise em laboratórios na França.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A volta ao mundo da Decanter

por Alexandre Lalas

Todo bom enófilo adora uma feira de vinhos. Pudera. É a oportunidade de provar uma infinidade de rótulos, de inúmeros produtores, de variadas regiões, estilos e preços. É uma alegria só. Em junho, a importadora Mistral promoveu o encontro anual dos produtores que fazem parte do catálogo da empresa. Foi um baita evento. Em agosto será a vez de outra importadora fazer o show. A caravana da Decanter vai passar por quatro cidades brasileiras. No Rio, a festa vai rolar no dia 2 de agosto, no Sofitel, na praia de Copacabana. A entrada custa R$ 180 e está a venda na loja Espírito do Vinho (2286-8838), na Cobal do Humaitá. Quem quiser ir é bom garantir logo o ingresso. As vagas são limitadas.

Esta será a terceira edição da feira da Decanter. Neste ano, 70 produtores de 12 países estarão apresentando centenas de rótulos. Muitos deles, novidades no mercado nacional. Para facilitar a vida dos leitores, a coluna preparou um pequeno guia com o que de melhor há para provar no evento.


Viña Alicia: Vinícola argentina de butique, produz vinhos superlativos, raros e sempre muito bem pontuados. Não deixe de provar o Brote Negro, um malbec de qualidade excepcional, e o Cuarzo, feito a base de petit de verdot e um dos grandes vinhos do país. Outra dica: vale a pena passar um tempo conversando com a proprietária da bodega, Dona Alicia Arizu. É sempre uma aula, de vinho e de vida.

Riglos: Outra vinícola argentina que impressiona pela qualidade. O sócio da empresa, Fabián Suffern, vai estar atrás do balcão conversando com os convidados. Entre os vinhos da Riglos, destaque para o Gran Corte.

El Principal: Vinícola chilena do Alto Maipo, produz vinhos de qualidade em todos os níveis de preço. Entre os tops, destaque para o El Principal, corte de cabernet-sauvignon e carmenère.


Villard: Um sauvignon blanc e um syrah são os destaques desta pequena vinícola chilena. O Expresíon é um dos bons vinhos feitos com a sauvignon blanc no país. Já o Tanagra é um syrah de grande qualidade, feito no frio vale de Casablanca. Um dos melhores produzidos com a cepa no Chile.

Bouza: Dois vinhos desta pequena bodega uruguaia chamam a atenção: um curioso albariño e um raro corte de tannat, merlot e tempranillo, o Monte Vide Eu.

Alain Brumont: Um dos mais importantes produtores do Madiran, no sudoeste francês, Brumont é uma das estrelas da feira. Vinhos sempre muito bem feitos, desde o bom e barato corte de gros manseng e sauvignon ao caro e raro Montus La Tyre. Tudo é bom. Imperdível: o Brumaire Pacherenc Du Vic Bilh Doux, branco doce espetacular.

Domaine Pierre Labet: François Labet é o proprietário da Domaine e também do Château de La Tour (não confundir com o Latour de Bordeaux), ambos da Borgonha. Excelente papo, grande figura e produtor de vinhos de primeira linha. O Clos Vougeot feito por ele é uma obra-prima. E mesmo os borgonhas genéricos estão furos acima da maioria dos pares. Visita indispensável e prove toda a linha.

Pio Cesare: Produtor italiano, do Piemonte. Vinhos grandiosos e caros. Mais um daqueles em que vale a pena provar a linha inteira. Mas, se não houver tempo para tanto, não perca o Piodilei, chardonnay vigoroso; e os barolos da casa.

San Fabiano Calcinaia: Guido Serio, torcedor fanático da Fiorentina, deve estar um tanto aborrecido com o fracasso da Azzurra na Copa. Portanto, vamos dividir nossas mágoas com o futebol brindando com um dos bons vinhos desta cantina da Toscana. Destaque para o Cerviolo.


Tommaso Bussola: Italiano do Vêneto, faz amarones como poucos. O Vigneto Alto é um dos melhores vinhos da Bota que tive o prazer de provar.

Pieropan: Outro do Vêneto. Aqui, os destaques são os brancos. Em especial, o La Rocca. Vale a passada.


Domingos Alves de Sousa: Papo de primeira, vinhos idem. Português estabelecido no Douro, faz vinhos de tudo quanto é tipo, para todos os gostos e bolsos. Vale fazer o passeio completo, até para descobrir do quanto Seu Domingos é capaz.


Anselmo Mendes: Português do Minho, um dos papas da alvarinho. O Muros de Melgaço é um absurdo de bom.


Quinta dos Roques e Quinta das Maias: Vinícolas irmãs do Dão, com muitos rótulos de qualidade. Destaque para o Roques Encruzado e para o Maias Jaen.

Dona Maria: Júlio Bastos é um dos craques do Alentejo. Durante muito tempo foi o dono da Quinta do Carmo. Quando vendeu a propriedade, manteve em seu poder as vinhas mais antigas. E é delas que saem as uvas para o Dona Maria. Novidade da Decanter, é imperdível.

Arzuaga: Na Ribera del Duero, Ignacio Arzuaga produz algumas joias da Espanha. Outro estande em que a vale a pena provar de tudo. Se a pressa imperar, não perca o Gran Arzuaga.

Frank Künstler: Bodega alemã do Rheingau, super premiada mundo afora. Uma bela amostra da capacidade que a riesling tem de gerar grandes vinhos. O Erstes Gewächs é extraordinário.

Pendits: Para terminar com chave de ouro a visita à feira, é indispensável passar no estande desta vinícola húngara e provar o magnífico Tokaji Aszú 6 Puttonyos. Simplesmente, um dos grandes vinhos brancos doces do mundo.

Decanter Wine Show
Ingresso: R$ 180
Rio de Janeiro - 2 de agosto, Sofitel
São Paulo - 3 e 4 d agosto, Grand Hyatt
Belo Horizonte - 5 de agosto, Buffet Catharina
Florianópolis - 6 de agosto, Majestic Plaza 
www.decanter.com.br

Bom desde os tempos de Garrincha

por Luciana Plaas

Há quantos anos você não vai ao Plataforma? Eu não ia fazia tempo. Desde a época em que Garrincha conduzia a casa, frequentada quase diariamente por Tom Jobim. Até duas semanas atrás, quando fui depois do jogo Brasil contra Costa do Marfim, na primeira fase da Copa do Mundo. Depois disso, voltei ao restaurante nesta semana.

Quando fomos depois do jogo, éramos um grupo grande. Estávamos famintos. Avisamos ao garçom que trouxesse tudo. O couvert, (pães de queijo, torradas, manteiga, patê e azeitona; R$14,00), lingüiça (R$6,00 a unidade), e o que mais tivesse por vir. As cestas de pão de queijo foram chegando e acabando rapidamente. Quentinhos, uma gostosura. A esta altura, parecia que estávamos comendo por comer, um atrás do outro. Mas a linguiça, mesmo com toda a fome que eu estava, não me agradou. Estava passada. Sensação que repetiu-se da última vez que estive no Plataforma.

Na hora de escolher os pratos, pedi ajuda ao garçom. Ele me sugeriu o steak ao sal grosso (R$62 para uma pessoa e R$95 para duas). Embora a fome fosse grande, Alexandre e eu decidimos dividir uma porção individual. Estava divino, macio, no ponto que pedimos. Outras pessoas do grupo pediram o T-bone (R$56,00) que parecia bom também. Quem optou pelo o babybeef (R$54,00) não ficou tão feliz. Chegamos a conclusão de que os garçons que indicam o filé ao sal grosso estão certíssimos. Realmente é o melhor prato da casa.

Cada prato dava direito a um acompanhamento. Escolhemos batatas suflê, creme de espinafre, e farofa de ovo com banana . Os acompanhamentos eram simplesmente, acompanhamentos. Nada de especial.

Pedimos duas sobremesas para dividirmos. Banana flambada (R$24,00) e Cup Camargo (creme de abacate, R$16), que pedimos que fosse servido com Frangelico. Todos na mesa gostariam de uma colherada a mais.

Quando voltei ao restaurante, convidada por uma importadora de vinhos, não tive chance de escolher o que queria. A carne servida foi a picanha. Não estava lá grande coisa. Ou seja, no Plataforma, como em tantos lugares o garçom sabe exatamente o que indicar. Portanto, para quem for ao Plataforma melhor ficar no Steak ao sal grosso. Continua ótimo.

Plataforma
Rua Adalberto Ferreira, 32
Leblon
Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2274.4022
www.plataforma.com

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Na Copa e na cozinha

por Luciana Plaas

Demorei bastante tempo para ir até o restaurante Eñe, em São Conrado. Ao meu ver, quando um restaurante abre é muito difícil avaliar como ele realmente vai ser. É preciso dar tempo para a cozinha se acertar e o serviço ficar afiado. Antes de seis meses, não acho justo qualquer crítica. Logo quando o Eñe abriu, ouvi comentários contra e a favor da casa. Por isso, esperei até que parassem de falar um pouco de lá para ir e tirar as minhas próprias conclusões.

Era sábado e nossa mesa, de sete. Nada melhor do reunir vários amigos de uma vez só. Se a mesa é redonda então, todo mundo fica feliz. Como a maioria de nós estávamos indo ao Eñe pela primeira vez, o maître sugeriu o Gran Menu Degustação (R$140,00).

Começamos no melhor estilo espanhol: o couvert da casa, que tem pão, linguiças e chouriço, regados por um azeite maravilhoso (R$14,00). Daí por diante os pratos vieram num ritmo contínuo e preciso. Lembrando que era uma sábado e o restaurante estava lotado.

O primeiro prato foi o Tartar de pescados com ovas de peixe voador. Além de lindo era uma delicadeza só. Acidez no ponto certo. Começamos bem, pensei.

O segundo foi o Ravioli de castanhas de caju, foie gras e azeitonas pretas. Um ravióli grande com um caldo bem saboroso. Achei um pouco doce demais. Culpa de castanha.

Depois veio o Olhete com crosta de fideus e ceviche de melancia. Outro prato muito bonito. Adorei a crosta de fideus, uma espécie de massa bem fininha. Deu uma crocância boa ao peixe. Por sinal, este nem me encantou tanto assim. Em compensação, poderia comer um prato inteiro do ceviche de melancia.

O próximo prato foi o Ensopado de alcachofra com panceta e caldo de carne. Estava divino. A mesa inteira gostou. Parecia que seria o eleito da noite. Até que nos serviram o último prato: Leitão crocante com maçã. Fui às nuvens. Um delírio. Como é bom comer um porquinho bem feito e crocante.

Mas, uma das pessoas da mesa, que não come carne, escolheu o Arroz negro com lagostim e lula. Todos provamos o prato dela. Coitada, quase não sobrou nada, de tão bom que estava. Da próxima vez, este prato será uma das minhas escolhas. O bom de um menu degustação é justamente o fato de podermos provar uma série de pratos diferentes. Por alguns nos apaixonamos, por outros, nem tanto. O que vale é a surpresa.

Como estávamos bebendo vinho, seguimos com queijos. Aliás contamos com o serviço impecável e a presença elegante da sommelière Cecília Aldaz.

Para terminar veio a sobremesa: Turrón gelado de amêndoas. Muito gostoso.
Realmente os espanhóis, quinhentos anos depois de dividirem o globo com Portugal, estão querendo reconquistar o mundo. Na culinária, nos vinhos e até no futebol.

Eñe - Hotel Intercontinental
Avenida Prefeito Mendes de Morais, 222
São Conrado
TEL. (21) 3322-6561
www.enerestaurante.com.br

De portas abertas

por Alexandre Lalas

Era uma vez um país. Nasceu como reino em 1929 e foi esfacelada por diversas ocupações em 1941 para renascer como república em 1945. Era a Iugoslávia. Comandada por Josip Broz Tito, o idolatrado Marechal Tito, de 1945 a 1953 como primeiro-ministro e de 1953 até a morte, em 1980, como presidente. Tito foi capaz de manter unida uma região famosa pelo histórico de conflitos. Durante o período em que o Marechal deu as cartas, dizia-se que a Iugoslávia era um país formado por seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um partido. Embora fosse socialista, mantinha independência da poderosa União Soviética. Mas Tito morreu em 1980 e a frágil união que mantinha a Iugoslávia de pé começou a ruir. Até que em 1991 o país desintegrou-se de vez. Eslovênia e Croácia foram as primeiras repúblicas a proclamarem independência. Depois veio a Macedônia. Em seguida a Bósnia-Herzegovina. E, na sequência, veio a guerra.

Naquela altura, a indústria vinícola da Iugoslávia era forte. E o país era um dos maiores exportadores do mundo de vinho por atacado. Exuberante em quantidade, não era famosa exatamente pela qualidade. Mas a tradição de vinhos sobreviveu a anos de guerra e à divisão do país. E, depois de uma longa visita ao fundo do poço, vinícolas de repúblicas que faziam parte da antiga Iugoslávia já chamam a atenção da Europa e do mundo para o que é feito ali. E, melhor ainda, desta vez é pela qualidade da bebida. E não pelo volume de litros.

Das ex-repúblicas iugoslavas, três se destacam na produção de vinhos: Croácia, Eslovênia e Macedônia. E com uma produção voltada majoritariamente para a qualidade, a Eslovênia é que produz os vinhos mais interessantes. Situada entre os Alpes e o Adriático, o país tem três regiões produtoras: Podravje, Posavje, e Primorje. A produção anual varia entre 800 mil e 900 mil hectolitros, esparramados em 21.600 hectares. Ou seja, em uma área quase duas vezes maior, a Eslovênia faz cerca de metade da quantidade do vinho que é produzido em Bordeaux, na França.

Podravje é a maior das regiões vinícolas eslovenas e conhecida especialmente pelos ótimos vinhos de sobremesa que produz e por brancos de altíssima qualidade. Fica entre as fronteiras com Áustria e Hungria e é dividida em seis áreas: Maribor, Radgona-Kapela, Srednje Slovenske Gorice, Haloze, Ljutomer-Ormoz, e Prekmurske Gorice. De influência mais francesa, e focada em vinhos de corte, especialmente brancos, Posavje é famosa pela imensa variedade de solos. Apenas em Bela Krajina, uma das quatro sub-regiões de Posavje, existem 22 tipo de solo. Região fronteiriça com a Itália e que mais sofre a influência mediterrânea, Primorje produz vinhos minerais, de média acidez e ricos em aromas. Embora seja a única região que produza tintos e brancos na mesma quantidade, são os brancos mesmo é que se destacam no cenário internacional.

Embora ainda esteja relativamente atrasado em comparação aos eslovenos, o vinho croata não para de crescer. E conta até com uma estrela mundial. Mike Grgich é um dos grandes enólogos do mundo. Em 1973, quando morava nos Estados Unidos, Mike foi o enólogo responsável pela produção do Château Montelena Chardonnay, que, três anos mais tarde, seria eleito o melhor vinho branco em uma prova às cegas realizada na França, entre vinhos franceses e americanos, no que ficaria conhecido mundialmente como O Julgamento de Paris. Na Croácia, Mike produz vinhos de altíssima qualidade. E é um estudioso da plavac mali, casta autóctone croata, prima-irmã da zinfandel.


A Croácia é divida em duas regiões principais, a costeira e a interiorana. Cada uma delas é subdivida em diversos pequenos distritos. Ao todo, a Croácia tem cerca de 300 áreas definidas para a produção de vinhos. No interior, os brancos são a maioria absoluta. A casta mais plantada é a graševina, que gera vinhos leves, de acidez elevada e mediamente aromáticos. No litoral, a imensa quantidade de ilhas e colinas criam uma infinidade de microclimas. Variedades bordalesas como cabernet-sauvignon e merlot são as mais plantadas junto com uvas autóctones como a plavac mali.

Embora ainda esteja um degrau abaixo do que fazem eslovenos e croatas, os vinhos da Macedônia não deixam de ser interessantes. O país tem três regiões produtoras: Povardarie, no centro do país; Pchinya – Osogovo, ao leste; e Pelagonia – Polog, a oeste. A maior é mais importante é Povardarie, que concentra 85% da produção do país. Entre os vinhos macedônios, vale a pena conhecer os feitos com a vranec, uva tinta típica de lá, que gera vinhos ricos em aromas, de boa estrutura e de grande carga tânica. Outra uva local interessante é a branca zilavka, que gera vinhos pouco aromáticos, mas cheios de volume e estrutura na boca.

Por enquanto, ainda não existem vinhos de nenhuma das ex-repúblicas iugoslavas no Brasil. Mas, em feiras realizadas na Europa, alguns importadores provaram coisas interessantes destes países e novidades podem em breve chegar ao nosso mercado. Estaremos esperando com as portas abertas.

Vinho da semana:
Piodilei Chardonnay Langhe 2007
Piemonte, Itália
De um pequeno vinhedo em Barbaresco vem as uvas, colhidas sempre bem maduras, para este vinho, um dos grandes brancos italianos. Intenso e rico no nariz, com notas de pêssego, abacaxi, especiarias e amêndoas. Na boca, tem boa estrutura, é macio, fresco e persistente.
Nota: 9
Preço: R$ 227,10
Onde: Decanter (2286-8838)

Barato bom:
Birilo 2005
Toscana, Itália
A Grand Cru vai parar de importar este vinho, leve, fresco e saboroso corte de cabernet-sauvignon, merlot e sangiovese. Por este motivo, as garrafas que ainda existem na loja estão em promoção, com os preços quase pela metade. Corra, antes que acabe.
Nota: 8
Preço: R$ 39
Onde: Grand Cru (2511-7045)

sábado, 3 de julho de 2010

Respirar é preciso

por Alexandre Lalas

Muitas vezes quando abrimos uma garrafa de vinho, a bebida está quase sem aromas. No jargão dos enófilos, dizemos que o vinho está fechado. Nestes casos, recomenda-se colocar o líquido em um decanter para que o contato com o oxigênio liberte os aromas da bebida. Dizemos, então, que o vinho está abrindo. Dependendo do rótulo, leva tempo para que o vinho abra. Com a promessa de diminuir esta espera, surgiram os aeradores.

De um tempo para cá, o mercado de vinho tem sido invadido por estes produtos. Duas versões já estão disponíveis nas lojas e sites de vinho, outro está a caminho e ainda há um aerador francês que promete transformar qualquer vinho jovem em um ancião centenário em questão de segundos.

Para entender alguns destes produtos, a Confraria dos Nove se reuniu, na semana passada, para avaliar alguns dos aeradores disponíveis no mercado. O mesmo vinho foi provado, às cegas, em seis diferentes versões: passando pelo Vinturi, pelo The Wine Finer, pelo Oxyger De Vin, usando a Clef du Vin, um decanter normal e abrindo a garrafa sem aerar.

Participaram da degustação, além do colunista, a sommelière Cecilia Aldaz, do Eñe; o chef Danio Braga, da Loccanda; Paulo Nicolay, vice-presidente da SBAV-RJ; Ricardo Farias, diretor da ABS-RJ; a crítica de gastronomia Luciana Plaas e o empresário Duda Zagari, da Confraria Carioca, loja que cedeu os vinhos para a prova. A degustação foi realizada no Lorenzo Bistrô, no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio de Janeiro e o serviço foi conduzido com eficiência pelo dublê de garçom e sommelier Radamés Chinemann.

O teste foi feito primeiro com o espanhol Petit Grealo 2004, vinho espanhol sem passagem em madeira. A mesma prova foi repetida em seguida com o também espanhol Pujanza 2005, que tem estágio de 18 meses de barricas de carvalho. Foram conferidas notas de zero a dez para cada uma das versões dos dois vinhos. Só que mais importante do que estabelecer um vencedor da degustação foi avaliar o comportamento de cada aerador com os diferentes vinhos. E, finda a degustação, a principal conclusão foi de que ainda é preciso estudar, e muito, o assunto.

Abaixo, o desempenho de cada um dos aeradores nas duas provas:

Clef du Vin: produto francês, desenvolvido pelo sommelier Franck Thomas e pelo químico Lorenzo Zanon. É uma espécie de chave, com uma liga de metal, que promete “envelhecer” o vinho através de uma rápida oxigenação, promovida por reação química aos tais metais. Segundo o fabricante, cada segundo da chave em contato com o vinho, em dose de 10 cl, equivale a um ano de envelhecimento. Na prova, a chave ficou dois segundos em contato com o líquido.

No vinho sem passagem por madeira, o desempenho da Clef du Vin foi sofrível e obteve a pior nota para os degustadores. Já quando foi usada no vinho com envelhecimento em barricas de carvalho, a geringonça teve um resultado melhor: foi a que obteve a maior nota dos provadores. Ou seja, para vinhos sem madeira, não vale a pena usar o acessório. Não disponível no Brasil, custa US$ 129 no site www.vinetpassion.com.

Oxyger De Vin e Vinturi: Ambos funcionam seguindo o mesmo princípio: o aumento da velocidade de um fluido em movimento provoca a diminuição de sua pressão. Ambas as peças têm dois pequenos furos laterais, que sugam o ar para dentro do aerador e aumenta a oxigenação do vinho. Na prova, o americano Vinturi saiu-se um pouco melhor do que o brasileiro Oxyger de Vin, em ambos os vinhos. Porém, as médias dos dois produtos foram muito próximas. E, em ambos os casos, os vinhos ficaram melhor do que fossem servidos diretamente da garrafa para a taça. O Vinturi está a caminho do Brasil e custará cerca de R$ 120. Já o Oxiger de Vin é vendido no site Artesanato do Vinho (www.artesanatodovinho.com.br) e custa R$ 100.

The Wine Finer: Desenvolvido pelo designer dinamarquês Marcus Vagnby, funciona além de aerador, como filtrador e corta-gotas. Telas muito finas de aço inoxidável filtram a bebida que passa por 32 micro aeradores na hora em que o vinho é servido. Na prova, o Wine Finer saiu-se bem melhor com o vinho barricado, quando obteve a segunda maior nota. Na bebida sem passagem em madeira, em compensação, o Wine Finer ganhou apenas da Clef de Vin. Custa R$ 199 e é vendido na Spicy, e nos sites do Ponto Frio e do Extra.

Vale lembrar que o bom e velho decanter, cujos aeradores prometem aposentar, saiu-se muito bem com os dois vinhos.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Cenoura mecânica

por Luciana Plaas

 Para manter a tradição que tem dado certo nesta Copa, procurei uma receita holandesa para o jogo de hoje. A culinária sem dúvida não é das habilidades mais notáveis dos holandeses. Cheguei a encontrar uma receita de hutspot, uma carne cozida, cortada em cubos e misturada com purê de legumes (cenoura, feijão branco, batata e cebola). Este prato costuma ser servido com cerveja. Mas não me empolguei com a receita. Mas para não deixar os supersticiosos de plantão de cabelo em pé, resolvi o problema justamente pelo que a seleção holandesa tem de mais marcante: a cor laranja. Vou fazer um bolo de cenoura bem laranja e, por via das dúvidas, abrir o apetite antes com alguns queijinhos bem holandeses: Gouda, Edam e Leyden.

Receita do bolo de cenoura

Assadeira redonda de 20 cm

250 ml óleo vegetal
4 ovos batidos
225g açúcar mascavo
140g de cenoura sem casca e ralada
225g farinha com fermento
½ colher de chá de bicarbonato
1 ½ colher de chá de canela

Cobertura
45g de manteiga sem sal (fora da geladeira)
170g cream cheese
300g açúcar de confeiteiro
1 colher de chá de essência de baunilha

1 Acenda o forno na temperatura de 180C. Unte a assadeira.
2 Numa vasilha, misture o óleo, os ovos, o açúcar e a cenoura.
3 Peneire a farinha, o bicarbonato de sódio a canela em uma outra vasilha.
4 Misture os ingredientes das duas vasilhas.
5 Coloque na assadeira. Asse por aproximadamente 35 minutos.
6 Faça o teste do palito de dente para saber quando está bom. Enfie no meio do bolo se o palito sair limpo está pronto.
7 Para a cobertura, bata a manteiga e o cream cheese até que forme uma mistura homogênea . Peneire o açúcar por cima da mistura da manteiga e com o cream cheese. Acrescente a baunilha.
8 Quando o bolo esfriar coloque a cobertura por cima.

Até o próximo jogo.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ceviche chileno

por Luciana Plaas

Para manter o ritual que tem dado certo nesta Copa, uma receita de um prato bem típico chileno, nossos adversários no jogo de logo mais, o ceviche. Esta receita serve quatro pessoas

Ingredientes:

450g de filé de peixe (tamboril, salmão ou atum) cortado em tirinhas
Suco de limão de 2 limões
1 colher de azeite extra virgem
1 pitada de pimenta vermelha
1 pimenta fresca ardida cortada bem pequena e sem semente
1 colher de sopa de cebolinha picada
1 abacate partido e cubos
1 tomate partido em cubos sem semente
Sal e pimenta a gosto

Modo de preparo

1 Coloque o peixe cortado, a cebola, ao suco de limão, o azeite, a pimenta vermelha e a ardida e metade da cebolinha cortados em uma vasilha. Mexa ocasionalmente. Se o peixe estiver cortado em tirinhas bem finas levara 3 minutos. Estará pronto quando o peixe ficar com uma tonalidade opaca.
2 Tempere com pimenta e sal. Arrume o ceviche com o abacate e tomate.
3 Sirva salpicado com o restante da cebolinha.