sexta-feira, 9 de julho de 2010

Na Copa e na cozinha

por Luciana Plaas

Demorei bastante tempo para ir até o restaurante Eñe, em São Conrado. Ao meu ver, quando um restaurante abre é muito difícil avaliar como ele realmente vai ser. É preciso dar tempo para a cozinha se acertar e o serviço ficar afiado. Antes de seis meses, não acho justo qualquer crítica. Logo quando o Eñe abriu, ouvi comentários contra e a favor da casa. Por isso, esperei até que parassem de falar um pouco de lá para ir e tirar as minhas próprias conclusões.

Era sábado e nossa mesa, de sete. Nada melhor do reunir vários amigos de uma vez só. Se a mesa é redonda então, todo mundo fica feliz. Como a maioria de nós estávamos indo ao Eñe pela primeira vez, o maître sugeriu o Gran Menu Degustação (R$140,00).

Começamos no melhor estilo espanhol: o couvert da casa, que tem pão, linguiças e chouriço, regados por um azeite maravilhoso (R$14,00). Daí por diante os pratos vieram num ritmo contínuo e preciso. Lembrando que era uma sábado e o restaurante estava lotado.

O primeiro prato foi o Tartar de pescados com ovas de peixe voador. Além de lindo era uma delicadeza só. Acidez no ponto certo. Começamos bem, pensei.

O segundo foi o Ravioli de castanhas de caju, foie gras e azeitonas pretas. Um ravióli grande com um caldo bem saboroso. Achei um pouco doce demais. Culpa de castanha.

Depois veio o Olhete com crosta de fideus e ceviche de melancia. Outro prato muito bonito. Adorei a crosta de fideus, uma espécie de massa bem fininha. Deu uma crocância boa ao peixe. Por sinal, este nem me encantou tanto assim. Em compensação, poderia comer um prato inteiro do ceviche de melancia.

O próximo prato foi o Ensopado de alcachofra com panceta e caldo de carne. Estava divino. A mesa inteira gostou. Parecia que seria o eleito da noite. Até que nos serviram o último prato: Leitão crocante com maçã. Fui às nuvens. Um delírio. Como é bom comer um porquinho bem feito e crocante.

Mas, uma das pessoas da mesa, que não come carne, escolheu o Arroz negro com lagostim e lula. Todos provamos o prato dela. Coitada, quase não sobrou nada, de tão bom que estava. Da próxima vez, este prato será uma das minhas escolhas. O bom de um menu degustação é justamente o fato de podermos provar uma série de pratos diferentes. Por alguns nos apaixonamos, por outros, nem tanto. O que vale é a surpresa.

Como estávamos bebendo vinho, seguimos com queijos. Aliás contamos com o serviço impecável e a presença elegante da sommelière Cecília Aldaz.

Para terminar veio a sobremesa: Turrón gelado de amêndoas. Muito gostoso.
Realmente os espanhóis, quinhentos anos depois de dividirem o globo com Portugal, estão querendo reconquistar o mundo. Na culinária, nos vinhos e até no futebol.

Eñe - Hotel Intercontinental
Avenida Prefeito Mendes de Morais, 222
São Conrado
TEL. (21) 3322-6561
www.enerestaurante.com.br

De portas abertas

por Alexandre Lalas

Era uma vez um país. Nasceu como reino em 1929 e foi esfacelada por diversas ocupações em 1941 para renascer como república em 1945. Era a Iugoslávia. Comandada por Josip Broz Tito, o idolatrado Marechal Tito, de 1945 a 1953 como primeiro-ministro e de 1953 até a morte, em 1980, como presidente. Tito foi capaz de manter unida uma região famosa pelo histórico de conflitos. Durante o período em que o Marechal deu as cartas, dizia-se que a Iugoslávia era um país formado por seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um partido. Embora fosse socialista, mantinha independência da poderosa União Soviética. Mas Tito morreu em 1980 e a frágil união que mantinha a Iugoslávia de pé começou a ruir. Até que em 1991 o país desintegrou-se de vez. Eslovênia e Croácia foram as primeiras repúblicas a proclamarem independência. Depois veio a Macedônia. Em seguida a Bósnia-Herzegovina. E, na sequência, veio a guerra.

Naquela altura, a indústria vinícola da Iugoslávia era forte. E o país era um dos maiores exportadores do mundo de vinho por atacado. Exuberante em quantidade, não era famosa exatamente pela qualidade. Mas a tradição de vinhos sobreviveu a anos de guerra e à divisão do país. E, depois de uma longa visita ao fundo do poço, vinícolas de repúblicas que faziam parte da antiga Iugoslávia já chamam a atenção da Europa e do mundo para o que é feito ali. E, melhor ainda, desta vez é pela qualidade da bebida. E não pelo volume de litros.

Das ex-repúblicas iugoslavas, três se destacam na produção de vinhos: Croácia, Eslovênia e Macedônia. E com uma produção voltada majoritariamente para a qualidade, a Eslovênia é que produz os vinhos mais interessantes. Situada entre os Alpes e o Adriático, o país tem três regiões produtoras: Podravje, Posavje, e Primorje. A produção anual varia entre 800 mil e 900 mil hectolitros, esparramados em 21.600 hectares. Ou seja, em uma área quase duas vezes maior, a Eslovênia faz cerca de metade da quantidade do vinho que é produzido em Bordeaux, na França.

Podravje é a maior das regiões vinícolas eslovenas e conhecida especialmente pelos ótimos vinhos de sobremesa que produz e por brancos de altíssima qualidade. Fica entre as fronteiras com Áustria e Hungria e é dividida em seis áreas: Maribor, Radgona-Kapela, Srednje Slovenske Gorice, Haloze, Ljutomer-Ormoz, e Prekmurske Gorice. De influência mais francesa, e focada em vinhos de corte, especialmente brancos, Posavje é famosa pela imensa variedade de solos. Apenas em Bela Krajina, uma das quatro sub-regiões de Posavje, existem 22 tipo de solo. Região fronteiriça com a Itália e que mais sofre a influência mediterrânea, Primorje produz vinhos minerais, de média acidez e ricos em aromas. Embora seja a única região que produza tintos e brancos na mesma quantidade, são os brancos mesmo é que se destacam no cenário internacional.

Embora ainda esteja relativamente atrasado em comparação aos eslovenos, o vinho croata não para de crescer. E conta até com uma estrela mundial. Mike Grgich é um dos grandes enólogos do mundo. Em 1973, quando morava nos Estados Unidos, Mike foi o enólogo responsável pela produção do Château Montelena Chardonnay, que, três anos mais tarde, seria eleito o melhor vinho branco em uma prova às cegas realizada na França, entre vinhos franceses e americanos, no que ficaria conhecido mundialmente como O Julgamento de Paris. Na Croácia, Mike produz vinhos de altíssima qualidade. E é um estudioso da plavac mali, casta autóctone croata, prima-irmã da zinfandel.


A Croácia é divida em duas regiões principais, a costeira e a interiorana. Cada uma delas é subdivida em diversos pequenos distritos. Ao todo, a Croácia tem cerca de 300 áreas definidas para a produção de vinhos. No interior, os brancos são a maioria absoluta. A casta mais plantada é a graševina, que gera vinhos leves, de acidez elevada e mediamente aromáticos. No litoral, a imensa quantidade de ilhas e colinas criam uma infinidade de microclimas. Variedades bordalesas como cabernet-sauvignon e merlot são as mais plantadas junto com uvas autóctones como a plavac mali.

Embora ainda esteja um degrau abaixo do que fazem eslovenos e croatas, os vinhos da Macedônia não deixam de ser interessantes. O país tem três regiões produtoras: Povardarie, no centro do país; Pchinya – Osogovo, ao leste; e Pelagonia – Polog, a oeste. A maior é mais importante é Povardarie, que concentra 85% da produção do país. Entre os vinhos macedônios, vale a pena conhecer os feitos com a vranec, uva tinta típica de lá, que gera vinhos ricos em aromas, de boa estrutura e de grande carga tânica. Outra uva local interessante é a branca zilavka, que gera vinhos pouco aromáticos, mas cheios de volume e estrutura na boca.

Por enquanto, ainda não existem vinhos de nenhuma das ex-repúblicas iugoslavas no Brasil. Mas, em feiras realizadas na Europa, alguns importadores provaram coisas interessantes destes países e novidades podem em breve chegar ao nosso mercado. Estaremos esperando com as portas abertas.

Vinho da semana:
Piodilei Chardonnay Langhe 2007
Piemonte, Itália
De um pequeno vinhedo em Barbaresco vem as uvas, colhidas sempre bem maduras, para este vinho, um dos grandes brancos italianos. Intenso e rico no nariz, com notas de pêssego, abacaxi, especiarias e amêndoas. Na boca, tem boa estrutura, é macio, fresco e persistente.
Nota: 9
Preço: R$ 227,10
Onde: Decanter (2286-8838)

Barato bom:
Birilo 2005
Toscana, Itália
A Grand Cru vai parar de importar este vinho, leve, fresco e saboroso corte de cabernet-sauvignon, merlot e sangiovese. Por este motivo, as garrafas que ainda existem na loja estão em promoção, com os preços quase pela metade. Corra, antes que acabe.
Nota: 8
Preço: R$ 39
Onde: Grand Cru (2511-7045)

sábado, 3 de julho de 2010

Respirar é preciso

por Alexandre Lalas

Muitas vezes quando abrimos uma garrafa de vinho, a bebida está quase sem aromas. No jargão dos enófilos, dizemos que o vinho está fechado. Nestes casos, recomenda-se colocar o líquido em um decanter para que o contato com o oxigênio liberte os aromas da bebida. Dizemos, então, que o vinho está abrindo. Dependendo do rótulo, leva tempo para que o vinho abra. Com a promessa de diminuir esta espera, surgiram os aeradores.

De um tempo para cá, o mercado de vinho tem sido invadido por estes produtos. Duas versões já estão disponíveis nas lojas e sites de vinho, outro está a caminho e ainda há um aerador francês que promete transformar qualquer vinho jovem em um ancião centenário em questão de segundos.

Para entender alguns destes produtos, a Confraria dos Nove se reuniu, na semana passada, para avaliar alguns dos aeradores disponíveis no mercado. O mesmo vinho foi provado, às cegas, em seis diferentes versões: passando pelo Vinturi, pelo The Wine Finer, pelo Oxyger De Vin, usando a Clef du Vin, um decanter normal e abrindo a garrafa sem aerar.

Participaram da degustação, além do colunista, a sommelière Cecilia Aldaz, do Eñe; o chef Danio Braga, da Loccanda; Paulo Nicolay, vice-presidente da SBAV-RJ; Ricardo Farias, diretor da ABS-RJ; a crítica de gastronomia Luciana Plaas e o empresário Duda Zagari, da Confraria Carioca, loja que cedeu os vinhos para a prova. A degustação foi realizada no Lorenzo Bistrô, no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio de Janeiro e o serviço foi conduzido com eficiência pelo dublê de garçom e sommelier Radamés Chinemann.

O teste foi feito primeiro com o espanhol Petit Grealo 2004, vinho espanhol sem passagem em madeira. A mesma prova foi repetida em seguida com o também espanhol Pujanza 2005, que tem estágio de 18 meses de barricas de carvalho. Foram conferidas notas de zero a dez para cada uma das versões dos dois vinhos. Só que mais importante do que estabelecer um vencedor da degustação foi avaliar o comportamento de cada aerador com os diferentes vinhos. E, finda a degustação, a principal conclusão foi de que ainda é preciso estudar, e muito, o assunto.

Abaixo, o desempenho de cada um dos aeradores nas duas provas:

Clef du Vin: produto francês, desenvolvido pelo sommelier Franck Thomas e pelo químico Lorenzo Zanon. É uma espécie de chave, com uma liga de metal, que promete “envelhecer” o vinho através de uma rápida oxigenação, promovida por reação química aos tais metais. Segundo o fabricante, cada segundo da chave em contato com o vinho, em dose de 10 cl, equivale a um ano de envelhecimento. Na prova, a chave ficou dois segundos em contato com o líquido.

No vinho sem passagem por madeira, o desempenho da Clef du Vin foi sofrível e obteve a pior nota para os degustadores. Já quando foi usada no vinho com envelhecimento em barricas de carvalho, a geringonça teve um resultado melhor: foi a que obteve a maior nota dos provadores. Ou seja, para vinhos sem madeira, não vale a pena usar o acessório. Não disponível no Brasil, custa US$ 129 no site www.vinetpassion.com.

Oxyger De Vin e Vinturi: Ambos funcionam seguindo o mesmo princípio: o aumento da velocidade de um fluido em movimento provoca a diminuição de sua pressão. Ambas as peças têm dois pequenos furos laterais, que sugam o ar para dentro do aerador e aumenta a oxigenação do vinho. Na prova, o americano Vinturi saiu-se um pouco melhor do que o brasileiro Oxyger de Vin, em ambos os vinhos. Porém, as médias dos dois produtos foram muito próximas. E, em ambos os casos, os vinhos ficaram melhor do que fossem servidos diretamente da garrafa para a taça. O Vinturi está a caminho do Brasil e custará cerca de R$ 120. Já o Oxiger de Vin é vendido no site Artesanato do Vinho (www.artesanatodovinho.com.br) e custa R$ 100.

The Wine Finer: Desenvolvido pelo designer dinamarquês Marcus Vagnby, funciona além de aerador, como filtrador e corta-gotas. Telas muito finas de aço inoxidável filtram a bebida que passa por 32 micro aeradores na hora em que o vinho é servido. Na prova, o Wine Finer saiu-se bem melhor com o vinho barricado, quando obteve a segunda maior nota. Na bebida sem passagem em madeira, em compensação, o Wine Finer ganhou apenas da Clef de Vin. Custa R$ 199 e é vendido na Spicy, e nos sites do Ponto Frio e do Extra.

Vale lembrar que o bom e velho decanter, cujos aeradores prometem aposentar, saiu-se muito bem com os dois vinhos.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Cenoura mecânica

por Luciana Plaas

 Para manter a tradição que tem dado certo nesta Copa, procurei uma receita holandesa para o jogo de hoje. A culinária sem dúvida não é das habilidades mais notáveis dos holandeses. Cheguei a encontrar uma receita de hutspot, uma carne cozida, cortada em cubos e misturada com purê de legumes (cenoura, feijão branco, batata e cebola). Este prato costuma ser servido com cerveja. Mas não me empolguei com a receita. Mas para não deixar os supersticiosos de plantão de cabelo em pé, resolvi o problema justamente pelo que a seleção holandesa tem de mais marcante: a cor laranja. Vou fazer um bolo de cenoura bem laranja e, por via das dúvidas, abrir o apetite antes com alguns queijinhos bem holandeses: Gouda, Edam e Leyden.

Receita do bolo de cenoura

Assadeira redonda de 20 cm

250 ml óleo vegetal
4 ovos batidos
225g açúcar mascavo
140g de cenoura sem casca e ralada
225g farinha com fermento
½ colher de chá de bicarbonato
1 ½ colher de chá de canela

Cobertura
45g de manteiga sem sal (fora da geladeira)
170g cream cheese
300g açúcar de confeiteiro
1 colher de chá de essência de baunilha

1 Acenda o forno na temperatura de 180C. Unte a assadeira.
2 Numa vasilha, misture o óleo, os ovos, o açúcar e a cenoura.
3 Peneire a farinha, o bicarbonato de sódio a canela em uma outra vasilha.
4 Misture os ingredientes das duas vasilhas.
5 Coloque na assadeira. Asse por aproximadamente 35 minutos.
6 Faça o teste do palito de dente para saber quando está bom. Enfie no meio do bolo se o palito sair limpo está pronto.
7 Para a cobertura, bata a manteiga e o cream cheese até que forme uma mistura homogênea . Peneire o açúcar por cima da mistura da manteiga e com o cream cheese. Acrescente a baunilha.
8 Quando o bolo esfriar coloque a cobertura por cima.

Até o próximo jogo.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ceviche chileno

por Luciana Plaas

Para manter o ritual que tem dado certo nesta Copa, uma receita de um prato bem típico chileno, nossos adversários no jogo de logo mais, o ceviche. Esta receita serve quatro pessoas

Ingredientes:

450g de filé de peixe (tamboril, salmão ou atum) cortado em tirinhas
Suco de limão de 2 limões
1 colher de azeite extra virgem
1 pitada de pimenta vermelha
1 pimenta fresca ardida cortada bem pequena e sem semente
1 colher de sopa de cebolinha picada
1 abacate partido e cubos
1 tomate partido em cubos sem semente
Sal e pimenta a gosto

Modo de preparo

1 Coloque o peixe cortado, a cebola, ao suco de limão, o azeite, a pimenta vermelha e a ardida e metade da cebolinha cortados em uma vasilha. Mexa ocasionalmente. Se o peixe estiver cortado em tirinhas bem finas levara 3 minutos. Estará pronto quando o peixe ficar com uma tonalidade opaca.
2 Tempere com pimenta e sal. Arrume o ceviche com o abacate e tomate.
3 Sirva salpicado com o restante da cebolinha.

sábado, 26 de junho de 2010

O cara

por Alexandre Lalas

Muita gente costuma dizer que o Dão é a Borgonha de Portugal. A comparação, embora um tanto exagerada, existe por conta da elegância comum aos bons rótulos das duas regiões. E também por conta do preço, relativamente alto se comparado ao de outros lugares produtores de vinho. Mas, se considerarmos de fato que o Dão é uma espécie de Borgonha de Portugal, então Álvaro Castro, dono e enólogo da Quinta da Pellada é a versão lusa de Aubert de Villaine, o responsável pelos míticos vinhos da Domaine de La Romanée-Conti.

É Álvaro Castro o principal produtor do Dão. Lá, ele é "O cara"! Em uma região cheia de potencial, mas marcada pela irregularidade do que é produzido, os vinhos da Quinta da Pellada são sinônimos de alta qualidade. Desde a linha mais em conta, com bebidas mais simples e acessíveis, aos rótulos mais caros, tudo é bom, acima da média.

A vinícola nasceu em 1980, quando o Álvaro herdou a propriedade e decidiu retomar a tradição da família em produzir vinhos, quebrada havia duas gerações. Na vinha, cuidado minucioso com as plantas. Na cantina, modernas técnicas de vinificação aliadas a métodos ancestrais. Esta é a filosofia de Álvaro, que lançou o primeiro vinho em 1989. Desde então, não parou mais.

Em recente visita ao Rio de Janeiro, Álvaro apresentou os vinhos que faz, de diferentes estilos, para distintas ocasiões. Abaixo, uma breve análise de cada um dos rótulos. Todos os vinhos de Álvaro Castro são importados pela Mistral (3534-0044)

Primus 2009
Dão, Portugal
Branco produzido com vinhas velhas de encruzado, bical, cercial, terrantez e verdelho; de média intensidade aromática, com notas de frutas secas, com ligeiro tostado; na boca tem volume, frescor, bom corpo, um toque cítrico, muito equilíbrio e um final longo.
Nota: 9
Preço: N/D no Brasil

Quinta de Saes Reserva Branco 2005

Dão, Portugal
Branco de cinco anos de idade e ainda em plena forma, este vinho é um exemplo clássico da capacidade do Dão de gerar grandes vinhos e da competência de Álvaro Castro em produzi-los. Delicado no nariz, elegante na boca, com bom volume, médio corpo, acidez perfeita, fruta e persistência.
Nota: 9
Preço: N/D no Brasil

Saes 2008
Dão, Portugal
Tinto de entrada de gama, fácil de beber e de gostar. No nariz, fruta. Na boca, é leve, frutado, fresco, com a elegância de sempre, marca registrada dos vinhos de Álvaro Castro.
Nota: 8
Preço: US$ 27,66

Quinta de Saes 2007
Dão, Portugal
Muita fruta fresca, com um toque floral no nariz. Na boca, é vivo, leve, fresco, bem equilibrado, bem frutado e com um final de média persistência.
Nota: 8
Preço: US$ 40,24


Quinta de Saes Estágio Prolongado 2007
Dão, Portugal
Tinto feito com vinhas velhas de touriga-nacional e tinta roriz; nariz de intensidade média, com notas de violeta, fruta madura, especiarias e um leve tostado. Na boca, tem bom corpo, volume, taninos finos, acidez correta e final longo.
Nota: 8,5
Preço: US$ 60,36


Quinta da Pellada 2007
Dão, Portugal
Corte de touriga-nacional e tinta roriz, vindas de vinhas velhas. Elegante no nariz, com notas de violeta e frutas vermelhas maduras. Na boca, encorpado, volumoso, fino, com acidez perfeita e final longo.
Nota: 9
Preço: US$ 125,34

Pape 2006
De vinhas de duas quintas (passarela e pellada) sai este tinto, corte de baga e touriga-nacional. No nariz, violeta e fruta fresca, aliada a um toque balsâmico e com evolução para chocolate amargo. Na boca, encorpado, vigoroso, com taninos finos, acidez bem marcada e um final longo e fresco.
Nota: 9
Preço: US$ 118,86

Carrocel 2007
Dão, Portugal
Feito exclusivamente com a touriga-nacional; elegante no nariz, repleto de notas florais, em especial, a violeta, e com cereja e amora. Na boca, tem bom corpo, taninos macios, leveza, acidez perfeita, vivacidade e um final longo e intenso.
Nota: 9,5
Preço: US$ 184,54


Quinta da Pellada Touriga Nacional 2004
Dão, Portugal
Este é um dos grandes tintos portugueses, de nariz intenso, com aromas de violeta, rosa, fruta vermelha e notas de baunilha e tostado. Na boca, delicado, macio, fino, envolvente, redondo, vivo, longo, com leve sensação de doçura no longo final.
Nota: 9,5
Preço: US$ 125,34

Doda 2005
Dão e Douro
Este vinho chamava-se Dado. É uma junção de Dão e Douro, regiões de onde vêm as uvas. Mas problemas com o registro da marca fizeram com que o nome mudasse para Doda. Pouco importa. O que interessa aqui é que a parceria de Álvaro Castro, da Quinta da Pellada, no Dão, com Dirk Van Der Niepoort, da Niepoort, no Douro, funciona que é uma maravilha. No nariz, violeta e frutas vermelhas frescas. Na boca, impressiona pela estrutura e pela elegância, com taninos macios, fruta, vivacidade e um final enorme e longo.
Nota: 9,5
Preço: US$ 113,31

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Bacalhau de sexta

por Luciana Plaas

Dizem que em time que está ganhando não se mexe. E como na semana passada deu sorte postar antes do jogo contra a Costa do Marfim uma receita típica do país africano, decidi repetir o ritual. E escrever sobre a comida de Portugal, nosso próximo adversário na Copa do Mundo. Quem sabe assim não garantimos mais uma vitória.
Lembro bem da primeira vez que fiz um bacalhau. Ficou muito ruim. Não sabia direito quanto tempo para dessalgar, nem quanto cozinhar e, principalmente, faltava uma boa receita. Conclusão: foi um completo fiasco. Até que um dia, voltei ao restaurante português, Gruta Santo Antônio, em Niterói.

Experimentei as punhetas de bacalhau. E amei. Enquanto comia, aproveitei para folhear o livro Cozinhar é preciso (Ed. Senac-Rio, R$ 27,90), escrito por Dona Henriqueta Henriques, a proprietária do restaurante. Enchi-me de coragem, comprei o livro e resolvi tentar fazer de novo um bacalhau. A primeira receita que me arrisquei foram as punhetas. Deu certo e fui me arriscando mais. Graças as receitas da Dona Henriqueta, hoje posso dizer que sei fazer bacalhau. Por isso, a receita escolhida para o jogo dessa sexta-feira foi:


Punhetas de Bacalhau
(bacalhau cru desfiado)
Rendimento: 2 porções

Ingredientes

250g de bacalhau cru desfiado e demolhado
pimenta do reino a gosto
2 colheres de sopa de cebola em tirinhas finas
um pouquinho de alho picado
2 ou 3 gotas de vinagre
8 colheres de sopa de azeite
sal a gosto
1 colher de sopa de pimenta-rosa
utensílios necessário: travessa

Modo de preparar
1.Misture, com as pontas dos dedos, o bacalhau cru desfiado e demolhado (mais ainda um pouquinho de sal) com todos os ingredientes (exceto a pimenta-rosa).
2.Acerte o sal.
3.Disponha a mistura em uma travessa, regue com mais azeite e acrescente a pimenta rosa.
Segredinho
Corte rodelas de pão, coloque por cima delas um pouco da "punheta de bacalhau", como se fosse um canapé. É bom demais.

E rumo ao hexa!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Do inferno ao inverno

por Alexandre Lalas

Oficialmente, o inverno começou apenas hoje, dia 21. Mas, na prática, o frio já chegou há tempos. Depois de um verão escaldante, quando a Cidade Maravilhosa mais parecia uma sucursal do inferno, os cariocas experimentam o alívio de um friozinho civilizado. E, já que na Copa do Mundo a única coisa a esquentar até agora foi o técnico Dunga, melhor deixar o futebol de lado e apostar em tintos encorpados e vinhos fortificados.

E não faltam opções de bons vinhos para todos os gostos e bolsos. Desde malbecs argentinos que esbanjam potência e concentração a delicados vinhos de porto, há de tudo. E, para ajudar na hora de escolher o rótulo certo para a ocasião, nada melhor do que uma boa listinha, com dez vinhos que perfeitos para aquecer o inverno de qualquer enófilo.

Kaiken Malbec 2008
Mendoza, Argentina
Poucos vinhos são tão bons e tão baratos quanto este malbec feito por esta vinícola, de propriedade da chilena Viña Montes. Violeta muito marcada no nariz, alia vigor e frescor. Combina com um bom ojo de bife.
Nota: 8
Preço: US$ 18,50
Onde: Vinci (2236-5390)


Château la Villatade Cuvée Sanguine 2008
Minervois, França
Este é mais um bom syrah que vem do Languedoc. Nariz de intensidade média, com aromas de frutas vermelhas e um toque de ervas frescas. Na boca, tem médio corpo, taninos presentes, boa presença e um final médio com pequeno amargor.
Nota: 8
Preço: R$ 48
Onde: La Cave Jadot (11 2478-2001)


Bridgewater Mill Shiraz Viognier 2005
Adelaide Hills, Austrália
Corte de shiraz com viognier, feito por esta vinícola que faz parte da Petaluma. Nariz expressivo, com notas de amora, um toque floral e um fundo de baunilha. Na boca, macio, de médio corpo, fresco, fácil, com final longo e agradável.
Nota: 9
Preço: R$ 87
Onde: Wine Society (2286-3873)

Blog 2006
Alentejo, Portugal
Tiago Cabaço produz em Estremoz, no Alentejo, este belo corte de alicante bouschet, syrah touriga-nacional. No nariz, é intenso e vigoroso, com fruta bem madura e especiarias. Na boca, é carnoso, denso, grande, com uma acidez generosa e um final longo e intenso.
Nota: 9
R$ 133
Onde: Adega Alentejana (2286-8838)

Domaine Baud Macvin do Jura
Jura, França
Vinho fortificado com aguardente vínica, produzido com a uva savagnin na região de Jura, na França. Rico em aromas, com notas de tangerina, damasco, casca de laranja, maçã, noz e mel. Na boca, combina bem açúcar e acidez, é untuoso e com um final largo. Vai bem com melão, creme de papaia, tarte tatin ou mesmo como aperitivo. Sirva bem gelado.
Nota: 8,5
Preço: R$ 148
Onde: Le Tire Bouchon (11 3822-0515)


Dona Maria Reserva 2005
Alentejo, Portugal
Júlio Bastos foi durante muito tempo o proprietário da Quinta do Carmo. Depois que vendeu a marca, manteve parte das vinhas e montou outra vinícola. Este Reserva é um corte de alicante bouschet, petit verdot e syrah, fermentado em lagares de mármore e com estágio em barricas de carvalho. Rico, intenso e limpo no nariz, com notas de frutas vermelhas frescas, um toque de menta, canela e chocolate. Na boca, é volumoso, macio, equilibrado e longo.
Nota: 9
R$ 155
Onde: Decanter (2286-8838)


Palácio da Bacalhôa 2005
Setúbal, Portugal
Rico e intenso no nariz, com notas de compota, frutas secas, chocolate e café. Na boca, é concentrado, estruturado, com boa acidez e um final largo. Vai muito bem com pratos de carne vermelhas e caça. Ainda jovem, merece ser decantado por uma hora.
Nota: 9
Preço: R$ 189
Onde: Bacalhôa Vinhos (2532-0957)


Roquette e Cazes 2006
Douro, Portugal
Intenso, persistente, rico e limpo no nariz, com notas de frutas vermelhas frescas muito bem combinadas com leves notas de tostado e chocolate amargo. Na boca, tem ótima estrutura, taninos macios, é elegante, harmônico, e com um final longo e frutado. Combina com lombo de porco, confit de pato, e outros pratos a base de carne. E também pode ser degustado solo, como um vinho de meditação. Decante por uma hora antes de servir.
Nota: 9,5
Preço: R$ 220
Onde: Qualimpor (2256-0858)


Domaine Roux Chambolle Musigny Les Charmes 1er Cru 2006
Borgonha, França
Clássico francês, este é um tinto espetacular. Delicadeza e elegância são as palavras-chave deste líquido, que representa, com louvor, uma das melhores áreas da Borgonha. Para muitos, um vinho feminino. Combina com magret de pato e coelho. Precisa ser decantado por uma hora, pelo menos.
Nota: 9,5
Preço: R$ 450
Onde: Zahil (3860-1701)


Paul Hobbs Cabernet Sauvignon Stagecoach Vineyard 2005
Califórnia, Estados Unidos
Poderoso no nariz, tem tudo o que um cabernet-sauvignon precisa ter: aromas de cassis, cereja preta, amora, chocolate, grafite. Na boca, corresponde às expectativas: musculoso, saboroso, com taninos redondos, muita fruta e uma acidez perfeita. Longo até dizer chega, pede carne. Ainda um bebê, precisa ser decantado por, no mínimo, uma hora.
Nota: 9,5
Preço: US$ 460,65
Onde: Mistral (3534-0044)

domingo, 20 de junho de 2010

Prá frente, Brasil

por Luciana Plaas


Passei os últimos dias tentando achar uma receita tradicional da Costa do Marfim. Afinal, os africanos, que estão entre os maiores exportadores mundiais de cacau (empresas como Cadbury, Hershey's e Nestlé compram a fruta dos marfinenses), serão os nossos adversários na Copa do Mundo, no próximo domingo. Não foi nada fácil. Precisei da ajuda do meu amigo Yann Lesaffre, que além de outras coisas é um gastrônomo de carteirinha, para encontrar, em um site francês, uma receita típica da Costa do Marfim. Parece interessante, e bastante diferente também. Ainda não testei. Quero fazer no domingo, na hora do almoço, antes do jogo. Quem se animar, também pode experimentar. Quem sabe assim tiramos um pouco da força de nossos adversários. Afinal de contas, nossa Seleção até que anda precisando de uma ajudinha extra. E em época de Copa do Mundo, tudo é valido.

Receita de coxa de frango da Costa do Marfim

Ingredientes:
4 coxas de frango
4 bananas
4 batatas doces pequenas
2 papaias pequenos ou 1 grande
O suco de um limão
3 colheres de sopa de curry
1 cebola cortada em tiras
100ml de leite de coco
sal

Para a marinada:
2 colheres de sopa de molho de soja
1 colher de sopa de azeite
2 dentes de alho picado
Sal a gosto

Modo de preparo:
Aqueça o forno na temperatura de 200C.
Junte todos os ingredientes da marinada e coloque sobre as coxas do frango. Reserve.
Descasque as batatas. Corte em quatro e cozinhe na água com sal.
Coloque as bananas com casca no forno pré-aquecido.
Parta o papaia ao meio, tire as sementes e a casca. Jogue suco de limão por cima e reserve. Coloque as coxas de frango, com a marinada, numa vasilha que possa ir ao forno.
Salpique as coxas com curry.
Quando as bananas já estiverem assadas, tire a casca e corte em quatro.
Suba o forno para 220C e coloque o frango para assar com as cebolas cortadas.
Após 20 minutos, regue as coxas com 200 ml de água quente.
Continue a assar por mais 10 minutos.
Coloque as batatas, as bananas e o papaia na vasilha com o frango.
Asse por mais 10 minutos.
Quando já estiver quase na hora de tirar do forno, acrescente o leite de coco e deixe no assar por mais 5 minutos.
Tire do forno, leve à mesa e aproveite.

Que venham os outros países e novas receitas!!!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Pujança espanhola

por Alexandre Lalas
Pujança significa robustez, força, vigor. No sentido figurado, grandeza, poderio, magnificência. Pois os vinhos da Pujanza, bodega espanhola de Rioja, exprimem com exatidão todos os significados da palavra. São vinhos robustos, fortes, vigorosos, grandes, poderosos e magnificentes. E, ainda por cima, adorados pela crítica especializada. Tanto que obter pontuações altas é quase uma rotina para o pessoal da bodega. Na edição 2010, o Guia Proensa conferiu 100 pontos ao Pujanza Norte 2007. Outro guia espanhol, o Gourmets, deu nota 9,5 ao mesmo vinho. Jay Miller, colaborador de Robert Parker, elaborou recentemente uma lista com os melhores vinhos de Rioja, na opinião dele. Quatro rótulos da Pujanza estavam na lista: com 95 pontos, o Cisma 2007; com 94 pontos, o Norte 2007; com 91, o Pujanza 2007; e com 90, o Díos Ares Crianza 2007. Ou seja, não faltam credenciais aos vinhos de Carlos San Pedro, dono e enólogo da Pujanza.

A vinícola é relativamente nova. É um projeto pessoal de Carlos, filho e neto de enólogos, e que possuía 15 hectares de vinhas em Laguardia, no coração da Rioja Alavessa. A primeira safra foi a de 1998, lançada no outono europeu de 2001. No ano seguinte, foi inaugurada a cantina própria, e os vinhos passaram a ser feitos literalmente em casa.

No Brasil, os vinhos da Pujanza são representados pela Mercovino, importadora baseada no interior de São Paulo, em Ribeirão Preto. Na semana passada, Rodrigo Arteaga Jiménez, braço-direito de Carlos San Pedro, esteve no Rio para apresentar alguns dos vinhos da casa. Em uma degustação no Fasano, provamos o Díos Ares Crianza 2006, o Pujanza 2005, o Pujanza Norte 2005 e o Pujanza Cisma 2006.

De uma linha mais popular da vinícola e feito com a tempranillo, o Díos Ares Crianza 2006 é um vinho mais leve e fácil do que os outros da família Pujanza. Nariz de intensidade média, com aromas de cereja e framboesa, notas de especiarias e um toque de baunilha. Na boca, alia força e frescor, tem taninos macios, bastante fruta e um final longo e relativamente doce.

Também feito exclusivamente com a tempranillo, o Pujanza 2005 é uma beleza. Intenso e rico no nariz, com notas de frutas maduras, alcaçuz, chocolate e baunilha. Na boca, frescor, potência e elegância, com taninos finos, fruta madura e um final delicioso.

O Pujanza Norte 2005 vem de um único vinhedo de 2,2 hectares, a 680 metros de altitude e plantado por Carlos San Pedro quando ainda era adolescente. É um corte de tempranillo (60%) com 40% de outras uvas (as tintas graciano, marzuello e a branca viura). E o vinho é um espetáculo. Nariz rico, intenso e longo, com um amplo leque aromático, com notas de amora, cereja, café, chocolate, alcaçuz, couro e especiarias. Na boca, superlativo. Com o perdão do trocadilho, pujante. E no meio de tanta força e intensidade, sobra elegância. Um grande vinho que está pronto e pode ser degustado já.

O Pujanza Cisma 2006 é outro espetáculo. É feito com a tempranillo de vinhas bem velhas, de mais de 100 anos de idade, de um vinhedo único de 0,7 hectares, em La Valcavada a 550 metros de altitude. Também rico e intenso no nariz, com notas de amora, cereja preta, fumo, couro e alcaçuz. Na boca, alia robustez e elegância, com frescor, frutas negras, e um final longo e com um toque de baunilha. Jovem, vai ficar ainda melhor com mais alguns anos de garrafa.

Vinho da semana:
Pujanza Norte 2005
Rioja, Espanha
Nariz rico, intenso e longo, com um amplo leque aromático, com notas de amora, cereja, café, chocolate, alcaçuz, couro e especiarias. Na boca, superlativo. Taninos finos, macio, robusto, harmônico, elegante, e com um final bem longo e arrebatador. Caro, mas vale cada centavo.
Nota: 10
Preço: R$ 350
Onde: Mercovino (9123-5615)

Barato bom:
Díos Ares Crianza 2006
Rioja, Espanha
Nariz de intensidade média, com aromas de cereja e framboesa, notas de especiarias e um toque de baunilha. Na boca, alia força e frescor, tem taninos macios, bastante fruta e um final longo e relativamente doce.
Nota: 9
Preço: R$ 59
Onde: Mercovino (9123-5615)

Para guardar:
Pujanza Cisma 2006
Rioja, Espanha
Rico e intenso no nariz, com notas de amora, cereja preta, fumo, couro e alcaçuz. Na boca, alia robustez e elegância, com frescor, frutas negras, e um final longo e com um toque de baunilha. Jovem, vai ficar ainda melhor com mais alguns anos de garrafa.
Nota: 9,5
Preço: R$ 980
Onde: Mercovino (9123-5615)

sábado, 5 de junho de 2010

A arte de fazer café

por Luciana Plaas

Começar o dia com um café bem feito é sempre bom. Pensando nisso, aceitei o convite para conhecer o Cafuné, uma cafeteria na Barra da Tijuca. O horário marcado foi 11 da manhã. Só consegui chegar às 11h40min. Ainda em jejum, e meio envergonhada pelo atraso. Logo, o barista do Cafuné, Leo Moço, me perguntou por qual café gostaria de começar. Deixei para ele a responsabilidade em escolher. Veio o capuccino (R$6,00).

Quando dei o primeiro gole, lembrei do melhor capuccino da minha vida, que tomei em Londres. Eu tinha ido participar de uma seleção de padeiros para um restaurante local chamado Locanda Locatelli. Depois de o dia inteiro na cozinha, o barista, um senhor italiano muito simpático, me ofereceu um capuccino. No final da história, não aceitei o trabalho, mas o tal capuccino ficou na minha memória. Memória gustativa é assim, parece um sonho. Fica ali guardadinha, quase que escondida. Até que um dia você finalmente encontra algo que te faz ter as mesmas sensações. Aí como se fosse mágica, o que estava ali escondido reaparece. E o capuccino do Cafuné conseguiu se igualar aquele de Londres. Não é pouca coisa.

Os donos são dois apaixonados por café, Thiago Antunes e Léo Moço. No início a idéia era ter um lugar que só servisse café. Até um blend próprio eles criaram: o cafuné. É uma mistura de grãos arábica provenientes de fazendas capixabas. Mas a necessidade falou mais alto e eles agora servem os quitutes da Casa da Tatá para acompanhar a bebida.

O proprietário da Fazenda Camocim, Espírito Santo, Henrique Araújo, também estava lá nesse dia. A fazenda dele é biodinâmica, e produz o Jacu Coffee Bird. É um tipo de café cujos grãos são selecionados pelo jacu, ave nativa da Mata Atlântica. O jacu se alimenta dos melhores frutos do café e, após a digestão, elimina os grãos ao pé das árvores. Depois de colhidos manualmente, limpos e guardados, os grãos dão origem a um café de rara qualidade. Pude provar, é muito especial mesmo.

No Cafuné o cliente pode escolher como vai ser preparado o café. O que não faltam são opções. Tem até café coado em filtro cônico e porta-filtro de porcelana, vindos lá do outro lado mundo, da terra do sol nascente. Uma das coisas que aprendi é que, para minha surpresa, os japoneses são o povo que mais entende de café no mundo, junto com os noruegueses. E olha que nem um nem outro são conhecidos pela produção de café!

Outra novidade, pelo menos para mim, foi uma geringonça, que mais parece uma espécie de ampulheta gigante, onde a pessoa coloca os grãos de café ali e deixa na geladeira por várias horas. A ideia é tirar a acidez do café e manter a cafeína. Uma ótima pedida para quem tem problemas estomacais, mas não abre mão de um cafezinho.


Cafuné
Città America
Avenida das Américas, 700 bloco 8, loja 115K
Barra da Tijuca
(21) 2132-8260

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A noite de Seu Antônio

por Alexandre Lalas
Seu Antônio ficou tão emocionado no dia da formatura da filha que não aguentou: mal chegou em casa, apagou. Acordou apenas no dia seguinte, deitado em uma cama de hospital. Só então, teve noção da gravidade da situação. Seu Antônio tivera um derrame e quase foi para o outro lado. Felizmente, a recuperação foi completa. Com apenas uma ressalva: o danado do médico proibiu Seu Antônio de beber. Que maldade!

Pois Antônio Dal Pizzol, desde então, segue a risca as orientações do médico. Salvo uma ou outra exceção, afinal de contas, ninguém é de ferro. E na semana passada, Seu Antônio abriu uma destas exceções. Não era para menos. A noite era de gala. Em um jantar no restaurante da chef Roberta Sudbrack, Seu Antônio estava lá para mostrar aos cariocas o mais novo lançamento da vinícola que dirige e leva o seu nome, a Dal Pizzol. E não era um vinho qualquer. E sim, o rótulo comemorativo dos 35 anos de existência da empresa, um corte de cabernet-sauvignon (45%), merlot (35%), cabernet franc (10%) e ancellotta (10%), de produção limitada a 3.350 garrafas, todas numeradas! Não havia recomendação médica que impedisse Seu Antônio de bebericar uma ou outra tacinha. Mas sem exageros, é claro.

A Dal Pizzol, a vinícola do Seu Antônio, é uma empresa familiar, desde sempre voltada para a produção de vinhos finos. A cantina fica em Faria Lemos, distrito de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. Para a feitura dos vinhos, são usadas uvas compradas de produtores parceiros da vinícola, espalhados por Serra Gaúcha, Campos de Cima da Serra e Encruzilhada do Sul. A produção é controlada por dois enólogos e pelo engenheiro agrônomo da Dal Pizzol. São produzidas 250 mil garrafas por ano.

O enólogo responsável pelos vinhos é Dirceu Scottá e a filosofia da vinícola é clara: vinhos frescos, com muita fruta e sem passagem em madeira. E é exatamente assim o Dal Pizzol 35 anos: um vinho com a cara e o frescor de Seu Antônio.

Dal Pizzol 35 anos Assemblage 2005
Faria Lemos, Brasil
O mais legal deste 35 anos é que, no primeiro gole, mesmo às cegas, pode-se afirmar que é um vinho da Dal Pizzol. Este tipo de assinatura é um bem que cabe à vinícola preservar. Vinho gastronômico, cresce com comida. De preferência, carne.
Nota: 8,5
Preço: R$ 60 (preço por garrafa em caixa de seis fechada, no site da vinícola)
Onde: www.dalpizzol.com.br

sábado, 29 de maio de 2010

Il mio nome non è Eduardo!

por Alexandre Lalas

Apesar da forte chuva e do tráfego intenso, o produtor italiano Pio Boffa, da vinícola Pio Cesare, conseguiu chegar ao aeroporto de Congonhas a tempo de embarcar no voo previsto, com destino ao Rio de Janeiro. Nem cinco horas da tarde eram ainda, e havia tempo suficiente para chegar o Rio, fazer o check-in no hotel em Ipanema e descansar um pouquinho antes de ir para o jantar com clientes da Decanter, importadora que traz para o Brasil os vinhos da Pio Cesare. O evento estava marcado para começar às 20h30, no restaurante D’Amici, no Leme. Mas, infelizmente para Pio, as coisas não saíram exatamente como deveriam...

Para começar, atraso na hora do embarque. E, para piorar a vida do já cansado italiano, fila. Dezenas de senhorinhas carregando bolsas imensas amontoavam-se no saguão do aeroporto a espera do chamado para embarcar. E a fila crescia. Pio não sabia, e nem poderia saber, que o brasileiro tem uma estranha mania: formar filas em salas de embarque de aeroportos. Por mais que os lugares sejam marcados e que o avião não decole sem que todos os passageiros estejam a bordo, o brasileiro não quer saber: basta dois ou três resolverem esperar de pé perto do portão de embarque que forma-se uma fila. Pio não sabia disso. E, vendo a fila formada, imaginou que o embarque já tivesse sido autorizado. E lá foi o italiano do Piemonte para o fim da fila. Que, evidentemente, não andava. E só foi andar já quase às seis, quando o embarque foi finalmente autorizado.

No avião, nada a reclamar. Voo tranquilo e tempo para um rápido cochilo. Afinal de contas, com o atraso para o embarque, já não haveria mais a chance de uma boa relaxada no hotel antes do jantar. O desembarque no Rio foi calmo e um motorista aguardava o italiano no desembarque do Santos Dumont. Eram seis e vinte.

No Rio, caos. Chuva fina, tudo parado no Aterro do Flamengo. E, para azedar ainda mais o humor de Pio Boffa, ar-condicionado no máximo, um motorista que não falava inglês (e muito menos italiano) e um carro que morria a cada dez metros. E a hora passando. Já passava das sete, nada de chegar o hotel. E o jantar marcado às 20h30. No Leme.

Depois de muito trânsito e morridas do carro, enfim, o hotel. O relógio marcava sete e meia. Ainda havia tempo para um banho rápido antes do jantar. Não deu. Ainda havia mais um imprevisto na conta do italiano. No balcão, na hora do check-in, mais confusão:

- Boa noite; perguntou o recepcionista do hotel.

- Boa noite. Tenho uma reserva aqui, meu nome é Pio Boffa; disse o italiano.

O recepcionista olhou no computador, olhou para Pio, olhou de novo no computador, e mandou:

- Tenho uma reserva aqui para o sr. Eduardo Pio.
- Bom, eu não me chamo Eduardo. Meu nome é Pio Boffa.

Sem entender muito bem o que estava acontecendo, um confuso recepcionista chamou o gerente. Que mal chegou e pediu o passaporte de Pio. O gerente olhou o passaporte, olhou para Pio, olhou para o computador. Sem saber o que fazer, perguntou:

- Nós aqui temos uma reserva marcada para Eduardo Pio. Por um acaso o senhor não teria Eduardo no seu nome?

Já sentindo o sangue piemontês ferver nas veias, Pio argumentou que não tinha sequer algum parente chamado Eduardo. Nova rodada de explicações por parte do staff do hotel, nenhuma solução. O italiano perguntou então se havia quartos disponíveis. Havia. Pio quis saber o preço e quase caiu para trás: o mais barato, na parte dos fundos do hotel, sem vista para a praia, custava uma pequena fortuna.


Cansado, irritado e, a esta altura, atrasado, Pio ligou para o dono da importadora. O problema é que, ao mesmo tempo em que o italiano voava para o Rio, o dono da Decanter ia para Florianópolis. E estava com o telefone desligado. Depois de muita insistência, Pio finalmente falou com Adolar Hermann, o dono da importadora. Explicou o que acontecia. Adolar falou com o gerente. Que, depois de uma rápida conversa, explicou a Pio que a agência responsável pela reserva fizera uma confusão e que o Eduardo Pio em questão era, de fato, Pio Boffa.

Desfeito o imbróglio, Pio subiu ao quarto, largou as bagagens e foi para o D’Amici. Lá, comandou um autêntico banquete, harmonizado com os fabulosos vinhos da Pio Cesare. O italiano apresentou os rótulos, contou a história da família e respondeu às perguntas dos convivas. No dia seguinte, refeito, ainda comandou um brunch para profissionais do mundo do vinho. Em seguida, voltou ao aeroporto e embarcou rumo a Turim. E prometeu voltar, em setembro. Com mais tempo, a família e de férias. Será bem-vindo. E se trouxer os magníficos vinhos que produz, melhor ainda...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Canja para quem precisa

por Luciana Plaas

Nas últimas semanas, quase todo mundo com que falo está ou esteve com gripe. Eu também tive. Durou 10 dias. Depois foi a vez do Alexandre. A dele já está quase no fim. Agora é a minha sogra que começou a apresentar os sintomas. Nem minha dentista se safou.

Pensando nisso, a coluna desta semana é voltada aos gripados de plantão. É para os que mal conseguem sair de casa, nem sentir gosto ou cheiro de coisa alguma. Uma receitinha simples e gostosa, da tradicional canja de galinha.

Canja de galinha:
1 cebola grande picada
1 dente de alho picado
2 cenouras descascadas e raladas
1 folha de louro
3 talos de salsa
1kg de frango (coxa e sobrecoxa sem pele)
1 colher de sopa de manteiga
2 colheres de sopa de azeite, sem ser extra virgem
2 litros de água
1 tablete de caldo de frango ou 100ml do caldo feito em casa
250 gramas de massa conchigliette lisce, da De Cecco, ou qualquer outra do gosto do doente
Salsa, coentro ou manjericão picado.

Tempere o frango com pimenta e sal, e reserve. Refogue a cebola com manteiga, até que fique translúcida, depois acrescente o alho. Acrescente o azeite. Quando estiver quente coloque o frango. Deixe dourar um pouco. Acrescente o caldo e deixe ferver um pouco. Coloque na panela o louro, e os talos de salsa. Acrescente a água, deixe ferver e baixe e fogo. Cozinhe com tampa por 30 minutos.

Com uma colher grande, tire da borda da panela a gordura que subiu.

Suba o fogo. Quando voltar a ferver, acrescente a massa ou e as cenouras. Cozinhe o tempo que diz no pacote da massa.

Prove para acertar o sal. Retire o louro e os talos de salsa. Sirva com o tempero que mais gostar.

Quem estiver com preguiça para fazer em casa, pode ir a algum restaurante e pedir o prato. O Lamas, no Flamengo, por exemplo, faz. Custa R$ 26. Não vai curar a gripe, mas dá certo conforto. Um último detalhe, serve também para outras mazelas do estomago, ajuda no frio e, como dizia a minha avó, prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Delícias em casa

Delícias da Dona Gema é uma das muitas entradas do Giuseppe Grill. Parece um pão de queijo, mas só que comprido e fino. E é feito com grana padano. Uma tentação!

A novidade é que não é mais preciso ir até o Giuseppe para provar as delícias. Didi Ribeiro, maître do restaurante e filho da Dona Gema, está aceitando encomendas para festas, jantares e afins.

Maiores informações pelo telefone 21 8128-6143.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Meu amigo Paulo Coelho

por Alexandre Lalas

Fazia frio naquela bela manhã de outono em Montalcino, histórica cidadezinha no interior da Toscana. O ano era 2005. Acordei bem cedo e fui andar pelas ruelas. Era domingo e o comércio ainda estava fechado. O lugar estava deserto e parecia que a cidade era toda minha. Passei pela igreja, pela praça e cheguei à Fortezza de Montalcino, um castelo medieval que se manteve de pé ao longo de guerras e invasões. Quando entrei, a loja de vinhos que fica dentro da fortaleza estava fechada, mas ao acabar a minha visita, a enoteca recém-abrira e ainda não tinha nenhum outro cliente. Dei uma olhada pelos vinhos, uma autêntica parede de brunellos. Vi também que a loja oferecia duas degustações verticais: uma de Brunello Biondi-Santi, de cinco diferentes safras, custava 25 euros. Mas a que me chamou mais a atenção foi a outra: seis safras do Sassicaia, um dos maiores vinhos italianos, por 75 euros. Abri a carteira, contei meus trocados e vi, resignado, que teria que me contentar com a prova de Biondi-Santi.

A atendente era uma italiana baixinha e bem gordinha, com os cabelos presos, de cerca de 40 e poucos anos. Paguei a ela e comecei, com meu italiano macarrônico, um papo informal enquanto ela me servia os vinhos, que, por sinal, estavam maravilhosos. Papo vai e papo vem, ela, percebendo meu sotaque pra lá de estranho, me perguntou de onde eu era.

- Brasil, respondi.

A senhora sorriu e disse que tinha muita vontade de conhecer o Brasil, que adorava a nossa cultura e coisa e tal. Perguntei a ela o que conhecia do nosso país, e ela, de primeira, rebateu:

- Sou muito fã de Paulo Coelho! Li todos os seus livros!

Acometido por um súbito ataque de canalhice, menti descaradamente, sem titubear:

- Paulo Coelho?!?! É muito meu amigo!! Meu vizinho de porta, no Rio de Janeiro!

A mulher se transformou. Parecia que ela estava diante de uma celebridade. Queria saber tudo sobre o escritor. Se era simpático, se tinha cachorro, se saía muito de casa, seu prato preferido, e tudo mais que a sua imaginação permitisse perguntar. Eu, que nunca encontrei Paulo Coelho na minha vida, ia inventando as respostas.

Finda a prova dos brunellos, eu já me preparava para encerrar o papo e ir embora quando a senhora me ofereceu, por conta da casa, a degustação de Sassicaia. Aí foi a vez de os meus olhos brilharem. Eu nunca tinha provado o vinho. No Brasil, seu preço estava muitos zeros acima do meu apertado orçamento. Evidentemente, não havia como recusar. Eram seis safras: 1985, 1990, 1995, 1996, 1997 e 1998. Difícil descrever em palavras a emoção que sentia a cada gole. E a senhora, inebriada por imaginar estar na presença de um sujeito íntimo de um de seus grandes ídolos, caprichava na dose. Meu preferido foi o Sassicaia 1985. Mas poderia ter sido o 1990, ou o 1995. Estavam todos magníficos. Saí de lá com a alma nas nuvens. E com a obrigação moral de, no dia em que esbarrar com Paulo Coelho em algum lugar, dar-lhe meu muitíssimo obrigado. Mesmo que ele jamais entenda a razão.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Surpreendente e encantador

por Luciana Plaas


Fazia tempo que sentia vontade de escrever sobre o restaurante Zuka, na Rua Dias Ferreira. Mas, nas duas últimas vezes que fui lá, não fui feliz. Escolhi mal. E ficava com a sensação de que os pratos da mesa do lado estavam sempre melhores do que o meu. Não que a comida estivesse ruim, longe disso. Eu é que esperava algo que me surpreendesse, me encantasse. Afinal, o Zuka está sempre lotado. E, para que eu tenha paciência de enfrentar aquela fila, a comida tem que ser muito, mas muito especial mesmo. Só que, no fim das contas, o restaurante vive cheio por motivos que transcendem a (boa) comida da chef Ludmilla Soeiro. Mas a impressão que dá é que, para a maioria dos frequentadores do Zuka, mais importante do que comer bem é ver e ser visto

Mas nesta noite em questão, eu cheguei ao Zuka completamente despretensiosa. Afinal, o objetivo da noite era conhecer os vinhos da vinícola Camigliano, num jantar organizado pela Casa Flora. Era um daqueles jantares em que a pessoa sequer tem escolha: o cardápio harmonizado é fechado previamente entre chef e importadora.
Antes de o jantar chegar, provamos três vinhos: Rosso di Montalcino 2008 (R$58), Brunello di Montalcino 2004 (R$140) e Brunello di Montalcino Gualto Riserva 2003 (R$305). Para acompanhar, o couvert (caldinho de vitela com xerez, biscoito polvilho em forma de palitos e grissinis). Os brunellos ainda estavam novos demais. Quanto ao couvert, era impossível parar de comer os biscoitos de polvilho, ainda mais quando estão crocantes como aqueles estavam...

O primeiro prato foi o creme brulè de abóbora com carne seca. Estava uma delícia. Bem delicado. O doce da abóbora balanceado com o salgado da carne seca e ainda com uma saladinha para acompanhar. E olha eu me encantando com a comida do Zuka...

O prato seguinte, tenho que confessar, esperei desanimada. Era uma costela de cordeiro com crosta de nozes, molho de ossobuco e cubos de polenta. Eu até gosto de cordeiro. O problema é que já tinha comido a carne no almoço. Mas quando chegou, bastou a apresentação do prato para me animar de novo. Estava lindo! E, além de bonito, muito gostoso. Estava suculento, no ponto que pedi. A polenta estava crocante por fora e molinha por dentro. Era hummm pra cá, hummm pra lá. Meus colegas de mesa não se continham. Paulo Nicolay disse que o cordeiro do Zuka é sempre bom. Dionísio Chaves jurou que há muito tempo não comia um cordeiro tão bom. E eu só ouvindo. Continuei quietinha até terminar todo o meu prato. Logo eu que estava cansada de cordeiro. Realmente uma gostosura. E olha eu me surpreendendo com a comida do Zuka...

Com o cordeiro, vieram os outros dois vinhos da noite: Poderuccio 2008 (R$48) e Cabernet Sauvignon Sant'Antimo 2005 (R$75). Este último, para mim, foi o melhor da noite.

Na hora da sobremesa, nós podíamos escolher entre brigadeiro de biscoito Maria e mel ou pudim de milho verde, melado de canela e lascas de coco. Optei pelo brigadeiro. Chegou quentinho dentro de um copo. Devorei tão vorazmente o meu, que o vizinho de frente quis até me vender o dele!

No fim das contas, saí do Zuka muito feliz. E entendi que, por mais que muitas pessoas batam ponto lá para verem ou serem vistas, a comida, que é o que realmente importa em um restaurante, é capaz sim de surpreender e encantar.

Zuka
Rua Dias Ferreira 233, Leblon
21 3205-7154
www.zuka.com.br

Casa Flora
21 2447-8944 / 9213-4384
www.casaflora.com.br

terça-feira, 18 de maio de 2010

Raros e originais

por Alexandre Lalas

Uma sucessão de charmosos vilarejos ancestrais e campos verdes por onde pastam gordas vacas e recortada por belas montanhas. Este é o Jura, isolada região ao leste da França, quase na fronteira com a Suíça, que produz, além de um ótimo queijo de massa dura chamado Comté, vinhos de sabores e caráter únicos. Mas que, infelizmente, ainda não estão devidamente representados no mercado brasileiro. Poucas importadoras investem em vinhos desta região.

A originalidade dos vinhos começa nas cepas. Tudo bem que chardonnay (localmente chamada de melon d’Arbois) e pinot noir batem ponto no Jura. Mas a branca savagnin e as tintas poulsard e trousseau garantem a tipicidade da região. O clima é continental, com outonos longos e suaves, invernos muito frios e com muita neve, e verões quentes e ensolarados, mas, às vezes, marcados por mais chuva do que o desejado. Os solos são uma mistura de argila e calcário.

São quatro as denominações de origem do lugar: Arbois, Château Chalon, Côtes-de-Jura e Étoile. Mas, muito mais importante do que as denominações em si, são os tipos de vinhos produzidos no Jura, em especial dois deles: o vin jaune (ou vinho amarelo) e vin de paille (vinho de palha).

O vin jaune pode ser descrito como uma versão francesa do xerez. É feito com a savagnin, colhida bem madura e em vinhedos de baixo rendimento. Após as fermentações convencional e malolática, o vinho é transferido para barricas antigas de 228 litros, onde permanece por seis anos. Neste período, ocorre um fenômeno raro: um véu de leveduras, semelhante à flor do xerez, se forma na superfície, impedindo a entrada de ar. Durante o envelhecimento, ocorre uma forte evaporação do vinho, o que explica o formato único da garrafa de vin jaune, de 620 ml. É que, de cada litro existente nas barricas, sobram apenas 620 ml após os seis anos de estágio na madeira. O vin jaune tem um gosto quase salgado, que lembra muito o do xerez fino. Nozes, curry e gengibre são aromas comuns. Este tipo de vinho pode ser produzido em todas as regiões do Jura, mas os de maior prestígio vêm de Château Chalon, uma denominação que só produz o vinho amarelo.

O vin de paille é feito com uvas deixadas sobre uma cama de palhas, de outubro a janeiro. Os bagos ficam desidratados e geram um suco rico e concentrado. A fermentação é feita em pequenos barris e podem durar até quatro anos. O resultado é um vinho doce e sedoso, rico de aromas, com notas de marmelada e frutas em calda como figo, pêssego e damasco.

Além dos originais vin jaune e vin de paille, o Jura produz bons espumantes (em geral feitos com a chardonnay, pelo método tradicional), e brancos, rosados e tintos leves e frescos. Outra especialidade do Jura é o Macvin, um vinho de fermentação interrompida, muito parecido com o Pineau de Charentes (outro fortificado francês), mas um pouco mais seco.

sábado, 15 de maio de 2010

Resistir é preciso

por Luciana Plaas

Na década de 1950, a Rua Dona Mariana, em Botafogo, tinha um comércio muito forte. Na esquina com Voluntários da Pátria, onde hoje é o banco Itaú, funcionava um açougue. O dono era um português que num certo momento resolveu voltar para a Terrinha. Antes de ir, ofereceu o açougue ao seu funcionário mais leal, Luiz Rodrigues dos Santos. O 'Seu' Luiz, como era mais conhecido, ficaria com o lugar e pagaria ao português aos bocadinhos. Tudo na base da confiança. Então, de empregado, Seu Luiz passou a patrão.

O açougue prosperou. Nessa época ainda não havia os supermercados para competir e todo mundo comprava carne era no açougue mesmo. Além de várias famílias, Seu Luiz atendia às embaixadas da redondeza.

Seu Luiz gostava do ofício, de trabalhar a carne. Reformou o lugar, casou, e veio o Luizinho, que desde pequeno ia pro açougue com o pai e a mãe. Virou o negócio de família: a mãe no caixa, o pai cuidando das carnes e Luizinho só de olho em tudo que acontecia.

Em 1980, o Itaú, fez uma proposta irrecusável e comprou todo o comércio que funcionava ali naquela esquina. Mas o açougue não desapareceu, ao contrário de muitos outros. A família apenas se mudou. Foram para a movimentada Voluntários da Pátria, ainda em Botafogo. Um estabelecimento menor, mas com o mesmo capricho. Câmera frigorífica, tudo no seu devido lugar.

Luizinho, filho do seu Luiz, desde a mudança, começou a ficar mais à frente dos negócios. Reparou que teria que fazer alguma coisa diferente porque estavam perdendo muitos clientes para os supermercados. Então, resolveu trabalhar com carnes exóticas: rã, jacaré, perdiz, carne de siri. Isso tudo sem deixar de lado os cortes bovinos. E resolveu fazer também cortes de cordeiro: french rack, short rack, não muito comuns em supermercados.

Com o tempo, Luizinho virou 'Seu' Luiz. Além dos diferentes tipos de carne e corte, o atendimento e o esmero são diferenciais do açougue. Eu prefiro comprar carne ali. Nos supermercados tudo é muito impessoal.

Hoje, o Seu Luiz Pai está com 89 anos. E passa muito bem. Tem motivos de sobra para ter orgulho do filho. Luizinho sabe o duro que dá para manter um açougue aberto em 2010. Os tempos são outros. Nem vale mais a pena manter a carne exposta, é tudo por encomenda. Mas ele não desanima. Enquanto houver gente querendo carne de açougue, Luizinho estará lá firme e forte. E eu continuarei indo lá, comprando minha carne de cordeiro moída, coelho, barriga de porco...

Delícias da Carne
Rua Voluntários da Pátria, 340 F
(21)2527-7125/(21)8105-4435
deliciasdacarne@gmail.com

domingo, 9 de maio de 2010

Por uma boa causa

A 2ª Edição do Restaurant Week começa no dia 10 e vai até o dia 23 de maio. É uma boa oportunidade para ir a um restaurante com um preço bem mais em conta. Serão 90 restaurantes participando, com entrada, prato principal e sobremesa a um preço fixo, igual em todos. Almoço por R$ 27,50 + R$ 1 e jantar por R$ 39 + R$ 1 (couvert não incluso). Este um real acrescentado à conta será encaminhado a uma entidade beneficente, a Projeto Crescer e Viver (www.crescereviver.org.br).

Maiores informações sobre cardápios e horários de funcionamento no site www.restaurantweek.com.br.

Restaurantes participantes:
00 Cozinha Contemporânea – Gávea
Applebees – Barra
Aquarela - São Conrado
Aquim Café – Leblon
Arab – Copacabana
Armazém Devassa – Ipanema
Atoa! Café – Barra
B 52 – Botafogo e Maracanã
Bar d'Hotel - Hotéis Marina – Leblon
Benkei – Barra e Ipanema
Bistro du Leme – Copacabana
Branche - Golden Tulip - Copacabana
Caroline Café - Jardim Botânico
Casa Julieta de Serpa - Flamengo
Deck Contemporâneo - Recreio
Devassa – Barra, Botafogo, Centro, Copacabana, Flamengo, Ipanema, Leblon, NYCC, Recreio, Rio Design Barra, Barra, Tijuca, Barra da Tijuca
Domenico - Leblon
Emporium Pax - Botafogo Praia Shopping e Shopping da Gávea
Esch Café - Leblon
Felice – Ipanema e Lebo
Fiammetta - Rio Design Barra
Barra, Rio Plaza e Botafogo
Filet e Folhas Up - Centro
Focaccia - Leblon
Gabbiano - Barra
Garcia e Rodrigues – Barra e Leblon
Garden - Ipanema
Gatto Rosso - Barra
Gueisha Hi-Tech - Botafogo
Gula Gula – Barra, Barra Shopping, Fashion Mall, Ipanema, Jardim Botânico, Leblon, Rio Design Barra, Rio Design Leblon, Rio Plaza Botafogo e Shopping da Gávea
In House Café Bistrô - Barra da Tijuca
Jasmim Manga - Santa Teresa

sábado, 8 de maio de 2010

Aeração a jato

por Alexandre Lalas

Eu não sou um sujeito dos mais crédulos. Sou um tanto cético até. Não costumo acreditar em soluções instantâneas ou efeitos milagrosos. Ainda mais em questões relacionadas ao mundo do vinho. Por isso, quando o sommelier Dionísio Chaves me convidou para ir ao Fasano prestigiar o lançamento do Vinturi, pensei duas vezes. Mas, movido muito mais pela vontade de prestigiar o meu amigo do que pela curiosidade em conhecer o produto, fui lá conferir.

Muitas vezes, ao abrirmos um vinho, a bebida não está exatamente como pensada pelo enólogo. Falta-lhe aroma. Neste caso, dizemos que o vinho está “fechado”. Quando o oxigênio entra em contato com o líquido, alguns aromas são liberados. Em alguns casos, um decantador pode ser utilizado para acelerar este processo. O tempo varia de acordo com a bebida. Para abrir, um vinho pode levar 30 minutos. Às vezes, leva ainda mais tempo. O Vinturi, o tal produto que seria lançado no Fasano, promete cumprir este papel em questão de segundos. Antes de ir, como de costume, torci o nariz para a invencionice e não levei a menor fé no resultado.

Acontece que o inventor do Vinturi não é um sujeito qualquer. Rio Sabadicci já trabalhou na NASA e na Apple. É daqueles caras que vivem para inventar coisas. Bebedor de uísque, um belo dia, jantando na casa de amigos, ficou intrigado quando o anfitrião decantou um cabernet-sauvignon no vale do Napa. O fato de o vinho melhorar depois de algum tempo aberto despertou a curiosidade de Rio pelo assunto. Como todo norte-americano que se preza, Rio não gosta de esperar. E, no tempo livre que tinha, assim, como um hobbie, decidiu inventar algo que aerasse o vinho imediatamente. Dois anos depois, chegava ao mercado o Vinturi.

No Fasano, cada degustador recebeu quatro taças de vinho: duas de branco, duas de tinto. O branco era um chardonnay e o tinto, um cabernet-sauvignon. Ambos chilenos, ambos ainda bem jovens. Estávamos lá para ver se realmente havia diferença entre o vinho que passara pelo Vinturi e o outro, que não havia passado. Eis que eu, sujeito sem fé, caí bonito do cavalo.

Entre os brancos, a diferença era abissal. Enquanto o que não havia passado pelo produto apresentava um nariz dominado pela madeira, com aromas de baunilha e coco, o outro, que havia passado pelo Vinturi, mostrava-se menos intenso aromaticamente, porém muito mais elegante e agradável. No caso dos tintos, o sem Vinturi tinha um aroma forte de pimentão verde, que sumiu, como por encanto, na taça do que havia passado pelo aerador. Ou seja, em ambos os casos, o vinho melhorou com o produto.

Com o tempo, ambos os vinhos se equivaleram. Mas o fato é que o Vinturi, de fato, cumpre o que promete: uma rápida aeração da bebida. E isso acontece por conta de pequenos furinhos laterais que promovem uma rápida oxigenação do vinho. Existe a versão para tintos e a para brancos. Esta última tem furinhos laterais um pouco maiores, e são recomendadas também para a aeração de vinhos feitos com a pinot noir e a syrah.

Nos Estados Unidos, o Vinturi é líder de mercado entre os aeradores. Por lá, custa cerca de US$ 40. Já a caminho do Brasil, custará algo em torno de US$ 70. Coisa de R$ 120. A quem não crê na eficácia do troço, eu recomendo experimentar. Fazer experiências, aliás, é meu plano, assim que comprar o meu. Vou querer ver em quais casos a utilização do Vinturi vale a pena. Rio Sabadicci não tinha o menor respeito pelo vinho. Caso tivesse, certamente sequer teria pensado em inventar uma coisa dessas. Mas que o negócio funciona, isso não há como negar.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Entre dois mitos

por Alexandre Lalas


A Arzuaga Navarro fica no coração da Ribera Del Duero, exatamente entre a mítica Vega Sicilia e o aclamado Domínio de Pingus. São 150 hectares de um solo pobre e repleto de rocha calcária. E, assim como os vizinhos, Ignacio Arzuaga Navarro faz ali, desde 1993, vinhos de qualidade rara, sempre entre os melhores produzidos na Espanha.

Na última terça-feira, Ignacio veio ao Rio para apresentar os vinhos aos enófilos da cidade. Um almoço no Bistrô 66 com donos de restaurantes e jornalistas, e um jantar no Terzetto dirigido ao consumidor final. Fui ao jantar.

O primeiro prato, polvo cozido com páprica espanhola, não veio acompanhado por um vinho da Arzuaga. A Cava Raventós, trazida pela mesma importadora, a Decanter, fez as honras. Tanto o prato quanto o espumante estavam bons.

Então começou o serviço dos vinhos que estávamos lá para provar: os da Arzuaga Navarro. O primeiro foi o Crianza 2006 (R$ 125, Nota 9). E a melhor palavra para descrever este corte de tempranillo (90%), cabernet-sauvignon (7%) e merlot (3%) é frescor. No nariz, fruta vermelha e notas de baunilha. Na boca, além da acidez marcante, fruta, cremosidade e equilíbrio. Um belo cartão de visitas. O segundo vinho foi o Reserva 2005 (R$ 230, Nota 8,5). Nariz de média intensidade, com notas de frutas negras e especiarias e um toque de baunilha. Na boca, nervoso, com taninos ainda duros, mas elegantes, bom corpo e final longo e com leve amargor. Um vinho de guarda, que tende a melhorar com a idade. Com os dois vinhos, foi servida uma paella valenciana. Estava saborosa e combinou bem com ambos os vinhos.

Em seguida, provamos o Reserva Especial 2004 (R$ 400, Nota 8,5), corte de tempranillo (95%) com albillo, chamada de blanca del pais na região (5%). Intenso no nariz, com notas de frutas negras frescas, baunilha e alcaçuz. Na boca, untuosidade, maciez e equilíbrio. Ao mesmo tempo, foi servido o Gran Reserva 2001 (R$ 580, Nota 9,5). Corte de vinhas bem velhas de tempranillo (95%), com uma pequena porcentagem de cabernet-sauvignon e merlot. Nariz rico e intenso, com notas de frutas negras frescas, cogumelos, alcaçuz, canela e cravo. Na boca, fino, generoso, macio, intenso, longo. Um grande vinho com muita estrada pela frente. Para acompanhar os vinhos, filé mignon com redução de vinho, foie gras fresco e aromas de trufas. Prato pesado e que não ajudava em nada os tintos.

Para finalizar os trabalhos, outros dois vinhos: Gran Reserva 1996 (R$ 580, Nota 9) e Gran Arzuaga 2004 (R$ 800, Nota 9,5). O primeiro demorou a abrir, mas quando o fez, apresentou aromas de couro, tabaco, baunilha e especiarias. Na boca, amplo, fino, sedoso, longo. O Gran Arzuaga 2004 foi o vinho da noite. Corte de tempranillo (95%) com albillo (5%), nariz intenso e rico, com notas de cereja, amora, cacau, tabaco, terra. Na boca, estrutura e classe andam de mãos dadas. Fino, sedoso e sedutor, harmônico, longo. Já está ótimo, mas ficará ainda melhor com o passar dos anos. Estes últimos dois vinhos foram degustados sem comida. Nem precisava. São, ambos, vinhos de meditação. Dignos do terroir de onde vêm.

Os vinhos da Arzuaga Navarro são importados pela Decanter. O telefone da loja no Rio de Janeiro é 2286-8838. Os preços são relativos ao mercado carioca e são promocionais, válidos até o final de maio.

Nas fotos abaixo, Ignacio Arzuaga e os participantes do jantar.